Animalidade animada
NANCY, Jean-Luc. L’animalité animée. Cahiers philosophiques, Paris, n. 153, p. 113–125, 2018. DOI: 10.3917/caph1.153.0113.
1. As palavras “animal” e “animalidade” conservam uma carga selvagem, indomável e pulsante que evoca uma alteridade irredutível e inassimilável, mesmo numa época em que o interesse filosófico, moral, jurídico e cultural pelo animal adquiriu uma amplitude antes impensável, tendo a reflexão de Jacques Derrida constituído uma inflexão decisiva ao deslocar a questão do simples olhar humano dirigido ao animal para a experiência de ser visto, em sua própria nudez, pelo olhar animal.
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A publicação de O animal que logo sou, de Derrida, em 2006, desempenhou papel catalisador nesse deslocamento, após O silêncio dos animais, de Élisabeth de Fontenay, em 1998, e as reflexões sobre a animalidade de Maurice Merleau-Ponty, realizadas cerca de cinquenta anos antes.
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A força singular da experiência derridiana reside na nudez humana exposta ao olhar do animal, não apenas como objeto percebido, mas como existência surpreendida por uma visão que lhe vem de fora e que desestabiliza a pretensa soberania do sujeito humano.
2. Mais recentemente, Jean-Christophe Bailly desenvolve um olhar sensível que procura menos dirigir-se “sobre” o animal do que penetrar em sua perspectiva, experimentando uma visão ela mesma animal e substituindo a figura abstrata de “o animal” pela ideia de “lado animal”, na qual humanidade e animalidade aparecem como vertentes contíguas e solidárias de uma mesma configuração do vivente.
3. Apesar dessas investigações e mesmo diante das reações que denunciam um suposto excesso de atenção concedida ao animal, permanece irredutível a prova inscrita na própria linguagem, pois “Animal!” continua funcionando como censura ou insulto, enquanto “Besta!” intensifica essa depreciação ao evocar a figura do ser “estúpido e limitado” com que Rousseau caracteriza o animal humano anterior ao contrato social.
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A ampliação filosófica da consideração dos animais não eliminou a distância reconhecida entre humano e animal nem dissolveu a persistência cultural de uma animalidade empregada como figura de rebaixamento.
4. É precisamente esse valor não apenas depreciativo, mas agressivo e até ofensivo, associado linguisticamente à animalidade, que exige consideração própria.
5. Essa agressividade não se dirige verdadeiramente ao animal determinado, mas à animalidade enquanto qualidade inquietante, capaz de suscitar imediatamente estranheza, temor e estado de alerta, embora a história da própria palavra revele uma significação originária muito diferente, ligada ao caráter do ser dotado de alma e animado pelo sopro vital.
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“Animalidade” deriva de uma tradição latina em que aquilo que possui anima é antes de tudo aquilo que recebe movimento e vida por meio de um sopro.
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O latim anima se encontra aparentado ao grego anemos, “vento”, ainda que tenha servido para traduzir psychē, de modo que a origem semântica da animalidade remete menos à brutalidade do que à própria animação vital.
6. O sopro vital constitui simultaneamente uma força formadora autônoma, em sentido kantiano, e uma autoafecção, em sentido husserliano, pelas quais o vivente vive ao relacionar-se consigo mesmo, de maneira que esse “si” não precisa ser consciência ou sujeito, pois consiste primordialmente no próprio movimento relacional anterior a toda posição, identidade ou substância.
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Viver significa experimentar-se, e essa experiência se realiza como movimento de inspiração e expiração, entrada e saída do sopro.
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A vida não se define primeiramente por uma substância estável, mas por uma relação que continuamente se efetua consigo mesma.
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A própria morte permanece interior à experiência da vida como seu “último sopro”, situado no limite que precede o “primeiro grito” de outra vida.
7. A animalidade permanece assim muito próxima da animação, distinguindo-se dela sobretudo porque converte a ação em propriedade e retém o impulso vital numa multiplicidade de posturas, atitudes, comportamentos e modos de portar-se que compõem o retrato incessantemente móvel da besta.
8. A animalidade desdobra-se na proliferação concreta das condutas corporais do vivente: a besta espreita, fareja, teme predadores, sofre fome e sede, arranha, mata, arma ciladas, marca território, lambe-se, esfrega-se, livra-se de parasitas, entra no cio, palpita, brame, zurra, exibe-se, sopra, ofega, rosna, mastiga, engole, vomita, defeca, geme, ganhe, grunhe, salta, caça, esconde-se, fere-se, sofre, arrasta-se, dorme, estremece e treme.
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A besta permanece à espreita, farejando o ar, alertada pelos predadores e impelida pelas urgências da fome e da sede.
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Ela marca seu território por odores, lambe a pelagem, esfrega patas e focinho, rola o corpo para expulsar as pulgas, enquanto estas procuram abrigo em outros viventes igualmente vorazes.
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No cio, torna-se palpitante, excitada e ostensiva, bramindo, zurrando e expondo-se.
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Sua existência corporal manifesta-se ainda no sopro, na respiração ofegante, no rosnado, na mastigação, na ingestão, no vômito e na defecação.
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Geme, ganhe, grunhe e saltita, caça e se oculta, fere-se, sofre, arrasta-se, dorme e, durante o sono, sobressalta-se ou treme.
9. Nessa profusão de traços, temperamentos, disposições e comportamentos animais, reconhece-se a própria existência humana, que igualmente treme, se excita, observa, dissimula-se, saliva e sangra juntamente com os demais animais.
10. O desconforto ou o tormento provém de que a animalidade vive no humano e é justamente nele que se constitui enquanto tal, pois, embora os animais também experimentem inquietação, sua perturbação adere às particularidades de cada espécie, enquanto no humano se acrescenta a angústia de não compreender a própria fome, o próprio desejo nem a própria morte, fazendo com que seja o próprio animal que se angustie no humano.
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A inquietação animal permanece consubstancial às formas específicas de vida, ao passo que a inquietação humana se duplica pela consciência de sua própria incompreensão.
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A fome, o desejo e a morte não são apenas experimentados, mas convertem-se em fontes de perplexidade diante de si mesmo.
11. Aquilo que Merleau-Ponty caracteriza como “o esforço de uma existência lançada num mundo cuja chave não possui” coincide com a própria animação, pois o sopro que inspira já sente a necessidade de expirar, e essa existência animada distribui-se generosamente numa diversidade extrema de formas e forças, consumindo-se sem cálculo desde a ameba até o grande gorila, passando pelo gladíolo, pelo ornitorrinco, pelo carvalho e pela mosca.
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“O esforço de uma existência lançada num mundo cuja chave não possui.”
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A animação é uma exposição do vivente à necessidade interna de seu próprio movimento, pois inspirar traz consigo a inevitabilidade de expirar.
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Essa potência vital não se concentra numa forma privilegiada, mas se dispersa indiscriminadamente pela diversidade vegetal e animal.
12. A exuberante expansão multiforme da vida, comparável a uma grande orquestra sem partitura nem regente, constitui sua força própria, seu afeto, sua forma e sua paixão, enquanto a existência humana experimenta-se paradoxalmente como excluída dessa espontaneidade, obrigada a inventar cores e sons e a refletir sobre seus medos e expectativas, transformando a simples mobilidade do vivente numa preocupação que corrói.
13. Essa preocupação corrói simultaneamente a partir de dois extremos: de um lado, pela angústia de que a vida deva conduzir à morte e de que com ela se rompa inevitavelmente todo significado possível; de outro, pelo desconcerto de experimentar no próprio corpo toda a agitação, excitação, ardor e exaltação dos sentidos, do salto, do desejo impaciente, do espasmo e do arrepio.
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A morte não surge apenas no termo da vida, mas acompanha a própria vida como possibilidade de ruptura de qualquer sentido.
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Ao mesmo tempo, a existência humana percebe em si a intensidade animal dos sentidos e dos impulsos corporais, sem conseguir simplesmente coincidir com eles.
14. O desejo kafkiano de abarcar num único olhar toda a comunidade dos homens e das bestas converte-se tragicamente na metamorfose de um homem aprisionado num inseto, sugerindo que talvez nenhuma comunidade plena seja possível, embora subsista uma animalidade comum que se manifesta diferentemente em penas e narrativas, pelagens e luvas, computação e proliferação.
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A aspiração de Kafka a uma comunidade integral entre homens e bestas transforma-se na figura abominável da existência humana encerrada num corpo de inseto.
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A ausência de uma comunidade plenamente reconciliada não impede a circulação de uma animalidade comum através de formas biológicas, culturais e técnicas radicalmente distintas.
15. A existência humana transcorre assim perseguindo uma vida que jamais pode ser apropriada, uma vida cuja própria potência talvez venha a ser destruída pela humanidade ou a aniquilar-se através dela, fazendo com que o esplêndido clarão da animação encontre finalmente sua própria resolução ou dissolução.
