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estudos:nancy:1996:comparencia

MEDIDA DO "COM"

NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24

1. A exposição nua da comparência é a exposição do capital, sendo esta o reverso e o sintoma daquela, não pondo a desumanidade violenta do capital em evidência senão a simultaneidade do singular, ainda que como particularidade indiferente e intercambiável da unidade de produção, e do plural, ainda que como rede da circulação mercantil, pressupondo a extorsão da mais-valia essa concomitância entre uma atomização dos produtores e uma reticulação do lucro.

2. Poder-se-ia dizer que o capital é a alienação do ser singular plural enquanto tal, sendo essa fórmula correta apenas se por ser singular plural não se entender um sujeito primitivo e autêntico ao qual o capital se sobreporia como seu outro, sendo antes o capital a alienação do ser enquanto ser social na medida em que ele coloca em evidência esse ser enquanto tal, não sendo isso, como num processo histórico contínuo, o negativo dialético de uma comunidade preliminar, mas a exposição de uma configuração singular-plural que não é a da comunidade nem a do indivíduo.

3. A mais-valia incalculável, o valor como acréscimo indefinido, circulatório e autotético, exibe a inacessibilidade de um valor primordial ou final, colocando de modo direto e brutal a questão de um fora-do-valor ou de um valor absoluto, incomensurável, sem preço, sendo por isso que há concomitância entre a mundialização do mercado e a dos direitos do homem, representando estes o pretenso valor absoluto que o capital pretende trocar por si mesmo.

4. É desse modo, porém, que o ser-social é ao mesmo tempo posto completamente a nu, pois o homem dos direitos não é nada que valha por si, não sendo senão a ideia de um valor em si ou de uma dignidade, só podendo o homem valer, rigorosamente, valendo singularmente mas também simultaneamente valendo por, mediante e com o plural que a singularidade implica, pois o que poderia valer por si só, valendo o valor apenas na esfera do ser-com, isto é, na esfera de um comércio em todos os sentidos da palavra.

5. É precisamente a partilha desses sentidos, comércio da mercadoria e comércio do ser-junto, que o capital expõe, expondo-a como uma violência na qual o ser-junto se torna um ser-mercadoria e um ser-mercantilizado, sendo assim o ser-com iludido no momento mesmo em que é exibido em sua nudez, não significando dizer que essa exposição põe a nu um absoluto da existência como ser singular plural justificar essa violência, pois o que ela expõe, ela de fato o viola, dando contudo a violência do capital a medida daquilo que é exposto: o ser-com singular plural como a única medida absoluta do próprio ser, ou da existência.

6. Essa medida é incomensurável, sendo igual ao cada vez de cada um e igual, ao mesmo tempo, à pluralidade indefinida das coexistências com as quais cada um se mede por sua vez, na comensurabilidade indefinida das coincidências do comércio, do combate, do concurso, da comparação, da comunicação, da concorrência, da concupiscência, da compaixão, da cofruição.

7. Há uma medida comum que não é uma unidade de medida aplicada a tudo e a todos, mas a comensurabilidade das singularidades incomensuráveis, a igualdade de todas as origens-de-mundo que, sendo origens, são cada vez estritamente insubstituíveis, e nesse sentido perfeitamente desiguais, mas o são apenas na medida em que são todas igualmente umas com as outras, sendo disso que devemos tomar medida.

8. Nem grega, nem romana, nem judaico-cristã, a sociedade se sabe e se vê nua, exposta a essa comum desmedida, vendo-se ao mesmo tempo como evidência, cuja necessidade ofusca a de qualquer ego sum, e como opacidade que se subtrai a toda apropriação subjetiva, não podendo dizer verdadeiramente nós no momento em que nos encontramos claramente diante de nós mesmos como os únicos destinadores diante dos únicos destinatários.

9. É por isso que devemos aceder doravante a um saber de nós, sendo nós não um sujeito no sentido da autoidentificação e autofundação egoica, nem composto de sujeitos, não sendo contudo nós um nada, sendo antes cada vez alguém, assim como cada um é alguém, não havendo por isso um nós universal, dizendo-se nós, de um lado, cada vez de qualquer configuração ou rede, e dizendo-se, de outro, nós por todos, isto é, pela coexistência muda e sem nós do universo inteiro, não dizendo nós nem o Um nem a adição dos uns e dos outros, mas dizendo um de maneira singular plural, um a um e um com um.

10. Nada dessa situação se pode pensar se o um, em geral, não for pensado desde já no um-com-o-outro, sendo justamente nesse ponto que nossa ontologia falha, uma vez que estamos entre nós e o ser se reduz, por assim dizer, a isso.

  • Como se o ser tivesse escondido esse entre, que é seu verdadeiro lugar, tratando-se antes de um esquecimento do entre do que de um esquecimento do ser, ou talvez, como se a invenção do ser, em toda a nossa tradição, não tivesse sido senão a invenção de nossa existência como tal, enquanto existência de nós e como nós, nós ao mundo, nós-o-mundo, sendo nós, nesse sentido, o preliminar absoluto, o mais sepultado, de toda ontologia, e por isso o efeito mais tardio, mais difícil e menos apropriável que a ontologia exige.

11. O com constitui uma espécie de pedra de tropeço permanente da tradição, categoria menor, mal uma categoria, na medida em que o ser foi representado, até nós, até o próprio Heidegger em certos aspectos, como só, como estando a si mesmo, sem coexistência ou coincidência alguma, sendo esse ser, quando Husserl declara ser a intersubjetividade transcendental o próprio ser primeiro em si, um horizonte último desprovido de contingência e de toda exterioridade dos coexistentes.

  • O ser primeiro em si, que serve de fundamento a tudo o que é objetivo no mundo, é a intersubjetividade transcendental, a totalidade das mônadas que se reúnem em diversas formas de comunidade e de comunhão.

12. Em geral, o ser da ontologia filosófica não pode possuir uma co-essência, possuindo apenas o correlato do nada, cabendo perguntar se, ao contrário, o próprio ser não seria a co-essencialidade da existência, tornando-se, uma vez que o ser-social nos parece inatingível tanto como comunidade quanto como associação, a categoria preeminente do pensamento contemporâneo a do outro.

13. Seria preciso mostrar como essa categoria, e a obsessão que representa para boa parte de nossa filosofia, define a incomensurabilidade do ser como ser-uns-com-os-outros, mas corre o risco de ainda mascarar ou diferir o regime desse ser como regime do com, isto é, como medida dessa incomensurabilidade, podendo o outro ser apresentado ora como alter ego, ora como outro do ego, ora como outro fora de si ou em si, ora como os outros ou como o Outro, remetendo todas essas vias sempre a uma alteridade em que está em jogo o si.

14. O outro só é pensável, e necessário ao pensamento, a partir do momento em que o si aparece e se aparece como o mesmo, ocorrendo essa identificação do si, sua subjetivação no sentido filosófico mais pesado do termo, que atinge seu ápice em Hegel, a partir do momento em que o sujeito, na pressuposição infinita de si que o constitui, se encontra ou se põe originariamente como outro de si, como si mais antigo e mais originário que si, ou como si que é em si outro de si.

15. Assim, o si se sabe outro de si por princípio, sendo essa a constituição da consciência de si, da autoconsciência, consistindo a lógica dessa constituição em abrir o si ao outro e fechá-lo simultaneamente, pois a alteridade do outro constitui justamente aquilo cujo reconhecimento proíbe o acesso, ou ao qual só se pode aceder por uma alienação radical, resolvendo uma dialética do mesmo e do outro a aporia apenas ao custo de revelar que a potência do negativo que retém o si no outro sempre pressupôs a si mesma como potência do si, permanecendo assim o Si sozinho mesmo ao sair de si, faltando ou saltando-se nessa falsa saída justamente o momento do com.

16. Aberto ao outro e como outro, o si está originariamente na perda de si, tornando-se nascimento e morte os signos de uma proveniência e de uma destinação sediadas no outro, proveniência-destinação entendida como perda e como reconquista, não sendo esse outro com, não sendo mais ou ainda não sendo com, estando mais próximo e mais distante que todo ser-junto, não acompanhando mas atravessando e transgredindo a identidade, perfurando-a, acompanhando sempre uma modalidade do trans em nome da alteridade a modalidade do cum, que ela não pode contudo ocultar nem substituir.

17. Em si e por si transcendente, o sujeito nasce para sua própria intimidade e sua intimidade se distancia dele em statu nascendi, tornando-se existir não mais ser a si, em si, não-ser-já-mais e não-ser-ainda, ou ser-em-falta, ser-em-dívida-de-ser, tornando-se existir exilar-se, sendo o fato de que o íntimo, o absolutamente próprio, consista no absolutamente outro algo que altera a origem em si mesma, que se encontra num rapport originariamente enlutado consigo, estando o outro numa relação originária com a morte e em relação com a morte originária.

  • O ser primeiro em si.
  • Interior intimo meo.
  • Inter feces et urinam nascimur.

18. Assim aparece o evento cristão, a solidão, sendo a solidão por excelência a do si que se relaciona a si mesmo, em extremis e in principiis fora de si, fora do mundo, existência ex-sistente, sendo a consciência de si, a autoconsciência, solidão, sendo o outro essa mesma solidão exposta como tal, uma consciência-de-si infinitamente retraída em si e a si, em si como a si.

19. O coexistente, o outro homem, assim como a outra criatura em geral, aparece então como aquele ou aquilo que é infinitamente retraído em si, inacessível a mim na medida em que está retraído ao si em geral, e retraído a si enquanto é si-fora-de-si, sendo esse o outro em geral, que encontra no Outro divino o momento de sua identidade, sendo também o momento da identidade de todos, do corpus mysticum universal, sendo o Outro o lugar da comunidade entendida como comunhão, isto é, de um ser-si-no-outro que já não é alterado, ou cuja alteração é identificação, anunciando-se o mistério da comunhão, neste mundo, na forma do próximo.

20. O próximo é o correlato do íntimo, sendo o mais junto, o mais próximo, e também o verdadeiramente-quase ou o infinitamente-quase eu, que contudo não é eu, e não o é porque está retraído em si ao si em geral, sendo a proximidade do próximo a distância ínfima, íntima, mas também infinita, cuja resolução se encontra no Outro, sendo o próximo o distante por excelência, razão pela qual a relação com ele se apresenta como imperativo, como imperativo de um amor, e de um amor que seja como o amor de si mesmo.

21. O amor de si mesmo não é aqui o egoísmo no sentido de uma preferência dada a si em vez de aos outros, o que contradiria o imperativo, mas precisamente o egoísmo no sentido do privilégio do si-próprio como modelo cuja imitação fornece o amor dos outros, devendo amar-se no outro o si-próprio, mas reciprocamente sendo o si-próprio em mim o outro do ego, sua intimidade arrebatada.

22. É por isso que se trata de amor, não designando esse amor um modo possível da relação, mas a própria relação no coração do ser, isto é, em lugar do ser, designando assim essa relação entre um e outro como relação infinita entre o mesmo e o mesmo enquanto originariamente outro de si mesmo, sendo assim o amor o abismo entre o si e o si, sendo o afeto ou o cuidado daquilo que na origem escapa ou falta, consistindo em cuidar desse retraimento e nesse retraimento.

23. Por isso esse amor é caridade, avaliação da caritas, do custo ou valor extremo, absoluto e portanto inestimável do outro enquanto outro, isto é, enquanto si-retraído-em-si, definindo esse amor o custo infinito daquilo que é infinitamente retraído: a incomensurabilidade do outro, enunciando o mandamento desse amor, por conseguinte, aquilo que ele verdadeiramente é: o acesso ao inacessível, não bastando desacreditar esse amor por seu idealismo ou hipocrisia religiosa, tratando-se antes de desconstruir a cristandade e a sentimentalidade de um imperativo cujo caráter abertamente excessivo deve nos pôr em guarda, perguntando-se qual é o sentido de um pensamento que se dá um fundamento cujo enunciado denuncia uma impossibilidade, e até que ponto a loucura desse amor exibe a medida incomensurável da própria constituição do si e do outro.

24. Seria preciso compreender como nessa constituição, portanto exatamente no centro e no reverso do judaico-cristianismo, aparece e desaparece ao mesmo tempo a dimensão do com, designando de um lado a proximidade do próximo o junto, o auprès do com, do avec, podendo acrescentar-se que ela circunscreve e isola esse junto em si e por si, como contiguidade e simultaneidade do ser-vizinho-a enquanto tal, sem determinação ulterior.

25. Em outros termos, o próximo já não é o parente próximo da família ou o vizinho da tribo aos quais talvez se referisse o preceito bíblico em sua acepção primitiva, sendo inteiramente subtraído a essa lógica do grupo ou do conjunto, à lógica da comunidade de natureza, sangue, proveniência ou origem, não sendo mais dada a medida do próximo, exibindo-se o junto-a, o vizinhíssimo-a, em sua nudez, sem medida, tornando-se possíveis a aproximação recíproca, a multidão, a massa, até o amontoamento anônimo do carnaval e a pulverização da cinza coletiva.

26. A proximidade do próximo, enquanto pura dis-tância, pura disposição, pode assim contrair ou dilatar ao extremo essa disposição, tornando-se, no ser-uns-com-os-outros universal, o em do em-comum puramente extensivo e distributivo, expondo-se por isso o junto-a do com, a simultaneidade do desvio e do contato, isto é, a constituição mais própria do cum, como indeterminação e como problema, não havendo de fato, nessa lógica, medida própria do com, sendo-lhe esta subtraída pelo outro, na alternativa ou dialética do incomensurável e da intimidade comum, revelando-se, num paradoxo extremo, o outro como o outro do com.

27. No nível mais profundo da tradição, encontram-se assim sobrepostas, entrelaçadas e contrastantes duas medidas diferentes do incomensurável: segundo o Outro e segundo o com, designando o íntimo e o próximo, o mesmo e o outro, em seu remissivo recíproco, um não-ser-com, e portanto um não-ser-em-sociedade, um Outro do social, no qual o próprio social seria a si, em si e por si: a mesmidade do outro e como Outro.

28. O ser-com designa ao contrário o outro que jamais retorna ao mesmo, a pluralidade das origens, sendo a justa medida do com, ou antes o com, o ser-com, como justa medida, justeza e justiça, a medida da própria disposição enquanto tal: a medida do desvio de uma origem a outra origem.

29. Na sua analítica do Mitsein, Heidegger não concede ainda espaço a essa medida, terminando o tema do distanciamento existencial, entre a indiferença de um simples estar ao lado e uma autêntica compreensão dos outros cujo estatuto permanece impreciso, por remeter à competição e ao domínio, desembocando no domínio indistinto do se, sendo o se apenas o fruto de uma transformação niveladora do distanciamento geral de todos em relação a todos, que resulta no domínio da mediocridade, ocultando o comum-mediano o comum-com essencial, permanecendo impreciso por que razão o ser-com é essencial e como codetermina a essência da existência.

  • Como ser-com o Dasein é essencialmente diante-dos-outros, estando estes já abertos em seu Dasein no ser-com entendido como diante-de-outros existencial.
  • O ser-com perde toda pertinência.

30. O com designa assim um ser-uns-diante-dos-outros no qual cada um é, e a partir do qual cada um é aberto, isto é, constituído enquanto existente, sendo o aí, isto é, a abertura, do ser, sendo um cada vez dessa abertura, de modo que nenhuma abertura, nenhum ser, pode ter lugar se o aberto não se abriu já diante de um outro aberto, consistindo a própria abertura apenas na coincidência das aberturas, não significando ser-o-aí abrir um lugar ao Ser enquanto Outro, mas abrir-se e ser aberto pela pluralidade das aberturas singulares.

31. Nem amor, nem relação em geral, nem tampouco justa-posição de indiferenças, o com é então o regime próprio da pluralidade das origens enquanto elas se originam não umas das outras nem umas pelas outras, mas umas em vista das outras ou diante das outras, não sendo uma origem origem por si, nem por reter-se em si, nem por dominar do alto uma sequência derivada, sendo uma origem diferente de um começo, sendo ao mesmo tempo princípio e insurgência, repetindo-se assim, criação contínua, em cada ponto daquilo que origina.

32. Se o mundo não tem origem fora de si, se o mundo é sua própria origem, a origem do mundo está em cada ponto do mundo, sendo ela o cada vez do ser, sendo seu regime o do ser-com de cada vez com todas as outras vezes, sendo a origem por, e graças a, o singular plural de cada origem possível.

33. O com é a medida de uma origem-de-mundo como tal, ou de uma origem-de-sentido como tal, significando ser-com fazer sentido reciprocamente, e apenas desse modo, sendo o sentido a medida inteira do incomensurável com, sendo o com a medida inteira do incomensurável sentido do ser.

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