User Tools

Site Tools


Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:merleau-ponty:1960:subjetividade-1960

Subjetividade

MERLEAU-PONTY, Maurice. Signes. Paris: Les Éditions Gallimard, 1960 / MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. Tr. Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

  • A interrogação inicial busca determinar o que pode haver de comum entre filosofias da subjetividade desenvolvidas ao longo de três séculos, apesar de suas diferenças conceituais e históricas.
    • A enumeração das diversas figuras do Eu não visa uma simples classificação, mas a colocação de um problema filosófico unificador.
    • A questão fundamental é se essas subjetividades discordantes podem ser compreendidas como momentos de uma única problemática ontológica.
  • A primeira figura apresentada é o Eu vivido e narrado, tal como aparece em Montaigne e sob a forma crítica em Pascal.
    • Trata-se de um Eu registrado no cotidiano, cujas audácias, fugas e intermitências são observadas como se pertencessem a um desconhecido.
    • Essa subjetividade não se oferece como transparência, mas como campo de experiência instável e historicamente exposto.
  • Em contraste, surge o Eu pensante de Descartes e de Pascal, apreendido em um instante de evidência absoluta.
    • Esse Eu coincide inteiramente consigo mesmo enquanto pensa, sendo tudo o que pensa ser e nada além disso.
    • Caracteriza-se por uma abertura total e por uma transparência sem resto, sem outro mistério que não o da própria evidência.
  • A tradição empirista inglesa introduz uma série subjetiva constituída por ideias que se conhecem a si mesmas em um contato imediato e mudo.
    • A subjetividade é aqui concebida como autoafeção natural, sem necessidade de mediação reflexiva explícita.
    • O conhecimento de si ocorre por uma propriedade intrínseca das próprias ideias.
  • A subjetividade em Rousseau aparece como um abismo ambíguo de culpabilidade e inocência.
    • Esse Eu organiza sozinho o complô em que se sente aprisionado.
    • Ao mesmo tempo, reivindica legitimamente uma bondade incorruptível diante de seu destino.
  • O sujeito transcendental kantiano é apresentado como distinto da intimidade psicológica e, ao mesmo tempo, mais próximo do mundo.
    • Ele contempla mundo e eu empírico após tê-los constituído.
    • Apesar disso, reconhece-se como habitante do mundo que constrói.
  • Em Maine de Biran, a subjetividade é inseparável do corpo.
    • O sujeito não apenas sabe estar no mundo, mas efetivamente está nele.
    • A possibilidade mesma de ser sujeito depende da posse de um corpo capaz de movimento.
  • Em Kierkegaard, a subjetividade deixa de ser uma região do ser para tornar-se o modo fundamental de relação com o ser.
    • Ser subjetivo é existir de modo comprometido, em oposição ao pensamento objetivo que sobrevoa as coisas.
    • A subjetividade é condição para que algo seja efetivamente pensado.
  • Diante dessa multiplicidade, surge a questão do sentido de falar em uma única descoberta da subjetividade.
    • A noção de descoberta não pode ser entendida em sentido empírico ou retrospectivo.
    • A reflexão não encontra uma subjetividade pronta, mas transforma aquilo que pretende desvelar.
  • A ideia de um cogito pré-reflexivo levanta dificuldades conceituais decisivas.
    • O contato consigo antes da reflexão não pode ser plenamente tematizado sem projeção retrospectiva.
    • O sentimento de si anterior ao conhecimento não coincide consigo mesmo e não se possui.
  • A reflexão não apenas revela o irrefletido, mas o modifica.
    • A subjetividade não aguardava os filósofos como um continente desconhecido.
    • Ela foi construída de múltiplas maneiras e talvez deva ser desconstruída.
  • A crítica heideggeriana afirma que o ser foi perdido quando fundado sobre a consciência de si.
    • Essa posição sugere que a subjetividade reflexiva obscurece uma relação mais originária com o ser.
  • Apesar dessas dificuldades, mantém-se o uso do termo descoberta em um sentido filosófico específico.
    • Trata-se de algo que, uma vez introduzido, não pode mais ser ignorado pelo pensamento.
    • Mesmo superada, a subjetividade transforma irreversivelmente a filosofia.
  • O parentesco entre as filosofias da subjetividade aparece quando são confrontadas com tradições que não privilegiam o sujeito.
    • Os modernos compartilham a ideia de que o ser-sujeito não é um ser menor.
    • A subjetividade tende a ser pensada como forma absoluta do ser.
  • Elementos dessa problemática já estavam presentes na filosofia grega.
    • A máxima do homem como medida de todas as coisas antecipa a centralidade do sujeito.
    • A alma é reconhecida como capaz de erro e de verdade, mantendo relação essencial com o não-ser.
  • Contudo, para os gregos, o ser do sujeito nunca é a forma canônica do ser.
    • O negativo não ocupa posição central nem é responsável por transformar o positivo.
  • A modernidade desloca esse eixo ao colocar o ser-sujeito no centro da filosofia.
    • A subjetividade não é coisa nem substância, mas extremidade do particular e do universal.
    • Sua natureza proteica explica a diversidade das filosofias que a tematizam.
  • Sob as divergências, oculta-se uma mesma dialética da subjetividade.
    • Ela oscila entre duas figuras fundamentais.
    • Essas figuras não são opostas, mas aspectos de uma mesma ideia.
  • A primeira figura é a subjetividade vazia, universal e solta.
    • Corresponde à transparência absoluta e à negatividade pura.
  • A segunda figura é a subjetividade plena, entranhada no mundo.
    • Ela necessita do mundo para ser o que é, mesmo enquanto nada.
    • Em Sartre, essas duas figuras coincidem na ideia do nada que vem ao mundo.
  • A descoberta da subjetividade não é comparável à descoberta de um continente ou de um elemento químico.
    • Ela é uma construção que se torna inevitável pela força de seus testemunhos.
    • Uma vez introduzida, adquire a solidez de um fato filosófico.
  • A filosofia não pode simplesmente anular o pensamento do subjetivo.
    • Ela deve digeri-lo, transformá-lo ou superá-lo por pensamentos mais adequados.
    • Mesmo a nostalgia de uma ontologia pré-subjetiva depende da consciência de si.
  • A subjetividade é, portanto, um pensamento aquém do qual não se retorna.
    • Mesmo quando superada, permanece como condição histórica e conceitual do pensamento filosófico.

  • A questão inicial interroga o que há de comum entre filosofias da subjetividade desenvolvidas ao longo de três séculos.
    • O fio condutor é a recorrência da figura do Eu, ainda que sob formas conceitualmente divergentes.
    • A diversidade histórica das figuras da subjetividade não impede que sejam reunidas sob uma mesma problemática ontológica.
  • As diferentes figuras históricas do Eu exemplificam modos distintos de subjetividade.
    • O Eu de Montaigne aparece como objeto de atenção constante, experimentado na variabilidade de suas condutas e estados.
    • O Eu de Pascal surge como algo odiado, problematizado em sua pretensão de centralidade.
    • O Eu pensante de Descartes e Pascal manifesta-se como transparência absoluta, alcançável apenas por um instante, mas então total e sem espessura.
    • A série subjetiva do empirismo inglês concebe ideias que se conhecem a si mesmas por um contato imediato e mudo.
    • O Eu de Rousseau apresenta-se como tensão entre culpabilidade e inocência, organizando um destino vivido como complô e afirmando simultaneamente uma bondade originária.
    • O sujeito transcendental kantiano constrói mundo e intimidade psicológica, contemplando-os depois, mas reconhecendo-se também como habitante do mundo.
    • O sujeito de Biran afirma-se como inseparável do corpo, incapaz de ser sujeito sem estar efetivamente no mundo.
    • A subjetividade em Kierkegaard deixa de ser região do ser para tornar-se o modo fundamental de relação com o ser, em oposição ao pensamento objetivo que sobrevoa as coisas.
  • A interrogação sobre a unidade dessas subjetividades conduz à problematização da noção de descoberta.
    • Coloca-se em dúvida a ideia de que a subjetividade existisse previamente, pronta para ser revelada pelos filósofos.
    • A reflexão filosófica transforma inevitavelmente aquilo que pretende desvelar.
    • O cogito pré-reflexivo aparece como construção retrospectiva, dependente da própria reflexão que o formula.
    • O sentimento de si anterior ao conhecimento de si apresenta uma dificuldade conceitual semelhante à do inconsciente afetivo.
    • A consciência, ao buscar suas origens, só pode projetar-se nelas ou ignorá-las, o que invalida a ideia de uma descoberta simples.
  • A subjetividade não preexiste à reflexão como um dado natural.
    • Ela é construída de múltiplas maneiras pelas filosofias que a tematizam.
    • A reflexão não apenas revela o irrefletido, mas o modifica em sua própria verdade.
    • A subjetividade não aguardava os filósofos como um continente desconhecido aguardaria exploradores.
    • A crítica heideggeriana aponta que o ser foi perdido no momento em que passou a ser fundado sobre a consciência de si.
  • Apesar dessas dificuldades, mantém-se legitimamente a noção de descoberta da subjetividade em um sentido específico.
    • Trata-se de uma descoberta cujo significado precisa ser cuidadosamente determinado.
    • O parentesco entre as filosofias da subjetividade torna-se evidente quando confrontadas com filosofias que não a privilegiam.
  • O traço comum das filosofias modernas é a elevação do ser-sujeito a uma dignidade ontológica central.
    • O ser da alma ou do sujeito não é considerado um ser menor.
    • Em muitos casos, é concebido como a forma absoluta do ser.
    • Esse traço distingue a modernidade de tradições anteriores.
  • A filosofia grega já continha elementos de uma reflexão sobre a subjetividade.
    • Reconhecia o homem como medida de todas as coisas.
    • Atribuía à alma a capacidade paradoxal de erro e de verdade.
    • Admitia uma relação essencial da alma com o não-ser.
    • Concebia um pensamento que é pensamento de si e uma liberdade radical.
    • Conhecia a subjetividade tanto como noite quanto como luz.
  • Contudo, para os gregos, a subjetividade não ocupa o centro da ontologia.
    • O ser do sujeito não é a forma canônica do ser.
    • O negativo não assume a função de fundamento do positivo.
    • A subjetividade não é encarregada de transformar ou assumir o ser.
  • Na filosofia moderna, de Montaigne a Kant e além, o ser-sujeito torna-se o problema central.
    • A subjetividade não é coisa nem substância.
    • Ela situa-se na extremidade do particular e do universal.
    • Sua natureza proteiforme explica a divergência das filosofias que a tematizam.
    • Sob as divergências aparentes, opera uma mesma dialética das metamorfoses da subjetividade.
  • Reduzem-se, em última instância, a duas grandes ideias da subjetividade.
    • A subjetividade vazia, solta e universal.
    • A subjetividade plena, enraizada no mundo.
    • Em certos autores, ambas coexistem como a ideia do nada que vem ao mundo, necessita do mundo e permanece estrangeiro a ele.
  • A descoberta da subjetividade não se assemelha às descobertas empíricas.
    • Não é comparável à descoberta de um continente ou de um elemento químico.
    • É uma descoberta irreversível no plano do pensamento.
    • Uma vez introduzida, a subjetividade não pode mais ser ignorada pela filosofia.
  • Mesmo a superação da subjetividade pressupõe sua assimilação.
    • A filosofia jamais retorna ao estado anterior à consciência de si.
    • O pensamento do subjetivo adquire a solidez de um fato filosófico.
    • A filosofia deve digeri-lo, transformá-lo ou superá-lo, mas não anulá-lo.
  • A subjetividade constitui um pensamento aquém do qual não se pode retroceder.
    • Mesmo quando superada, permanece como condição do próprio movimento filosófico.
    • O desejo contemporâneo de uma ontologia primordial deve seu sentido à própria consciência de si.
    • A subjetividade é um desses pensamentos decisivos que estruturam irreversivelmente o campo da filosofia.
estudos/merleau-ponty/1960/subjetividade-1960.txt · Last modified: by 127.0.0.1