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estudos:nancy:2010:5

5 Linhagem

Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.

1. Dois axiomas: a identidade apoia-se ao mesmo tempo em si mesma e numa linhagem, ou, mais exatamente, é ela própria sua própria linhagem, exigindo a identidade um nome.

2. A identidade está em sua linhagem, pois só pode dar-se num gesto que relaciona o mesmo consigo mesmo, não produzindo eu sou eu tal relação, sendo isso quando muito a relação de identidade lógica, eu = eu, sendo o que perturba imediatamente nessa igualdade que ela afirma igualmente que todos os eus são identicamente eu.

  • Eu = eu.

3. O eu não pode ser posto como um x idêntico a x, porque o eu, a própria palavra, já engajou o processo de sua identificação, indo falar, ou fazer algo, que será sua identidade, o que já se faz na primeira vez em que a criança diz eu, ou quando se designa a si mesma pelo nome, sendo necessário para isso retornar em si mesmo a um ponto anterior a si mesmo, ponto em que, por exemplo, antes de qualquer fala, já se estava disposto a falar.

4. Isso ainda é demasiado geral: trata-se de um retorno, uma anamnese platônica que não seria apenas um retorno às verdadeiras Formas, mas à forma singular e própria desse eu, forma essa que não está depositada em lugar algum, não é dada, não lhe é dada, dando-se ele mesmo a ela, ou dando-a a si mesmo, o que dá no mesmo, fazendo-o ao identificar-se.

5. Supondo que não haja linhagem concreta e identificada, está-se de todo modo desde o início preso nessa linhagem ou delineação, de si a si, do mesmo ao mesmo: torna-te o que és, o que está muito bem dito, pois não se é o que se é, é preciso tornar-se isso, e nada se dá para tal fim, uma vez que o que se é não está em nenhum lugar senão no fim de seu devir, e nesse ponto já não se estará mais ali, havendo contudo, como se sabe, uma linha estendida da primeira ausência até a última, linha de existência propriamente sua, absoluta e exclusivamente.

  • Torna-te o que és!

6. Não se pode deixar de mencionar isto: estas linhas são escritas alguns dias após o voto suíço que proibiu a construção de novos minaretes, apenas quatro, no território helvético, dizendo-se a si mesmo, maliciosamente, que a Suíça se identifica com seus campanários, com todos os picos e agulhas de suas montanhas imponentes, talvez também com seu alpenstock, quiçá até com o chapéu pontudo de Guilherme Tell e a maçã na cabeça do filho, bastando-lhe isso, bastantes alturas, bastantes dedos erguidos ao céu.

7. Fiquemos entre nós com nossas sublimidades, desferindo a Suíça um golpe terrível contra sua própria identidade: fecha-se, tranca-se por um gesto que reivindica, em voz alta ou baixa, pouco mais do que o que se acaba de dizer, não estando a Suíça sozinha nisso, embora exiba no momento o recuo mais espetacular numa identidade que sobretudo não precisa tornar-se o que é porque já o é, e o sabe, já sendo e tendo o que é, tendo em si e por si, a salvo de qualquer excrescência islâmica, uma plenitude realizada.

8. Mas se uma identidade se realiza no e como o movimento pelo qual vai em direção àquilo que jamais poderá reduzir ao idêntico, ou, dito de outro modo, se uma identidade verdadeira não é uma identidade em si mas uma identidade para si, isso significa que nenhuma identidade em si jamais é dada, nem num embrião, nem em alguém morrendo, tal como em si mesmo enfim, nem num homem ou mulher no auge de sua expressão.

9. Significa que a identidade é sempre o ser para si que faz e acolhe aquilo que não tem razão para pressupor como próprio mas que se torna próprio porque justamente aquele que se identifica o torna seu, significando a política democrática apenas isto: que para qualquer possibilidade de identidade, pessoal, coletiva, ou as duas juntas, isso também não é dado em si, se abra um espaço no qual traçar, desdobrar e ramificar sua ou suas linhas de identificação.

10. É por isso, com efeito, que a identidade exige o nome, pois o nome carrega infinitamente mais do que aquilo que o estado civil lhe atribui, sendo o estado civil apenas a identificação em si daquilo que o nome carrega, declara, endereça por si mesmo, isto é, uma altura de sentido, uma altura ou um vazio, sabendo-se que um nome próprio não tem significação, sendo seu sentido precisamente apenas esse próprio absoluto em relação ao qual todo tipo de propriedades, atributos e qualidades são externos.

11. O nome designa o próprio, não a propriedade, e não a propriedade essencial, do indivíduo ou do grupo, mas exatamente o próprio no sentido em que a existência não é uma substância com qualidades mas um ato de ser que qualifica, de maneira singular, todas as atribuições, circunstâncias e relações em que está engajado, sendo essa a identidade: qualifica todas as determinações que lhe cabem como sendo próprias, o que não significa que lhe pertençam, mas que se encontram em relação ao idem do idêntico, à sua mesmidade.

12. O idem é absoluto, não sendo o mesmo que este ou aquele outro, mas o mesmo que si mesmo, separado de tudo: ab-solutum, sendo a mesmidade que a identidade coloca em jogo uma mesmidade que não equivale ao mesmo, porque ele mesmo não é dado, e jamais o será definitivamente, podendo dizer-se que a identidade realiza o eterno retorno do mesmo de que falava Nietzsche: um retorno que não é uma repetição, uma reiteração, mas um retorno infinito ao absolutamente diferente cuja mesmidade é feita dessa diferença absoluta.

13. Quem então poderia falar de identidade, de uma pessoa ou de um povo? De fora, só se podem captar traços distintivos, interessantes, importantes, mas que jamais poderão dar acesso ao idem, podendo-se de dentro ter grande talento para introspecção, mas permanecendo o primeiro e último conhecimento este: que não há nada a saber, nada, senão algum um, permanecendo esse um indubitável, mas desvanecendo-se sua unidade absoluta no ponto infinitesimal de sua proveniência e destinação.

  • Ignora-te a ti mesmo!

14. O que constitui, em relação à identidade, um grande escritor? É que jamais se pode pretender ter descoberto a identidade última de suas personagens, pensando-se em James, Proust e Faulkner, tendo ao contrário um mau escritor já, dispostas antes mesmo de começar, identidades identificadas.

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