User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:nancy:2014:pulsao

3 Pulsão

VAN REETH, Adèle; NANCY, Jean-Luc. La Jouissance. Québec: Librairie Plon, 2014.

Da Pulsão Animal ao Desejo do Outro

  • A analogia kantiana do juízo estético e a singularidade do gozo
    • Adèle Van Reeth resgata a problemática kantiana exposta na Crítica da Faculdade de Julgar: ao contemplar a beleza de uma paisagem ou de uma obra, o sujeito postula a universalidade imediata do seu sentimento, embora seja incapaz de demonstrar essa experiência por provas lógicas a quem não for sensível a ela.
    • O sentimento estético repousa na aposta de uma faculdade compartilhada ou senso comum; de modo análogo, o gozo erótico apresenta-se como uma vivência estritamente singular, pontual e incomunicável em seus termos objetivos, da qual, contudo, é inconcebível subtrair a exigência de uma partilha ontológica com outrem.
    • Esse paralelo abre a interrogação central sobre a existência de uma dimensão propriamente estética no interior do gozo corporal, bem como sobre a passagem da pulsão animal para o desejo humano.
  • A leitura paralela de Freud e o problema do prazer como tensão
    • Jean-Luc Nancy recorda que Sigmund Freud escreveu em simultâneo O Chiste e sua Relação com o Inconsciente e Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, remetendo em ambos os textos ao enigma comum do prazer concebido como tensão e não apenas como alívio.
    • Ao descrever o cortejo sexual, Freud desdobra a aproximação sensível em etapas sucessivas — a visão, a escuta e o tato —, culminando na constatação de que toda a extensão anatômica do corpo pode atuar como zona erógena antes do alcance da genitalidade.
    • Nancy identifica uma limitação de ordem teleológica no esquema freudiano: Freud tende a rotular como perversão qualquer fixação intermediária nesses estágios preliminares, não por julgamento moral patologizante, mas por entender o ato como um desvio mecânico do objetivo reprodutivo terminal.
    • Confrontado com o problema de como a tensão em si pode produzir prazer, Freud sustenta que o deleite preliminar decorre da antecipação da descarga final, explicação que Nancy julga insuficiente para compreender a dinâmica estética da afecção.
  • O prazer da forma em devir e o conatus espinosano
    • A falha da explicação freudiana sobre o chiste e a sedução reside em ignorar que o próprio gesto de engendramento formal — à semelhança do traço vivo traçado pelo desenhista — já constitui prazer em si mesmo, sem necessitar de uma descarga terminativa para legitimar-se.
    • O desejo não deve ser aprisionado à condição de mera falta voltada a um objeto definitivo; ele encontra formulação superior na noção de conatus e de virtus em Baruch Espinosa, compreendida como a força ativa, a potência afirmativa e o esforço infinito de perseverar no ato de existir.
    • Em contraposição ao modelo funcional do repouso, a experiência estética pura decorre da tensão interna de uma configuração que se faz e que jamais esgota a sua intensidade expressiva.
    • Mobilizando os estudos de Juan Manuel Garrido e a tese de Henri Focillon em A Vida das Formas, estabelece-se que a forma verdadeira significa a si mesma e prescinde do estatuto instrumental do signo referencial, operando exatamente como o próprio gozo, que não aponta para além de sua própria afecção.
  • A perda das formas canônicas e a deformação erótica
    • Estabelece-se um salto qualitativo radical entre a acumulação linear de prazer e o evento do gozo: textos canônicos orientais como o Kama Sutra foram distorcidos pelo olhar ocidental ao serem reduzidos a manuais técnicos de conduta, ignorando sua inscrição sagrada em práticas eróticas centradas na suspensão e no prolongamento da intensidade sem orgasmo.
    • Enquanto a indústria contemporânea da publicidade e a cinematografia comercial alimentam um consumo visual fundado em contornos estáticos, corpos proporcionais e belezas pré-fabricadas, o erotismo real opera a dissolução ativa das configurações geométricas do corpo.
    • No desenrolar do contato físico apaixonado, os amantes deixam de examinar visualmente o parceiro à distância; as fronteiras orgânicas desfazem-se em um plano informe e quase indistinto, aproximando o toque de uma força destrutiva desprovida de malignidade física.
    • Nancy corrobora esse salto recorrendo à máxima de David Hume: a atração soberana de uma pessoa não resulta do enquadramento em medidas anatômicas estritas, emanando antes da irradiação sensível e da certeza íntima de ser desejada, dinâmica que recria os corpos à revelia das codificações da pornografia.
  • A tensão pulsional: entre a necessidade biológica e a invenção do luxo
    • No modelo biológico freudiano, a pulsão genital permanece refém do imperativo da descarga (Entladung), reduzindo a corporeidade a um mecanismo de acúmulo e descompressão predominantemente centrado na economia fisiológica masculina.
    • O exame do conceito latino de excitação revela seu significado etimológico de apelo a sair e convocação para o exterior, afastando o fenômeno da simples saciedade homeostática de carências internas.
    • Dialogando com as análises platônicas sobre o ato de beber, Nancy demonstra que a distinção entre necessidade e desejo no ser humano é permanentemente porosa: para além da eliminação da secura orgânica da garganta, o humano persegue o sabor, a temperatura e o estímulo supérfluo, exemplificado na criação deliberada do espumante e da água gaseificada.
    • A evocação epistolar de Freud a Marie Bonaparte — invejando a tranquilidade sem perguntas metafísicas de sua cadela ao mesmo tempo em que rememora a ária do champanhe de Dom Juan — ilustra a tensão insolúvel entre o descanso da animalidade bruta e o apetite humano pelo excesso desnecessário.
    • O gozo revela-se simultaneamente como proximidade vertiginosa da urgência pulsional e como o luxo máximo da espécie humana, configurando-se, nos termos da fenomenologia sartreana da consciência, como o prazer de ter prazer, isto é, um estado que se sabe a si mesmo e busca a renovação infinita de sua própria chama.
  • A vizinhança extrema entre o ápice do prazer e a vertigem da dor
    • Toda vivência intensa compartilha uma dimensão aguda e pontual: da mesma forma que a dor aguda concentra o corpo na iminência de um ponto sem dimensões espaciais, o gozo máximo leva a extensão física aos limites do suportável, roçando a sensação de dilaceração.
    • A passagem célebre de Sodoma e Gomorra de Marcel Proust — onde o narrador, ao escutar o encontro voluptuoso entre o Barão de Charlus e Jupien, compara seus clamores aos gritos de um degolamento — atesta a identidade ruidosa que une o sofrimento paroxístico e a fruição limite.
    • Diante da aflição de uma pontada que transborda a medida corporal, o indivíduo vivencia um ponto de fuga onde o próprio organismo anseia por suspender a sua extensão material, confirmando a vizinhança afetiva existente entre o sobressalto vital e a iminência da dissolução.
  • Desconexão ontológica entre sexualidade e procriação
    • Ao longo da história das civilizações, a sexualidade foi investida de sentidos sagrados, transgressivos e cerimoniais autônomos, refutando a tese redutora de que o prazer constituiria apenas um artifício engenhoso da natureza para assegurar a multiplicação da espécie.
    • Immanuel Kant já apontara na Antropologia o assombro filosófico diante da complexidade exorbitante do sistema do sexo, desproporcional à finalidade mecânica da fecundação biológica.
    • As mutações sociotécnicas contemporâneas, notadamente a introdução dos contraceptivos orais, consolidaram em termos empíricos e de direito a cisão definitiva entre a prática erótica e a geração de prole, período histórico que experimentou breve euforia emancipatória antes do advento da epidemia de HIV.
    • A espécie humana diferencia-se das demais linhagens zoológicas por exercer o intercurso independentemente de ciclos reprodutivos ou períodos férteis, inscrevendo a conduta sexual na esfera da linguagem, da transgressão e da proibição do incesto como fundador da exogamia social.
  • O filho como exteriorização viva e encarnação do gozo
    • A geração de um filho não se explica pela função reprodutiva da espécie, traduzindo o desejo fundamental de suscitar uma alteridade autônoma que, embora originada no próprio sujeito, seja ardentemente desejada em seu desprendimento radical.
    • A maternidade e a paternidade refletem a estrutura mesma do fruir: experimentar a si próprio como estando irrevogavelmente fora de si, lançado em uma pessoa viva que não pode ser retida nem capturada como patrimônio pessoal.
    • Do mesmo modo que o prazer é aquilo que essencialmente escapa e esvanece no momento do alcance, a criança é aquela cuja vocação essencial consiste em partir, amadurecer e inaugurar sua própria capacidade de gozo no limiar da puberdade.
    • Essa transmissão existencial esclarece as inquietações voyeuristas dos adultos quanto à emergência da intimidade sexual dos jovens, marcando o instante em que os pais se distanciam da fecundidade direta enquanto testemunham a passagem do gozo para um novo corpo.
    • O laço primordial com os filhos ultrapassa o determinismo biológico dos traços genéticos para afirmar-se como uma construção psíquica, simbólica e relacional, razão pela qual o desejo de gerar e acolher descendência manifesta-se plenamente em configurações familiares homoafetivas como exercício legítimo de fruição e amor.
estudos/nancy/2014/pulsao.txt · Last modified: by 127.0.0.1