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Indícios sobre o corpo

NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.

58 indícios sobre o corpo

1. O corpo é material, denso e impenetrável, de modo que penetrá-lo significa necessariamente deslocá-lo, perfurá-lo ou rasgá-lo.

2. O corpo é material porque existe à parte e distinto dos demais corpos, começando e terminando contra outro corpo, enquanto até mesmo o vazio pode ser concebido como uma espécie extremamente sutil de corpo.

3. Um corpo nunca está vazio, pois se encontra cheio de outros corpos — pedaços, órgãos, peças, tecidos, articulações, anéis, tubos, alavancas e foles — e simultaneamente cheio de si mesmo, sendo integralmente aquilo que é.

4. O corpo possui comprimento, largura, altura e profundidade em determinadas grandezas, sendo extensão que toca outros corpos por todos os lados e permanecendo corpulento mesmo quando é magro.

5. O corpo é igualmente imaterial enquanto desenho, contorno e ideia.

6. Se, segundo Aristóteles, a alma é a forma de um corpo organizado, o próprio corpo é aquilo que desenha essa forma e pode ser pensado como forma da forma, isto é, forma da alma.

7. A alma, segundo Descartes, encontra-se inteiramente estendida através de todo o corpo, insinuada, infiltrada e impregnada nele, modelando-o e insuflando-o em uma espécie de onipresença corporal.

8. A alma é material de uma materialidade inteiramente distinta, desprovida de lugar, tamanho e peso, sendo precisamente a extrema sutileza dessa matéria que a torna invisível.

9. O corpo é visível e a alma não o é, de modo que se percebe diretamente a paralisia corporal que impede uma perna de mover-se corretamente, enquanto a incapacidade de uma alma mover-se corretamente somente pode ser pensada como uma espécie de paralisia contra a qual seria necessário lutar e fazê-la obedecer, fundamento figurado da ética dirigida a Nicômaco.

10. O corpo também pode ser concebido como prisão da alma, onde esta expia uma pena de natureza indeterminada, mas suficientemente grave para que o peso corporal lhe imponha incessantemente digestão, sono, excreção, suor, sujeira, ferimentos e doenças.

11. Os dentes figuram como grades da abertura dessa prisão corporal, pela qual a alma escapa em palavras que, entretanto, ainda são eflúvios do corpo, emanações e leves dobras do ar proveniente dos pulmões e aquecido pelo próprio corpo.

12. O corpo pode tornar-se falante, pensante, sonoro e imaginante, mas permanece incessantemente senciente, sentindo tudo aquilo que é corporal — peles, pedras, metais, ervas, águas e chamas — sem jamais cessar de sentir.

13. Embora seja a alma que sente, aquilo que ela sente primeiramente é o corpo, percebendo por todas as partes aquilo que a contém e retém, pois, sem essa retenção corporal, escaparia completamente sob a forma de palavras vaporosas que se perderiam no céu.

14. O corpo assemelha-se a um puro espírito ao conter-se inteiramente em si mesmo e por si mesmo em um único ponto cuja ruptura significa sua morte, embora esse ponto possa situar-se entre os olhos, entre as costelas, no fígado, ao redor do crânio, numa artéria ou em inúmeros outros lugares, fazendo do corpo uma coleção de espíritos.

15. O corpo é um invólucro destinado a conter aquilo que deve ser desdobrado, mas esse desdobramento é interminável, pois o corpo finito contém o infinito, não como alma ou espírito separados, mas como o próprio desdobramento do corpo.

16. O corpo é prisão ou deus, sem verdadeiro termo intermediário, pois a anatomia fragmentada e a figura esfolada não constituem corpo: este é cadáver ou glória, e ambos compartilham o esplendor imóvel e radiante que encontra sua realização figurativa na estátua.

17. Corpos encontram-se corpo a corpo, lado a lado ou frente a frente, alinhados, enfrentados, misturados ou apenas tangentes, e mesmo quando nada propriamente trocam entre si, emitem continuamente sinais, advertências, olhares, gestos, aparências de bondade ou altivez, crispação, sedução, abatimento, peso ou brilho, enquanto se cruzam, roçam, comprimem e atravessam conjuntamente os espaços cotidianos.

  • Juventude e velhice, trabalho e tédio, força e desajeitamento constituem igualmente maneiras pelas quais os corpos se mostram e enviam sinais uns aos outros.
  • Os corpos tomam ônibus, atravessam ruas, entram em supermercados, sobem em automóveis, esperam em filas e passam diante de outros corpos para ocupar um lugar no cinema.

18. O corpo é simplesmente uma alma tornada rugosa, gorda ou seca, peluda ou calejada, áspera ou flexível, graciosa ou flatulenta, iridescente ou nacarada, pintada, vestida, camuflada, coberta de sujeira, feridas e verrugas, assumindo formas tão variadas quanto as de um acordeão, uma trombeta ou o ventre de uma viola.

19. A rigidez da nuca, a necessidade de sondar os corações, os lóbulos do fígado que recortam o cosmos e os sexos que se umedecem manifestam a corporeidade em suas articulações simultaneamente materiais, simbólicas e sensíveis.

20. Os corpos são diferenças e, por isso, forças, ao passo que os espíritos são identidades: cada corpo constitui uma força diferente de inúmeras outras, como um homem diante de uma árvore, um cão diante de um lagarto, uma baleia diante de um polvo, uma montanha diante de uma geleira, tu e eu.

21. Um corpo é diferença em relação a todos os demais e, por isso, jamais termina de diferir, inclusive de si próprio, como evidencia a impossibilidade de fazer coincidir plenamente o bebê e o velho que pertencem à mesma existência corporal.

22. Por serem diferentes, todos os corpos apresentam alguma deformidade, enquanto um corpo perfeitamente formado seria inconveniente e indiscreto no mundo corporal, constituindo antes um desenho do que propriamente um corpo.

23. A cabeça destaca-se do corpo sem necessidade de decapitação, pois está de certo modo separada até de si mesma: enquanto o corpo forma um conjunto articulado, composto e organizado, a cabeça apresenta-se sobretudo como concentração de orifícios cujo centro vazio figura o espírito como ponto de infinita concentração em si.

  • Pupilas, narinas, boca e ouvidos são aberturas e vias de evasão escavadas para fora do corpo.
  • Essa concentração de orifícios liga-se ao restante do corpo pelo pescoço, canal estreito e frágil atravessado pela medula e por vasos suscetíveis de inchar ou romper-se, funcionando como delgado vínculo entre a complexidade corporal e a simplicidade da cabeça.

24. O corpo sem cabeça fecha-se sobre si mesmo ao ligar músculos e órgãos uns aos outros, enquanto a cabeça permanece relativamente simples, composta de cavidades e líquidos envolvidos por uma tripla membrana.

25. Se o homem foi feito à imagem de Deus, então Deus possui um corpo, talvez sendo ele próprio um corpo ou o corpo eminente entre todos, isto é, o corpo do pensamento dos corpos.

26. Entre prisão e Deus não existe termo médio: o corpo é invólucro selado ou invólucro aberto, cadáver ou glória, retraimento ou desdobramento.

27. Os corpos cruzam-se, roçam-se, comprimem-se, estreitam-se ou enfrentam-se, produzindo incessantemente sinais, apelos e advertências que nenhum sentido determinado consegue saturar, pois possuem um sentido para-além-do-sentido [outre-sens], um excesso de sentido que somente parece estabilizar-se quando o corpo está morto ou paralisado, embora o corpo vivo seja justamente aquilo que jamais cessa de mover-se e constitua o movido da alma.

28. Um corpo é uma alma lisa ou enrugada, gorda ou magra, sem pelos ou peluda, marcada por inchaços e feridas, dançando ou afundando, calejada, úmida ou caída no chão.

29. Não existe um único corpo isolado, pois o corpo porta constitutivamente a diferença e consiste em forças situadas e tensionadas umas contra as outras, fazendo do «contra» — oposição, encontro e extrema proximidade — a categoria corporal fundamental, na qual se jogam diferenças, contrastes, resistências, apreensões, penetrações, repulsões, densidades, pesos e medidas.

  • O próprio corpo existe contra o tecido das roupas, os vapores do ar respirado, o brilho das luzes e o roçar das trevas.

30. Para que o corpo seja próprio, precisa simultaneamente ser estranho e somente assim tornar-se apropriado, pois aparece ao espírito como intruso incapaz de penetrar sem ruptura no ponto presente a si mesmo que o espírito pretende ser, fazendo surgir sua massa como protuberância ou tumor exterior do qual o espírito jamais consegue recuperar-se plenamente.

31. O corpo é cósmico porque, de contato em contato, toca virtualmente tudo: o corpo toca a cadeira, os dedos tocam o teclado, cadeira e teclado tocam a mesa, a mesa toca o piso, o piso toca as fundações, estas alcançam a terra, o magma e as placas tectônicas, enquanto na direção oposta a cadeia prossegue pela atmosfera até as galáxias e os limites sem fronteiras do universo, fazendo do corpo simultaneamente corpo místico, substância universal e marionete puxada por milhares de fios.

32. Comer não significa incorporar, mas abrir o corpo ao que é engolido e exteriorizar um interior que ganha sabores, enquanto correr desdobra esse mesmo interior em passos, ar sobre a pele e respiração ofegante, e pensar transforma tensões e mecanismos corporais em movimentos e travessias, de modo que jamais há verdadeira incorporação, mas saídas, torções, alargamentos, incisões, desobstruções, travessias e oscilações, tornando a intussuscepção uma quimera metafísica.

33. «Este é meu corpo» constitui uma afirmação muda e constante da mera presença, mas o demonstrativo «este» introduz imediatamente uma distância e o possessivo «meu» suscita as perguntas insolúveis sobre quem seria esse proprietário e que espécie de propriedade estaria em jogo, pois aquele que possui o corpo é simultaneamente o próprio corpo e a propriedade corporal permanece inatribuível, fazendo com que «meu corpo» designe a impossibilidade de fixar separadamente os dois termos da expressão.

  • Nenhuma programação genética ou demiúrgica basta para responder quem teria dado o corpo, pois a resposta reconduz paradoxalmente a um si que pareceria preceder a própria existência.
  • A relação consigo implica permanecer de alguma maneira atrás de si mesmo e sempre às vésperas de alcançar aquilo que se chama «meu corpo».

34. «Meu corpo» designa mais propriamente posse do que propriedade, uma apropriação sem legitimação na qual se exerce sobre ele o jus uti et abutendi, embora reciprocamente o corpo também possua aquele que pretende possuí-lo, puxando-o, incomodando-o, ofuscando-o, detendo-o, impulsionando-o e repelindo-o, como dois possuídos numa dança comum.

35. A etimologia de «possuir» pode ser remetida à ideia de «estar sentado sobre», fazendo da relação com o próprio corpo uma situação paradoxal em que se está sentado sobre ele como uma criança ou anão sobre os ombros de um cego, enquanto simultaneamente o corpo se senta sobre aquele que o possui e o esmaga com seu peso.

36. Corpus designa uma coleção de peças, fragmentos, membros, zonas, estados e funções — cabeças, mãos, cartilagens, queimaduras, suavidades, fluxos, sono, digestão, arrepios, excitação, respiração, reprodução, recuperação, saliva, sinóvia, torções, câimbras e sinais —, formando uma coleção de coleções, corpus corporum, cuja unidade permanece problemática e jamais consegue totalizar-se, pois cada órgão tende a afirmar-se e a desorganizar o todo.

37. Dizer que um vinho «tem corpo» significa reconhecer nele uma espessura e consistência que se acrescentam ao sabor e se oferecem ao toque da língua, das bochechas e do palato, deixando uma película ou sedimento na boca, enquanto inversamente se poderia dizer que «este corpo tem vinho» quando o vinho sobe à cabeça, perturba o espírito, excita e suscita o desejo de contato.

38. Nada é mais singular do que a descarga sensível, erótica e afetiva produzida por determinados corpos — ou a indiferença provocada por outros —, pois uma conformação, uma leveza, uma cor de cabelo, um olhar, uma distância entre os olhos, um movimento de ombro, queixo ou dedos, um acento, uma dobra ou um traço insubstituível constituem não a alma, mas o espírito singular do corpo, sua ponta, assinatura e odor.

39. «Corpo» distingue-se tanto da cabeça quanto dos membros ou extremidades, podendo designar o tronco, suporte, coluna, pilar e armação, enquanto a cabeça se reduz a um ponto feito de aberturas pelas quais entram e saem mensagens e as extremidades se relacionam operacionalmente com o ambiente, deixando o corpo propriamente dito pousado sobre si e em si, com a cabeça quase reduzida a um pequeno alfinete fixado sobre ele.

40. O corpo é o em-si do para-si, isto é, na relação consigo constitui o momento sem relação, impenetrável e impenetrado, silencioso, surdo, cego e privado de tato, maciço, grosseiro, insensível e inafetivo; é igualmente o em-si do para-os-outros, voltado para eles sem consideração por eles, pura efetividade absoluta.

41. O corpo guarda seu segredo precisamente porque esse segredo não está escondido em parte alguma: o nada ou espírito encontra-se disperso, expandido e estendido inteiramente através do corpo, sem esconderijo íntimo onde pudesse ser encontrado, de modo que o corpo nada guarda senão a si mesmo como segredo e, ao morrer, leva esse segredo para o túmulo, deixando apenas alguns indícios de sua passagem.

42. O corpo é o inconsciente enquanto mistura ilimitada dos germes dos antepassados inscritos nas células, dos minerais ingeridos, dos seres e objetos tocados, das matérias que o decompõem depois da morte, das pessoas, plantas e animais encontrados, das narrativas ouvidas, dos monumentos, máquinas industriais, próteses, fonemas, leis, desejos de assassinato ou de imortalidade e de tudo aquilo que incessantemente entra em sua constituição e contato, até que todas as coisas terminem por fazer corpo num corpus de poeira dançando no último feixe de luz do mundo.

43. Fala-se em indícios e não em caracteres, signos ou marcas distintivas porque o corpo escapa a qualquer identificação segura e somente pode ser presumido por indicações, rastros, impressões e vestígios, podendo sempre revelar-se parte de um corpo maior ou até duplicar-se naquele pequeno corpo vaporoso tradicionalmente chamado alma.

44. Alma, corpo e espírito articulam-se de modo que a alma é a forma do corpo, o espírito é a força produtora dessa forma e o corpo constitui a forma expressiva do espírito, exprimindo-o no sentido de fazê-lo brotar para fora, extrair-lhe o sumo, fazê-lo suar e lançar suas faíscas no espaço, razão pela qual um corpo constitui uma deflagração.

45. O corpo é nosso e nos é próprio precisamente na medida em que não nos pertence e se subtrai à intimidade de um suposto ser próprio, cuja própria existência ele torna duvidosa; nessa mesma medida ilimitada, porém, o corpo não é apenas nosso, mas somos nós mesmos, inclusive até sua morte e decomposição.

46. Não existe totalidade nem unidade sintética do corpo, mas somente peças, zonas e fragmentos que podem ser enumerados indefinidamente pela anatomia sem jamais formar um todo, pois a enumeração das próprias células permanece incapaz de totalização e deveria sempre recomeçar em busca de uma suposta marca da alma em cada fragmento, enquanto fragmentos e células já se transformam durante o próprio inventário.

47. A exterioridade e a alteridade do corpo atingem seu limite insuportável na dejeção, no desperdício e nos resíduos ainda pertencentes à sua substância e atividade, pois o corpo precisa continuamente expulsar excrementos, unhas, cabelos, verrugas, secreções e excessos resultantes de seus processos de assimilação e da própria vida, embora procure não vê-los, senti-los ou dizê-los, convertendo-os em fonte de vergonha e constrangimento sobre a qual a alma impõe silêncio apesar de ser ela própria a forma desse corpo.

48. A precisão do corpo consiste em estar aqui e em nenhuma outra parte, localizada na ponta de um dedo, na base do esterno, num mamilo, à direita ou à esquerda, acima ou abaixo, em profundidade ou superfície, como dor, prazer ou transmissão mecânica, e mesmo uma sensação difusa possui a precisão singular de sua difusão; enquanto a precisão do espírito seria matemática, a precisão da alma é física e mensurável em gramas, milímetros, taxas e velocidades, fazendo da anatomia não uma redução, mas a extrema precisão da alma.

49. A imprecisão dos corpos aparece na multiplicidade de indícios pelos quais se tenta reconhecer alguém — idade aproximada, magreza, nervosismo, preocupação, rigidez do andar, profissão possível, roupa, formato do rosto, cor da pele, origem provável, estatura, desajeitamento, autoridade ou insegurança — sem que nenhum desses traços permita certeza, embora também não seja possível errar absolutamente sobre todos eles.

  • Mesmo um disfarce perfeito precisaria tomar emprestados seus traços de algum repertório típico ou esquemático.
  • Existem tipos humanos, assim como tipos animais, inseparavelmente biológicos, zoológicos, fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais, constituídos por alimentação, educação, sexuação, trabalho, condição e história.
  • A diferenciação individual permanece infinita, de modo que jamais se pode determinar exatamente onde termina o tipo e começa o singular.

50. A negação dos tipos individuais e coletivos decorre em parte da necessidade histórica do imperativo antirracista, mas essa necessidade corre o risco de apagar os ares de família, semelhanças vagas e insistentes e misturas produzidas pela genética, moda, divisões sociais e idades, precisamente no interior das quais pode emergir com maior intensidade aquilo que em cada um é incomparável.

51. O chamado «sinal de beleza» ou lunar constitui uma pequena marca escura e saliente na pele que, em vez de simplesmente manchá-la, configura sua extensão, conduz o olhar e atua como marca de desejo, podendo ser pensado como minúsculo germe de intensidade no qual se concentra simbolicamente a energia de todo o corpo, assim como ocorre na ponta do seio.

52. O corpo procede por espasmos, contrações e distensões, dobras e desdobramentos, nós e desenlaces, torções, sobressaltos, soluços, descargas, estremecimentos, ereções, náuseas e convulsões, elevando-se, afundando, abrindo-se, rachando, perfurando-se, dispersando-se, sangrando, molhando-se, secando, supurando, gemendo, agonizando, rangendo e suspirando.

53. O corpo produz a autoimunidade da alma no sentido médico preciso de protegê-la contra si mesma, impedindo-a de entregar-se inteiramente à sua suposta espiritualidade íntima e provocando na alma uma rejeição da própria alma.

54. O corpo é primordialmente pele, enquanto músculos, tendões, nervos, ossos, humores, glândulas e órgãos podem ser considerados construções anatômicas, fisiológicas e médicas ou formalismos funcionais, pois a verdade corporal encontra-se na pele como extensão autenticamente exposta ao fora e simultaneamente invólucro do dentro.

  • A pele toca e se deixa tocar, acaricia e é acariciada, fere-se, descama, coça, irrita-se e excita-se.
  • Ela recebe sol, frio, calor, vento e chuva e inscreve simultaneamente marcas provenientes do interior — rugas, espinhas, verrugas e escoriações — e marcas vindas do exterior — fissuras, cicatrizes, queimaduras e cortes.

55. O corpo constitui um oxímoro polimorfo no qual coexistem e se tensionam interior e exterior, matéria e forma, homologia e heterologia, autonomia e alonomia, crescimento e excrescência, o meu e o nada.

56. O corpo é indicial porque nele há sempre alguém ou alguma coisa que se anuncia sem se revelar completamente, alguém que se esconde ou deixa aparecer uma orelha, algum sinal, causa ou efeito, algum modo de «aqui» ou «ali», extremamente próximo ou bastante distante.

57. O corpo é tocado e tocante, frágil, vulnerável, continuamente mutável, fugidio e inapreensível, evanescendo tanto diante da carícia quanto do golpe e aparecendo como corpo sem casca, pobre pele estendida numa caverna onde flutua nossa sombra.

58. Os cinquenta e oito indícios podem ser figurativamente relacionados aos cinco membros do corpo — braços, pernas e cabeça — e às oito regiões corporais — costas, ventre, crânio, rosto, nádegas, sexo, ânus e garganta —, mas também à soma 5 + 8 = 13, em que a unidade do corpo se combina à incessante agitação e transformação entre matéria, alma e espírito, ou ainda ao arcano XIII do tarô, a morte, pela qual o corpo retorna ao corpo universal duradouro das matérias, ciclos químicos, calores e brilhos estelares.

59. Surge enfim um quinquagésimo nono indício, supranumerário e excedente — o sexual —, pois os corpos são sexuados e não existe corpo unissex, sendo o corpo atravessado de ponta a ponta pelo sexo em seus seios, pênis, vulva, testículos, ovários, características ósseas, morfológicas, fisiológicas e cromossômicas, de modo que ser sexuado pertence à própria essência corporal enquanto essência de uma relação com outra essência.

  • O corpo determina-se essencialmente como relação e relaciona-se com o corpo do outro sexo, tocando no sexo o limite de sua própria corporeidade.
  • Gozar significa que o corpo é sacudido para fora de si mesmo, enquanto cada uma de suas zonas emite para o exterior o brilho de seu próprio gozo.
  • Esse brilho que se exterioriza chama-se alma, embora geralmente permaneça retido no espasmo, no soluço ou no suspiro.
  • No gozo, finito e infinito cruzam-se e trocam de lugar por um instante, podendo cada sexo ocupar tanto a posição do finito quanto a do infinito.
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