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estudos:mitchell:mortalidade-habitar-2015

MORTALIDADE INSEPARÁVEL DO HABITAR (2015)

MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015

  • A mortalidade é inseparável do habitar como vida delimitada e imersivamente exposta em superfícies, tensões, fascínios e êxtases, de tal modo que a mortalidade não se compreende como interiorização nem como posse de interior onde experiências se armazenariam, e a crítica heideggeriana de Erlebnis incide sobre a objetificação consumível da experiência e sobre o gesto interiorizante que a supõe, enquanto o mortal permanece fora de si, distribuído em relações no medium ao redor.
    • Vida mortal como exposição imersiva e relacionalidade sustentada.
    • Erlebnis como consumo público de experiência objetificada e interiorizada.
    • Ausência de interior como depósito de experiências.
    • Exterioridade como entrada e chegada ao medium do mundo.
  • A exterioridade do mortal se contrasta com a interioridade de Erlebnis ao inverter o zôon logon echon e afirmar a mortalidade como exteriorização incessante que só pode ser entendida como chegar “no” mundo, sem admitir exterioridade absoluta porque o que ultrapassa deixa traços como dom do retirar-se e permanece referível a um “dentro” apenas como limite do completamente fora.
    • Exterioridade como movimento de tornar-se externo e de chegar no mundo.
    • Traços como dádiva do que se retira.
    • Recusa de uma exterioridade absoluta.
    • Zôon logon echon como figura revertida pela mortalidade.
  • O chegar do mortal ao mundo é intrinsecamente vulnerável porque a mesma abertura que permite aparecer e vir também torna essencialmente possível ser atingido, de modo que a visada e o assédio não são acidentes externos a um objeto autocontido, mas pertencem ao ser-no-mundo como estar-impingido e impingir, onde as relações liberadas reivindicam e sustentam simultaneamente quem nelas entra.
    • Vulnerabilidade como estrutura do chegar e do aparecer.
    • Ataque como elemento intrínseco do ser-no-mundo.
    • Mundo como campo de forças que mira e reivindica.
    • Relações como suportes sem os quais não há emergência no mundo.
  • Habitar se constitui como modo de ser que acolhe as reivindicações e amplifica relações no mundo e, por isso, identifica mortalidade e habitar, distinguindo essa exposição vulnerável de um pertencimento sem costuras orientado à segurança e à perfeição encontrado em Rilke, Nietzsche e Jünger, no qual o sensível é transformado para cessar insegurança e absorver diferenças, ao passo que o habitar mortal permanece sem fechamento e sem fim.
    • Habitar como recepção e amplificação de reivindicações do mundo.
    • Pertencimento metafísico como cessação, incorporação e absorção de diferença.
    • Vulnerabilidade como traço decisivo do habitar mortal.
    • Rilke, Nietzsche e Jünger como figuras de pertencimento securitário.
  • A finitude do mortal se determina como infinitude de chegada relacional que não consuma pertencimento senão através de distâncias e diferenças, de modo que morrer jamais se completa e o habitar jamais se conclui, o que permite dizer que o mortal nunca termina de morrer e por isso se torna im-mortal em morte, conforme Hölderlin’s Earth and Sky (1959) em Heidegger.
    • Finitude como abertura sem encerramento e como chegada incessante.
    • Pertencimento como ocorrência atravessada por distância e diferença.
    • Im-mortalidade como não-conclusão do morrer.
    • Referência a Hölderlin’s Earth and Sky (1959) e GA 4:165/190.
  • Habitar equivale a morrer continuamente enquanto se permanece sobre a terra, sob o céu e diante das divindades, segundo Building Dwelling Thinking e “… poetically dwells man …”, e esse morrer como exposição ao mundo se mantém pela não-coincidência entre existência e morte, fazendo a vida transbordar para o mundo que irradia e interpela, de modo que a resposta a esse apelo infinito do mundo define como se habita e como se morre.
    • Morrer continuamente como estrutura do habitar.
    • Terra, céu, divindades e mortais como referência do permanecer.
    • Mundo como apelo, interpelar e atingir.
    • Habitar como forma de viver a resposta ao apelo.
  • Habitar é exposição que não se dirige a objetos, mas ao próprio vir e ao que vem, de modo que habitar se determina como deixar-vir que acolhe o “mais” e o “menos” do que chega, pois o que vem excede seus limites ao desdobrar relações que reivindicam e, ao mesmo tempo, nunca chega em plenitude, e assim habitar deixa aberto o apelo do mundo e participa do próprio assédio e do próprio morrer como recepção de radiância.
    • Exposição como abertura ao vir e ao que vem.
    • Deixar-vir como acolhimento do mais e do menos do que chega.
    • Chegada sempre incompleta e, por isso, relacional.
    • Habitar como modo de receber radiância.
  • Habitar é permitir a radiância material, medial, significativa e múltipla abrigada no Geviert, e em Building Dwelling Thinking essa permissão aparece como salvar a terra no sentido antigo de Lessing, isto é, deixar algo livre em sua essência sem consumir, trabalhar ou dominar, porque dominar já desliza para exploração irrestrita e salvar significa guardar.
    • Geviert como abrigo das faces da radiância.
    • Salvar como liberar para a essência e como guardar.
    • Lessing como referência do sentido antigo de retten.
    • Recusa de uso, domínio e exploração como critério de salvar a terra.
  • Salvar a terra se esclarece como libertar, poupar, abrigar, proteger e guardar, com Rettung em Lessing entendida como vindicação que restaura algo ao essencial e o preserva, de modo que salvar equivale a permitir a abertura de relações sob condições de proteção e renúncia à maestria, justificando e fundando continuamente a essência como tarefa infinita e não como simples retirada de perigo.
    • Retten como freyen, schonen, shelter e in die Hut nehmen.
    • Rettungen de Lessing como defesa e vindicação.
    • Essenciar como abertura de relações que requer condições de guarda.
    • Salvar como fundar e retomar sempre de novo.
  • Habitar recebe o céu como céu ao permitir curso de sol e lua, caminho de estrelas e variações de estações, recusando converter noite em dia e dia em inquietação apressada, e essa acolhida preserva medidas naturais contra a homogeneização produtivista já denunciada em Beiträge ao insistir em proteger a noite e em afastar “dias falsos” do cotidiano, abrindo um além da lida incessante para onde se pode “erguer o olhar”.
    • Receber o céu como aceitação de variação e medida.
    • Recusa de transformar noite e dia em regime contínuo.
    • Beiträge: proteger a noite e ward off “false days of everydayness”.
    • Alívio de um “além” da labuta como possibilidade de olhar para cima.
  • A autodilação do céu em alternâncias periódicas impede consolidação e fixaçāo, produzindo transmissibilidade do céu como medium por meio de deslizamentos entre noite e dia e entre estações, e assim a radiância do que aparece se conduz num campo diversificado onde algo pode ser retido e algo pode vir à luz, pois radiância exige medium.
    • Alternância como condição de receptividade e comutatividade.
    • Medium do céu como campo de distribuição incontrolável.
    • Retenção e iluminação como dinâmica do aparecer.
    • Radiância como fenômeno dependente de medium.
  • Habitar aguarda as divindades como divindades em esperança que sustenta o não-esperado, em espera por indícios de chegada e reconhecimento de sinais de ausência, sem fabricar deuses nem servir a ídolos, e mesmo no unhale aguarda o hale retirado, de modo que marcas e rastros tornam o mundo palimpsesto onde ausência é sempre assinalada e a comunicatividade frágil do hale se mantém por diferenciações significantes.
    • Esperança como abertura ao não-esperado.
    • Indícios e sinais como modo de chegada e de default.
    • Unhale como modulação do hale retirado.
    • Marcação como condição de linguagem e sentido.
  • A espera pelas divindades exige renúncia de transferência de maestria para figuras presentes, porque deuses e ídolos se equivalem como entes presentes, e em The Turn a desautorização da stubbornness humana aparece como condição de responder a uma reivindicação e de olhar às divindades enquanto mortal, preservando a significatividade sem reificação.
    • Rejeição de reificação das divindades em figuras fixas.
    • Maestria não transferida, mas abandonada.
    • The Turn: disavow de stubbornness como condição de resposta.
    • Olhar às divindades como um dos mortais.
  • Habitar acompanha os próprios mortais ao possibilitar morte como morte para um bom morrer sem fazer da morte objetivo nem obscurecer o habitar por fixação no fim, e esse acompanhar (geleiten) indica que o mortal pertence a outros em condução recíproca numa existência em curso, na qual ninguém é suficiente para entrar no que lhe é mais próprio sem guia e testemunho.
    • Geleiten como escoltar, conduzir, iniciar.
    • Capacidade de morrer como morte exigindo mediação de outros.
    • “Bom morrer” como orientação do acompanhar.
    • Habitar como testemunho e condução recíproca.
  • A noção de bom morrer pode ser situada historicamente por Philippe Ariès ao distinguir um modelo medieval tardio centrado no momento da morte ritualizado e decisivo para salvação, de um modelo posterior em que o bom morrer se liga a uma vida inteira pensada com a morte, deslocando o peso do instante final para uma disposição contínua.
    • Ariès: ritualização em torno do leito e centralidade do moribundo.
    • Morte como batalha entre bem e mal e salvação decidida no fim.
    • Crença de redenção total por “boa morte” independentemente da vida.
    • Emergência do modelo do justo que pensou a morte ao longo da vida.
  • O bom morrer se compreende como morte não exterior que sobrevém a um indivíduo, mas como medium em que se vive desde o início e ao qual se é conduzido por outros, implicando renúncia de domínio mesmo sobre a própria morte e aceitação de ajuda, porque o próprio sempre excede o eu e a radiância da mortalidade se partilha, e “nenhuma transformação ocorre sem um escoltar antecipatório” (Geleit).
    • Morte como medium e não como instante externo.
    • Renúncia de maestria sobre o morrer e abertura à assistência.
    • Radiância como múltipla e partilhável.
    • Geleit como condição de transformação.
  • Radiância material, medial, significativa e múltipla exige um poupar (schonen) que protege o Geviert em seu essenciar e deixa brilhar (scheinen) em beleza (schönen), e proteger não é passividade, mas gesto positivo de deixar algo entrar antecipadamente em sua essência e de abrigá-lo em paz como freiar e einfrieden, de modo que habitar é ser trazido ao Frieden e permanecer no Frye que poupa cada coisa em sua essência, sendo esse poupar o caráter fundamental do habitar.
    • Schonen como proteger o Geviert e deixar essenciar.
    • Scheinen e schönen como articulação de brilho e beleza.
    • Proteger como ação positiva: deixar na essência e abrigar em paz.
    • Frieden, Frye e Freie como espaço de liberdade que poupa.
  • A radiância só se preserva onde se reside com coisas, pois habitar como poupar conserva o Geviert no que se habita, isto é, nas coisas, e por isso habitar é tomar residência entre coisas e se encaminha a bauen como manutenção e construção que guarda a radiância na materialidade e na convivência.
    • Habitar como residence with the things.
    • Conservar o Geviert “nas coisas” como condição do poupar.
    • Radiância como algo que precisa ser “abrigado”.
    • Bauen como manutenção e construção correlatas do habitar.
  • O comportamento para com as coisas se nomeia Gelassenheit na conferência de 1955 como dupla sustentação de releasement toward things e openness for the secret, operando como contraforça à dominação tecnológica ao dizer simultaneamente “sim” e “não” aos objetos técnicos, deixando-os entrar no cotidiano e, ao mesmo tempo, repousar como coisas referidas a algo mais alto do que si, de modo que mesmo no Bestand se reconhece a coisa e se recusa a autoencapsulação pretendida.
    • Gelassenheit como dupla: coisas e segredo.
    • Sim e não simultâneos como recusa de aceitação total e de rejeição total.
    • Objetos técnicos como coisas referidas a algo além de si.
    • Coisa no standing reserve como exigência do releasement.
  • A abertura ao segredo se funda no fato de que tecnologia é envio histórico (Geschick) e, por isso, traz algo retido em sua essência, enquanto o mundo tecnológico busca encobrir essa incompletude apresentando-se como perfeição fechada, e a atenção constante ao sentido oculto que toca em toda parte põe o habitar no domínio do que se oculta precisamente ao vir, onde o que se mostra e se retira constitui o traço básico do secreto.
    • Tecnologia como modo de ser e como envio histórico.
    • Sentido do mundo tecnológico como algo que se oculta.
    • Retirada como condição de doação do técnico.
    • Secreto como mostrar-se retirando-se e como traço do que vem.
  • Habitar deixa as coisas permanecerem secretivas e protegidas, permitindo que exibam segredos radiantes como marcas do retirar-se, de modo que as coisas não se dão totalmente e, ao implicarem quem as encontra em seu essenciar, chegam como interpretáveis e não indiferentes, oferecendo espaço e possibilidade de residir de maneira inteiramente diversa, isto é, numa mundanidade de relações (Verhältnismäßigen).
    • Segredo como radiância marcada por retirada.
    • Coisas como intrinsecamente interpretáveis e implicantes.
    • Residir de modo diverso como morar em relacionalidade.
    • Verhältnismäßigen como modo de permanecer na terra.
  • Habitar mortal como admissão ao Geviert se formula na tese de que os mortais estão no Geviert na medida em que habitam, mas esse habitar não é qualidade inata porque os mortais ainda não o são plenamente e dependem de outros que introduzem e ensinam, de modo que ser mortal requer aprender a habitar.
    • Mortais no Geviert por meio do habitar.
    • Mortais como ainda “não ainda” plenamente constituídos.
    • Aprendizagem e introdução por outros como condição do habitar.
    • “Must first learn dwelling” como exigência do tornar-se mortal.
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