User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:richir:meditacoes-fenomenologicas

Meditações Fenomenológica (1992)

RICHIR, Marc. Méditations phénoménologiques: phénoménologie et phénoménologie du langage. Grenoble: J. Millon, 1992.

Essas “meditações fenomenológicas” são fruto de um longo trabalho de maturação que nos acompanhou desde que, a partir de nossas “Investigaçòes fenomenológicas”, tentamos outros caminhos para a fenomenologia: qual poderia ser o status do que extraímos de maneira positiva nessa tentativa? Essa reflexão deveria passar, necessariamente, por questões de método, de arquitetônica (no sentido kantiano) e, em última instância, de fenomenologia da linguagem. E culminar em uma reformulação geral do que, desde Husserl, se entende comumente por fenomenologia.

Nesse caminho, encontramos dois momentos propriamente instauradores para a fenomenologia: as “Meditações metafísicas” de Descartes e as “Mediações cartesianas” de Husserl. Se intitulamos nossa obra “Meditações fenomenológicas”, foi certamente para prestar-lhes uma homenagem explícita, mas também para sublinhar que, sem dúvida, a fenomenologia, como reflexão filosófica da fenomenalidade dos fenômenos como nada mais que fenômenos, só pode ser “meditada”, ao longo de caminhos que são sempre singulares e, a cada vez, um todo em si mesmos. Não encontraremos aqui uma encenação do sujeito meditador falando na primeira pessoa, nem uma exposição do que se supõe vir a ser uma “ciência” totalmente nova, mas sim o questionamento meditativo do pensamento que se busca a si mesmo através das armadilhas do que sempre tende a reificá-lo, ou seja, a reduzi-lo ao mecânico. Nesse sentido, a homenagem a Descartes está bem na atualização, se assim se quiser, de uma espécie muito estranha de “mathesis” da instabilidade universal — a do pensamento —, através de uma arquitetônica cujos termos são, no entanto, infinitamente variáveis e instáveis, como se o pensamento nunca existisse senão para atravessar “paisagens” que mudam constantemente de aspecto pelas deformações coerentes a que a variabilidade de seus pontos de referência as submete. Estamos certamente longe do Descartes da ciência instituída, mas perto, muito perto mesmo, do Descartes da dúvida hiperbólica. Longe do Husserl da doutrina exotérica, mas perto do Husserl das inúmeras aporias em ação nas “camadas profundas” da “vida transcendental constituinte”.

O que exploramos aqui é, portanto, “a própria coisa” a ser pensada (o fenômeno como nada mais que fenômeno), ou seja, tanto o próprio pensamento em sua enigmática vivacidade, que pode ser percorrido, no “todo” aqui apresentado, do início ao fim, quanto do fim ao início, entendendo-se, que esse “todo” não tem nada de hegeliano, uma vez que é ele próprio infinito, culminando na sua exposição no seio da fenomenologia da linguagem que tentamos desenvolver na V Meditação. Uma palavra, portanto, sobre a estrutura destas “Meditações”.

O conjunto é enquadrado pela Iª e pela VIª, que dizem respeito às relações entre a fenomenologia e a arquitetônica (elas foram objeto de um Seminário no Collège International de Philosophie em 1991-92): elas podem ser lidas por qualquer leitor que tenha alguma familiaridade com a problemática fenomenológica em Husserl, Heidegger, Fink, PatoCka e Merleau-Ponty. Dentro desse quadro, articulam-se dois blocos: o da IIª e da IIIª Meditação, que se baseia na tradição fenomenológica e no momento cartesiano da dúvida hiperbólica, servindo a IIª Meditação como introdução à IIIª, e o da IVª e da Vª, onde, através de uma reformulação completa de nossos próprios trabalhos, acessamos a fenomenologia da linguagem e a questão das relações arquitetônicas entre a linguagem fenomenológica e as línguas instituídas. É aí, propriamente, que tudo reaparece de outra forma e que o percurso infinito da “coisa mesma” a pensar infinita reencontra seus próprios traços, não como elementos positivos de um “sistema” doutrinário, mas como uma espécie de enunciados de problemas sempre infinitos. É aí, em outras palavras, que a arquitetônica, como arquitetônica de questões sem resposta positiva possível — mas não sem tratamento possível —, encontra sua pedra angular. Tudo se sustenta, portanto, apenas no percurso, ou melhor, nos percursos, e nas correspondentes “velocidades de leitura”. Sem esse ou esses movimentos, não há literalmente nada, porque simplesmente não haveria nada para pensar.

Por fim, uma palavra para saldar uma dívida importante. Não só estas “Meditações” foram possibilitadas pela consideração explícita dos problemas arquitetônicos, para os quais nos sensibilizou a VI Meditação cartesiana de Eugen Fink e os trabalhos de F. Pierobon sobre Kant, mas o que nos abriu como uma “quarta dimensão” que torna possíveis as outras, perturbando suas disposições, é a reflexão do conceito excepcionalmente rico e profundo de “transpassibilidade” colocado em jogo, ao longo de sua obra, por Henri Maldiney. Que haja, ao longo de nossas revisões da transpassibilidade, possíveis, ou mesmo inevitáveis infidelidades que nós mesmos não podemos medir, é isso, esperamos, que ele nos perdoará. Pois não podíamos, como se faz frequentemente hoje em dia, criar nós mesmos do nada outra palavra, que nos pareceria um artefato, mesmo quando acreditávamos pensar, a cada vez, o que pensávamos compreender da transpassibilidade segundo Maldiney. O fato de não podermos medir nossas possíveis infidelidades é um caso típico, poderíamos acrescentar, da questão que nos assombrou ao longo dessas “Meditações”: quando pensamos, até que ponto podemos saber que estamos pensando, e que não é a própria linguagem que pensa por nós? Questão que já estava no cerne da hipérbole cartesiana e que mostra, para quem não se cega pelo conhecimento escolar, antigo ou contemporâneo, que a cogitatio não tem nada da “representação” autotransparente ao seu objeto. Criado por Henri Maldiney, o conceito de “transpassibilidade” não é precisamente um desses conceitos lógicos cuja referência é supostamente unívoca. Sua riqueza reside precisamente em ecoar a profusão da experiência singular no emaranhado de suas “referências”.

estudos/richir/meditacoes-fenomenologicas.txt · Last modified: by 127.0.0.1