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estudos:richir:mitologia4
Fenomenologia do pensamento mitológico (PM §4)
Marc Richir, “O que é um deus?”, em SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph von. Philosophie de la mythologie. Tradução: Alain Pernet. Grenoble: J. Millon, 1994.
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A mitologia apresenta-se como um problema filosófico que não pode ser assimilado aos objetos ordinários do saber
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A mitologia não se oferece como um conjunto de representações empíricas suscetíveis de explicação causal ou histórica
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Ela não se deixa reduzir a um material simbólico produzido por uma consciência já constituída
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Seu modo de aparecer antecede a própria posição do sujeito reflexivo
O caráter problemático da mitologia reside precisamente no fato de que ela se impõe como um campo de sentido prévio-
Não é algo que a consciência elabora
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É algo diante do qual a consciência se descobre já engajada
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A insuficiência estrutural da filosofia moderna diante do fenômeno mítico
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A filosofia reflexiva moderna funda-se no primado do sujeito e da atividade constituinte
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O sentido é pensado como resultado de operações de tematização e distanciamento
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A reflexão supõe a possibilidade de colocar seu objeto diante de si
Tal estrutura revela-se inadequada para pensar a mitologia-
O mito não é exterior à experiência que o acolhe
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Ele não pode ser isolado como objeto sem ser desfigurado em seu sentido próprio
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A mitologia como instauração originária do sentido
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A mitologia deve ser compreendida como um acontecimento originário
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Um processo no qual o sentido surge antes da clivagem entre sujeito e objeto
O mito não visa explicar o mundo a partir de princípios racionais-
Ele faz advir o mundo enquanto mundo significativo
A mitologia não representa-
Ela manifesta
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Ela inaugura um horizonte no qual algo como experiência e compreensão se tornam possíveis
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A crítica das leituras alegóricas e racionalizantes do mito
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As interpretações alegóricas tratam o mito como discurso indireto
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O mito seria apenas uma forma imaginativa de exprimir verdades conceituais
Tal procedimento subordina o mito a um sentido que lhe é exterior-
O mito perde sua positividade própria
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Torna-se mero veículo de um conteúdo racional já disponível
Essa redução impede o acesso ao nível originário em que a mitologia opera-
Nível no qual o sentido ainda não se separou em forma e conteúdo
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A exigência de uma modificação da atitude filosófica
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Pensar a mitologia exige suspender a soberania da atitude reflexiva
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Não se trata de explicar o mito a partir de categorias prévias
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Trata-se de acompanhar seu modo próprio de manifestação
A filosofia é chamada a uma postura de escuta e acolhimento-
Uma escuta que não antecipa o sentido
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Uma escuta que aceita ser desestabilizada pelo que se dá
O pensamento não domina o mito-
Ele se deixa instruir por ele
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O papel decisivo de Schelling na reconfiguração do problema
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Schelling reconhece a autonomia da mitologia
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Ela possui uma lógica interna
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Não é erro, nem pré-ciência, nem simples ilusão
A Filosofia da Mitologia inaugura um deslocamento fundamental-
A mitologia não é absorvida pela filosofia
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É a filosofia que se transforma ao confrontar-se com a mitologia
Esse deslocamento obriga a repensar o próprio conceito de razão-
Não mais como instância soberana
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Mas como pensamento exposto a uma origem que o excede
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Consequência filosófica maior
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A mitologia revela um estrato arcaico do sentido
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Um estrato anterior às distinções clássicas entre natureza e espírito
Ao encontrar esse estrato, a filosofia encontra também seus limites-
Ela renuncia à pretensão de fundação absoluta
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Assume-se como pensamento em estado de exposição
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