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História simbólica do corpo: Epicurismo (1993)
RICHIR, Marc. Le corps: essai sur l’intériorité. Paris: Hatier, 1993.
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O epicurismo, nascido no mesmo contexto que o estoicismo e com alguma parentesco a ele, é uma doutrina muito diferente.
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Seu testemunho mais completo nos chega através do poema De natura rerum do poeta latino Lucrécio.
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O epicurismo é também um monismo e um materialismo, mas distinto do estoicismo.
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Os princípios fundamentais do epicurismo são:
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Nada nasce do nada, e nada retorna ao nada.
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O universo é formado, desde sempre e para sempre, de matéria e vazio.
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A matéria não é contínua (como no estoicismo), mas descontínua, constituída de partículas indivisíveis e eternas: os átomos, innumeráveis e multiformes.
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As múltiplas combinações atômicas constituem os objetos e seres, com qualidades resultantes de interações materiais.
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A concepção de alma e corpo no epicurismo:
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A alma é igualmente material, constituída de átomos em estado menos denso, mais rápidos e livres.
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Ela está intimamente ligada ao corpo, acompanhando-o em todas as fases: crescimento, declínio e morte.
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A alma é afetada pelas doenças do corpo e, na morte, dissipa-se no ar, dispersando-se.
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A alma conhece o mundo exterior pelos sentidos do corpo, cujo testemunho é sempre seguro.
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Dos corpos emanam imagens ou simulacros (também materiais), que impressionam os sentidos.
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O problema humano está na má interpretação desses simulacros, nos erros de juízo, ilusões ou sonhos.
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Os simulacros podem iludir a ponto de, por exemplo, no amor, sermos tomados por uma perversão que afasta a verdadeira felicidade (uma paixão mais voltada para si mesma que para o ser amado).
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O epicurismo como doutrina moral visa libertar os homens:
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Libertação dos desejos vãos, crenças vãs e temores vãos.
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Não há nada a temer na morte, pois no momento da morte não estaremos mais presentes para pensar a dispersão da matéria.
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Tudo consiste num justo equilíbrio da sensibilidade e do juízo, numa harmonia disciplinada dos prazeres medidos (não desenfreados) e do pensamento.
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A felicidade perfeita, livre de paixão e perturbação, é uma alma apaziguada em um corpo apaziguado.
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Há uma certa ascese no epicurismo, mas uma ascese “razoável”, destinada a desarmar todo excesso atribuído ao desrazão e à ilusão.
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Crítica social no epicurismo (ausente no estoicismo):
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Crítica de toda oligarquia e tirania, e de toda prática religiosa, apreendidas como excessivas.
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Se há deuses, não têm razão para se ocupar de nós; se há reis, sempre excedem suas prerrogativas.
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Por esses traços, o epicurismo é o mais próximo do que chamamos espontaneamente de sabedoria razoável.
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Sob esses traços, passou quase integralmente para a época moderna, com a força de seu “ateísmo prático”.
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A influência profunda e duradoura do epicurismo:
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Seu materialismo foi, no Renascimento, uma base anti-aristotélica da ciência moderna (ex.: Giordano Bruno usou argumentos de Lucrécio contra Aristóteles).
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Sua influência chega a Jean-Jacques Rousseau, na concepção do “estado de natureza” (pré-cultural), relançando a crítica social presente em Lucrécio (livro V do De Natura rerum).
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Apesar de ser uma doutrina complexa, pode-se julgar essa sabedoria como “fade” (insípida).
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Como na sabedoria estoica (mas de outra maneira), todas as questões parecem convertidas em problemas, onde a caça ao excesso deve trazer a solução.
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Como sabedorias, estoicismo e epicurismo não são mais, de certa forma, filosofias (amor à sabedoria), a menos que se considere que o excesso (os abismos estoicos, os simulacros epicuristas) continue a fazer questão e a realimentar a ascese sem tréguas.
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Nestes dois casos de instituição do corpo (e da alma), questões em excesso sobre os problemas persistem, por assim dizer, “de fora”:
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No estoicismo, sentimos espanto diante da “repressão” do corpo.
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No epicurismo, sentimos um pressentimento de tédio diante da economia razoável do corpo visada.
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Os homens continuam a viver como vivem, e não basta tentar eliminar todo excesso para que ele deixe de existir.
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As duas últimas grandes sabedorias filosóficas da Antiguidade realizam, em certo sentido, a harmonia que os gregos tanto buscaram.
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Mas é ao preço de uma certa morte: morte cultivada no estoicismo, morte integrada ou domesticada no epicurismo.
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Não se trata de “entreter” o excesso nos assuntos humanos, mas sim de que, se a filosofia quer permanecer filosofia, é preciso ao menos permanecer sensível ao excesso da questão sobre o problema.
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