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PENSAR (DENKEN)

PICOTTI C., Dina V. El otro comienzo del pensar y las exigencias de nuestro tiempo. Buenos Aires: Ed. Quadrata de Incunable, 2010.

  • O pensar ocidental, desde seu surgimento grego e através de todo o desdobramento metafísico até seu acabamento, ainda não alcançou seu elemento próprio, e o fato mais grave é que ainda não se pensa.
  • O rasgo fundamental do pensar ocidental é o perceber, que se desdobra no representar, significando observar algo presente, atendendo-o e assumindo-o como presente.
  • Para Parmênides, o pensar mesmo é determinado pelo que o perceber percebe, ou seja, o ente em seu ser, e não pelo mero pensar, e ser significa presença do presente.
  • Presença é o durar interno na inocultação, que acaece onde ela já reina, sendo presente, e à presença pertencem tanto a inocultação quanto o presente, um caráter do tempo.
  • Inocultação e presença permanecem igualmente impensadas, e com elas a procedência essencial do ser do ente, de modo que o propriamente por pensar fica retido e ainda não se tornou digno de ser pensado.
  • Essa afirmação não é um juízo estimativo sobre uma ausência reflexiva, pois o pensável não procede do representar humano, mas dá-se a pensar a partir de si mesmo.
  • O fato de ainda não se pensar não provém de uma incapacidade humana, mas do que há de mais pensável, que se retira de tal modo que, em vez de se dar a pensar, mantém-se em reserva.
  • Para indagar o que significa pensar, é preciso perguntar: o que a palavra pensar nomeia, o que a lógica entende por pensar, o que se requer para pensar adequadamente e o que nos manda pensar.
  • Este último modo de perguntar, sobre o que nos manda pensar, aparece como determinante, pois acontece quando o pensar se torna questionável e se chega a perguntar por ele.
  • O que nos manda, chama a pensar no sentido de que nos remete a pensar, exigindo o pensar para si, porque dá a pensar desde si e não ocasionalmente, sendo o máximamente pensável.
  • O mandato confia nossa essência ao pensar, não como violência, mas fundando a própria liberdade, e ao que é mandado se denomina pensar.
  • A palavra alemã “Gedank” (pensamento) significa o fundo do coração, a reunião de tudo o que nos interessa e nos toca como homens, o que nos está presente.
  • A pergunta pelo que significa pensar, compreendida como o que é mandado pelo ser, abre-se ao incalculável e, ao ser planteada, coloca-se no começo de um longo caminho.
  • A pergunta não visa produzir uma resposta para despachar a questão, mas sim conduzi-la ao questionável, sendo duvidoso que os homens atuais estejam sequer encaminhados a isso.
  • O caminho da pergunta será inevitável no passo para a próxima época da história, e a pergunta é um intento de alcançar esse caminho inevitável, que conduz ao mais provisório, pois o pensar é o mais provisório de todo fazer humano na época em que a modernidade europeia começa a se estender pela terra.
  • A pergunta sobre o que nos manda pensar não considera o pensar como um processo psicológico, e a resposta é um dizer que se move fora do âmbito do enunciado, no interior de uma correspondência que segue o mandato e mantém o perguntado em sua questionabilidade.
  • Sob esse plantio essencial, o pensar aparece em outra dimensão, a originária, como a abertura que permite o pensar e condiciona as coisas, como o dom do pensável e como o mandato que ordena pensar.
  • O pensar meditante, diferentemente do representativo, dirige-se à abertura, à região, que é o congregante volver a abrigar para o amplo repouso, a permanente amplitude que se abre reunindo tudo.
  • Fora de toda efetuação, a região regionaliza o pensar, admitindo-o e condicionando as coisas, e o ser do ente é a abertura na qual cada coisa retorna a si, encontra sua essência e permanece.
  • O pensar, determinado pela região, é reunião, e a essência do pensar não é determinada a partir dele, mas da região, que se essencia regionalizando.
  • Ao pensar assim determinado corresponde o “ir à cercania”, que não é um representar, mas um nomear algo a cuja essência é preciso aguardar para ser admitido a ela.
  • Esse aguardar, chamado de serenidade, é um aventurar-se à abertura da região, permitindo seu domínio, e consiste em o homem permanecer abandonado a ela, pois como essência pensante está inicialmente apropriado a ela.
  • O pensar meditante repousa na serenidade, que é o acolhimento da região, e por isso o pensar é também recuerdo e nobre, detendo-se na origem de sua essência.
  • O pensar é a doação do considerável, que desde si nos reivindica a nos voltarmos a ele pensando, e o considerável é o ser do ente, a presença do presente, o pliegue de ente e ser.
  • Presença significa o permanecer ao encontro, dominando no pensamento grego como o surgir da inocultação, mas não se tornou questionável para os gregos, que não perguntaram onde descansava.
  • Seguindo a sentença de Parmênides, “pois o mesmo é ser que pensar”, o pensar tem sua essência em estar instalado no ser, e o ser guarda o pensar em si, sendo o pliegue de presença e presente que entraña o mandato que chama a pensar.
  • A mais grandiosa variação dessa sentença aparece em Kant, com o princípio supremo dos juízos sintéticos a priori, e em Hegel, que a transforma ao dizer “ser é pensar”, movendo-se ambos no mesmo âmbito que Parmênides.
  • O pensar torna-se um recuerdo do pliegue de ente e ser, e a tarefa do pensar é a acolhida desse dom, prestando-lhe atenção para, em um dizer, confiá-lo à fala originária da linguagem.
  • A reivindicação do considerável se manifesta como um apartar-se que se dirige a nós, aparecendo desde si ao mesmo tempo em que se oculta, retendo-se e estando sempre diante do homem como evento.
  • O homem, atraído pelo que se sustrai, tem sua essência cunhada em direção ao que o atrai, e pode corresponder-lhe apenas assinalando-o, deixando-o aparecer em sua própria inocultação.
  • Esse assinalar não é algo ocasional, mas a própria essência do homem, que é um signo sem interpretação, um sinal que aponta para o que se sustrai e apenas pode recordá-lo.
  • O recuerdo, em seu sentido essencial, é a reunião do pensar no que é por considerar antes de tudo, que se oculta nele, e esse simples assinalar é um rasgo fundamental do pensar.
  • A localidade do pensar é totalmente diferente da da ciência, não havendo entre ambas uma ponte, mas um salto, e a demonstração lhe seria uma medida inadequada, pertencendo-lhe o assinalar.
  • Não apenas o que é por pensar é uma doação, mas o pensar mesmo é mandado, e o mandato, que é o chamado que chama, ordena à nossa essência pensar, confiando nela como tal, que é enquanto pensa.
  • Sob a guia da sentença de Parmênides, o mandato do pensamento ocidental ordena pensar, e o pensar descansa em um desejar o que é por pensar, uma inclinação para o que antes nos deseja e sustenta em nossa essência.
  • Somos capazes de pensar na medida em que admitimos em nós o que é por pensar e guardamos essa admissão, reunindo o pensar no que é por considerar.
  • O que significa pensar é compreendido desde o “Gedanc”, antiga palavra alemã que nomeia o fundo do coração, a reunião de tudo o que nos importa, e já estamos reunidos nele por essência, correspondendo-lhe com o recuerdo.
  • A palavra “memória” nomeava inicialmente esse concentrado não desistir do que importa, e o recordar é o agradecimento originário, que não é retribuir, mas ir ao encontro para permitir expressamente em sua essência aquilo que propriamente se dá a pensar.
  • O pensar é um caminho para isso, que exige um passo atrás do pensar representativo metafísico para o pensar memorante, uma correspondência à reivindicação do ser que procede dela e se despede para ela.
  • Tal correspondência ao ser do ente constitui o rasgo fundamental de nossa essência, na qual sempre e em toda parte nos detemos, sendo nossa estância, e ela está determinada pela voz do ser que nos adjudica.
  • Estamos sempre em correspondência com o ser, mas raramente atendemos à sua adjudicação, e apenas quando essa correspondência acontece de forma assumida é que se dá a filosofia.
  • A reivindicação do ser, à qual a correspondência escuta, acaece no meio do destino do ser, e a tal reivindicação pertencem o que foi recentemente desocultado e o oculto advenimento do possível virage.
  • O destino do ser não é uma sucessão, mas o passar pela contemporaneidade do temprano e do tardio, e o ser reivindica historicamente através de diferentes adjudicações.
  • O caminho do pensar está sempre a caminho, não está já presente, e para alcançar o estar em caminho é preciso abrir-se à perspectiva que se oferece, dando os passos pelos quais o caminho se torna tal.
  • A provisionalidade do pensar descansa em uma enigmática solidão, pois todo pensar fala de modo oculto apenas desde sua solidão, e a ocultação própria a todo pensar é o que fala a outro.
  • O caminho atual do pensar deve correr sobre um novo arraigo, que está atualmente perdido não por circunstâncias externas, mas pelo espírito da época técnica, que trasladou o homem a outra realidade, onde o mundo aparece como objeto do pensar calculador.
  • O homem atual, perante a incontrolável superioridade da técnica, estaria entregue à indefensão se permanecesse apenas no pensar calculador, sendo tarefa do pensar meditante confrontar-se com isso e perguntar se pode dar-se ao homem um novo fundamento e solo.
  • A serenidade para com as coisas e a abertura ao mistério, que prosperam a partir de um pensar valente, oferecem ao homem atual a possibilidade de estar no mundo de um modo diferente, afirmando o uso dos objetos técnicos e negando que eles exijam com exclusividade a essência humana.
  • O pensar meditante move-se em outra dimensão, exigindo um trânsito do querer à serenidade, um esforço elevado e um saber esperar, para poder ouvir uma reivindicação do ser.
  • O pensar como corresponder é algo errante e indigente, não pode legitimar-se como a ciência, pois é apenas uma indicação do mistério, um ir ao questionável, mas também não é arbitrário, estando ligado ao destino essencial do ser, à sua doação.
  • A partir da experiência contemporânea de crise, exige-se não meras modificações, mas repensar as coisas desde sua dimensão originária de ser, o que tem importância transcendental no “outro começo do pensar”, exigido pela indigência do esquecimento do ser.
  • Heidegger oferece um plantio histórico do pensar, histórico no sentido de história do ser, desde um virage do âmbito entitativo para o âmbito originário do ser como evento, que em “Aportes à filosofia” prepara o trânsito do fim do primeiro começo para o outro começo, da pergunta condutora pela pergunta fundamental.
  • Esse pensar segundo a história do ser configura-se em seis ensambles: a ressonância do abandono do ser, o passe que põe em jogo o outro começo, o salto para a verdade do ser, a fundação do ser-aí, os futuros como fundadores da verdade, e as señas do último deus.
  • Esse plantio histórico-hermenêutico, que culmina na superação da metafísica por um passo atrás para o originário, ganha nova vigência na consciência pós-moderna e interessa a pensadores não europeus, que veem a possibilidade de um diálogo no âmbito do ser como evento.
  • Em “Aportes à filosofia”, o dizer não descreve nem ensina, mas reúne o ser em uma primeira reminiscência, respondendo a um fazer señas do que é máximamente digno de ser questionado, e o perguntar não é o verdadeiro gesto do pensar, mas o escutar a promessa do que há de vir à pergunta.
  • Falar de outro começo não significa outra forma de pensar entre as vigentes, mas outro começo em relação ao único primeiro, determinado pela recíproca atribuição de ambos, e o primeiro começo é superado como começo, abrindo-se para o apartar-se de outro perguntar e dizer.
  • Heidegger parte da experiência indigente do abandono do ser na época de máxima determinação entitativa, de sistematização total e niilismo, uma época em que o ente se tornou habitual e evidente, e o abandono é encoberto pelo cálculo e pela rapidez.
  • Nessa época, o ser ainda ressoa, pois ocultação não é aniquilamento, e é também época das señas do último deus, que significa o fim metafísico e o novo começo, convocando um pensar memorante a recolher o ensinamento do primeiro começo e a reconhecer o recusa do ser.
  • O passe para o outro começo move a pergunta condutora pelo ente para a pergunta fundamental pelo ser, revogando o pensar representativo e convertendo a lógica em meditação sobre a essência da linguagem como nomeação fundadora da verdade do ser.
  • O passe realiza uma separação sem âmbito comum de distinções, já decidida, e a confrontação com o primeiro começo não é oposição ou superação, mas um diálogo histórico que, desde a nova origem, proporciona ao primeiro a verdade de sua história.
  • O passe do primeiro ao segundo começo conduz ao salto, o mais ousado do pensar inicial, que deixa tudo o habitual para trás e se abre ao âmbito da história do ser, um ocaso onde se dá a mais íntima cercania à recusa do ser.
  • O salto trata do ser acontecendo como a fundação de sua verdade no ser-aí, exigindo a disposição fundamental de contenção, que implica o espanto diante do abandono do ente e o temor diante da mais longínqua verdade do ser.
  • A disposição fundamental do pensar no outro começo oscila entre o espanto, a contenção, o pressentimento e o temor, sendo a contenção o estilo do pensar inicial, pois predispõe e sustenta a fundação do ser-aí no evento.
  • O espanto é o retroceder do proceder corriqueiro para a abertura do que se oculta, onde o corriqueiro se mostra estranho e cativante, e a contenção é a pré-disposição para a recusa como doação, dominando o voltar-se para o vacilante negar-se como o essenciar-se do ser.
  • O pressentimento inaugura a amplitude da ocultação do que é atribuído, percorrendo toda a temporalidade, e a contenção é o estilo do pensar inicial porque tem de se tornar o estilo do ser humano vindouro, fundado no ser-aí.
  • A disposição fundamental é entendida como a unidade da distribuição de todo encanto e do projeto de todo êxtase, e a contenção é o fundamento do cuidado, não como melancolia, mas como a decisão antecipadora pela verdade do ser.
  • O “último deus”, na sétima seção dos “Aportes”, não é o fim, mas o outro começo da história, de possibilidades incomensuráveis, e não deve ser considerado degradação, pois destaca a singularidade da essência divina como dimensão do ser, diferenciando-se de sua determinação metafísica.
  • O último deus tem a ver com a recusa, que equivale à plenitude de outorgamento, e se essencia na “seña” da acometida e ausência dos deuses que foram, colocando o ente no extremo abandono do ser e irradiando a verdade do ser.
  • No essenciar-se da seña, o mesmo ser chega à maturidade, e o “último” é o fim essencial exigido desde o começo, a mais íntima finitude do ser, que se encontra na seña do último deus, com a mais oculta essência do não.
  • O último deus se oculta no essenciar-se da verdade do ser no evento, e as condições prévias para sua seña são solapadas pela concepção de mundo vigente, sendo necessário o abandono do ser para remover esses encalhes.
  • O evento transfere o deus ao homem, adjudicando o homem ao deus, enquanto a verdade do ser é fundada como ser-aí e a história toma seu outro começo a partir do ser.
  • O plantio do último deus, na época de acabamento da metafísica, tem o mérito de reubicar o divino no quarteto do mundo, como uma dimensão essencial na contenda de céu, terra, mortais e divinos, desafiando as religiões a recuperar a dimensão do sagrado.
  • A partir da tradição metafísica, Heidegger assume a tarefa histórica de um novo começo, onde o Ocidente, país da tarde, significa também poder encaminhar-se para a hora mais temprana, para o âmbito originário do ser.
  • A época de sistematização total, no acabamento da metafísica, é também de profunda ambiguidade, pois globaliza a objetivação, mas também expõe pensar e linguagem à abertura da história e a possíveis diferentes configurações.
  • Desde outros centros históricos, abarcados mas excluídos, pode-se compartilhar o caminho de superação da metafísica, transitando por outras cunhagens de ser que manifestam rasgos comuns e diferentes.
  • Esses outros centros históricos, em sua permanência e resistência, reclamam não apenas um outro começo do pensar, mas também uma configuração mundial que responda às diferenças de cada um e que lhes seja própria.
  • A pergunta fundamental de Heidegger, pela verdade do ser, é a penetração em algo custodiado que talvez não incumba nem aos deuses, mas pertença unicamente ao abismo do ensamble ao qual ainda os deuses se subordinam.
  • O ente é movido em sua estabilidade através do ocaso dos fundadores da verdade do ser, e o mesmo ser exige aqueles que vão ao ocaso, apropriando-se deles onde um ente aparece, sendo isso o essenciar-se do mesmo ser, chamado de evento.
  • É inconmensurável a riqueza da virada referência do ser ao ser-aí por ele aconhecido, e a instrução do dizer pensante indica o livre abrigo da verdade do ser no ente, sem ser uma ordem, dando instrução aos poucos.
  • O possível recusa do ser mesmo, se o homem se tornar falto de forças para o ser-aí, pode converter-se no mais longínquo acontecimento apropriador, supondo que o homem se preste a isso, estando disposto à superação.
  • A pergunta pela verdade do ser é a pergunta de todas as perguntas na época da plena incuestionabilidade, inaugurando a abertura para o ocultar-se, e é o salto ao ser que o homem cumpre como buscador pensante.
  • São poucos, insólitos, os que de tempo em tempo perguntam novamente, pondo a decisão sobre a essência da verdade, e são os verdadeiros crentes, pois inauguram a essência da verdade e detêm-se no fundamento.
  • Junto com a noção de ser como evento, replanteia-se a de “nada”, que para a metafísica é um não do ente, mas pensada segundo a história do ser, é o aniquilador, o abismo como essência do ser, o essenciar-se da recusa como acontecimento apropriador do obsequio.
  • Quanto mais exteriormente a nada é pensada, mais se ignora a verdade do ser, e ser e nada são o mesmo sobre o fundamento do essenciar-se da verdade do ser, o que a metafísica só pode pensar a partir da generalidade mais vazia.
  • Em “Aportes à filosofia”, a “decisão” é referida primeiramente ao próprio ser, que de-cide e a-caece deuses e homens, deslocando-se para o mais íntimo centro essencial do ser, como o separar-se que divide e no dividir faz entrar em jogo o acontecimento apropriador.
  • A de-cisão é mais sistemática que todo sistema, sendo um acontecimento em meio a um ou - ou, e as decisões aparentemente múltiplas se reúnem na única sobre se o ser se subtrai definitivamente ou se essa subtração como recusa se torna a primeira verdade.
  • O saber da decisão não é um saber, mas um perguntar que inaugura o sítio para o ser, e a vigilância para com o ser pertence ao saber dos insólitos, cujo acordo é dominado pelo reinado do evento, no qual se prepara uma concentração originária que torna histórico o que pode ser chamado de um povo.
  • A decisão e sua preparação são tanto mais difíceis de perceber quanto mais estrepitosas são as revoluções histórico-mundiais, e somente a decisão extrema sobre a verdade do ser traz ainda uma claridade.
  • A decisão acerca da história ou sua perda é referida à verdade do ser, caindo no calmar como determinação que funda a verdade, transformando o ente e sendo, portanto, decisão criadora.
  • O fenômeno contemporâneo de transformação das sociedades, impulsionado pelas tecnociências, coloca em xeque a lógica metafísica da identidade, exigindo acolher outros modos de pensar e de ser, e a tese heideggeriana da historicidade do ser e do outro começo permite assumir cada entidade como um acontecimento de ser.
  • O outro começo significa atrever-se a pensar desde o aberto da história, o que reclama a decisão de um salto para transformações profundas: do homem ao ser-aí, do ser como conceito geral ao ser na sua singularidade, da verdade como correção à alétheia, do ente evidente ao questionável, do arte como vivência à obra da verdade.
  • A historicidade é planteada em seu sentido mais originário como história do ser mesmo, onde o evento-apropriador é a história originária, que envolve o homem como ser-aí e na qual o verdadeiro ser histórico dos povos se ganha ou se perde.
  • A fundação do âmbito de decisão exige um estranhamento, o contrário da tarefa “própria”, e o ser-aí é esse “entre” que, fundando-se, separa, reúne e apropria reciprocamente o homem e o deus na confrontação do quarteto do mundo.
  • O que se inaugura na fundação do ser-aí é o evento, que não nomeia um em-frente, mas o fazer señas para aqui e o manter-se no aberto do “aí”, o ponto aclarador-ocultante do virage, que ganha sua verdade apenas na contenda entre terra e mundo.
  • O falar de de-cisão não nomeia um fazer humano, mas desloca-se ao centro essencial do ser, dizendo o separar-se que divide e no dividir faz entrar em jogo o acontecimento apropriador como o claro para o que se oculta e o ainda indeciso.
  • A expressão “verdade do ser” não significa verdade sobre o ser, pois a essência da verdade só pode determinar-se desde o ser mesmo, e a verdade do ser não é algo diferente dele, mas sua mais própria essência, estando em sua história se doa ou recusa essa verdade.
  • No âmbito originário do ser, o linguagem é recuperado em sua mais prístina essência, sendo a primeira e mais ampla humanização do ente, mas também a mais originária desumanização do homem, fundando-se no silêncio.
  • O linguagem habitual não pode dizer a verdade do ser, e todo dizer tem que fazer surgir conjuntamente o poder ouvir, restando apenas dizer o mais nobre linguagem surgido em sua simbolicidade, o linguagem do ente como linguagem do ser.
  • O silêncio torna-se a lógica da filosofia no outro começo, buscando a verdade do essenciar-se do ser, que é ocultação, mistério e señas do evento, e a essência da lógica é a sigética, permitindo conceber a essência do linguagem.
  • Nunca se pode dizer imediatamente o ser, nem mediatamente por uma lógica, pois todo dito já fala desde a verdade do ser, e a experiência fundamental não é o enunciado, mas o conter-se da contenção, disposição básica diante do titubeante recusar-se da verdade.
  • O dizer como silêncio funda, e a palavra não é um signo para algo totalmente outro, mas o que nomeia é mentado, e o mentar adjudica enquanto ser-aí, pondo o perguntar essencial como decisão da essência da verdade.
  • Todo dizer do ser mantém-se em palavras e nomeações, que são malinterpretáveis, e essa dificuldade deve ser assumida como pertencente ao pensar do ser, condicionando um proceder que, em certos limites, sai ao encontro do opinar habitual para depois exigir o vuelco do pensar.
  • A palavra segundo a história do ser é multívoca, dizendo inobjetivamente ao ser que, sendo evento, essencia-se plurifacetadamente e exige da palavra a simplicidade, criando contextos que uma sistemática calculada nunca acerta.
  • Esse modo de pensar e de linguagem, que requer um salto, não é estranho a outras culturas nem a outras dimensões da civilização, como a arte, e remete à dimensão desde a qual se torna possível corresponder às exigências de reconhecimento e justiça nas sociedades contemporâneas.
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