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Terra-Céu

(MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001)

O sistema da Terra e do Céu

1. A originalidade do primeiro escrito heideggeriano sobre Hölderlin reside no fato de a “origem” (Ursprung) surgir de si mesma, em ruptura violenta com o percurso seguido havia vinte anos pelo autor de Sein und Zeit, testemunhando a própria linguagem do curso sobre os Hinos de Hölderlin esse desprendimento de toda dependência à representação dominante da filosofia.

2. Enquanto a filosofia se abrira, com Platão, sob o arrancamento “num relâmpago” (exaiphnes) que conduzia o prisioneiro da caverna rumo ao horizonte solar, o “passo atrás” de Heidegger (Schritt zurück) retrocede aquém da metafísica e conduz a outra experiência: “num relâmpago” (Blitz), o próprio relâmpago do deus, e não mais do homem, arrebata o pensador de espanto rumo à altura do mundo, já não sendo o horizonte do ente (das Seiende), mas a altura do Ser (das Seyn) que provoca o espanto original.

3. O tremor de terra provoca em Heidegger um tremor de língua que desconstrói o edifício da tradição, sendo o “giro” (Kehre) do pensamento heideggeriano, não do sujeito humano mas do próprio Ser como advento, efetivo já em 1934 com a aparição desse idioma inaudito, cujo testemunho mais eloquente é a conferência A Origem da Obra de Arte, proferida em 1935 e 1936, cuja audácia é registrada no espanto de Hans-Georg Gadamer diante da fala sobre terra e céu como se fossem conceitos próprios do pensamento.

4. O mais surpreendente nessas conferências, que radicalizam a énigma do surgimento já detectada em Hölderlin, está tanto no “estilo quase oracular” quanto na intuição decisiva que passa a pensar o todo em termos de “mundo” (Welt), e o mundo em termos de “sistema” (σύστημα): seja a partir de um quadro de Van Gogh ou de um templo grego, a obra abre um mundo e o mantém aberto ao mesmo tempo em que se retira para a terra, sendo toda obra “a instauração de um mundo” (das Aufstellen einer Welt) enraizado na maciez profunda “da terra” (die Erde).

5. Terra e Mundo se afrontam, sem referência às duas potências de Hölderlin, num combate em torno da abertura da obra ao sentido, evidenciado por série de quiasmas cada vez mais intensos entre a primeira e a segunda versão da conferência, articulando o mundo contra a terra e a terra contra o mundo, o mundo fundando-se sobre a terra e a terra sobressaindo através do mundo, apenas na medida em que a verdade acontece como o combate originário entre clareira e reserva.

6. Esse afrontamento de terra e mundo se abre, na clareira do combate, à presença conjunta de deuses e homens, sendo a primeira versão da conferência centrada no confronto entre “o homem” e “o deus mesmo” a propósito da estátua consagrada ao vencedor dos jogos, enquanto a segunda versão assegura o encontro dos Quatro no espaço de jogo aberto pela obra de arte, unificando o templo, como abertura entre terra e céu, as quatro vias que são, para o ser humano, nascimento e morte, infortúnio e prosperidade, vitória e derrota, resistência e ruína.

7. A unidade reinante dessas relações é chamada por Heidegger de “mundo”, nomeado “ajuntamento” (Gefüge), “junta” (Fuge) e “junta significante” (die weisende Fuge) na primeira versão, e “unidade das vias e relações”, “uníssono de reciprocidade” e “foco reunido do movimento do combate” na segunda, não sendo essa unidade reunidora um quadro sobreposto à soma dos entes, mas, em sentido pleno, um mundo, forjando Heidegger o neologismo welten sobre o modelo de walten para exprimir que “o mundo se mundifica” e se instala como Todo na articulação cruzada de terra e céu, deuses e homens.

8. Com a evidenciação do “ajuntamento do mundo” (Weltgefüge), também chamado “a Instalação” (die Aufstellung), estamos diante de um pensamento do Ser enquanto sistema, sendo o systema dado na “amplitude e altura do mundo”, e não mais no horizonte da metafísica, medindo-se o volume da altura celeste, a cada vez, pela “profundeza” e “fechamento do abismo da terra”, razão pela qual Heidegger dá em 1936 um nome grego a esse mundo: “o κόσμος pode ser chamado σύστημα ἐξ οὐρανοῦ καὶ γῆς, o ajuntamento do céu e da terra.”

9. O curso sobre O Reno já sustentava que a missão dos gregos fora pensar “o ajuntamento do Ser na junta da obra”, e o curso sobre Schelling desenvolve extensamente o “sistema” compreendido no sentido grego de κόσμος até a definição decisiva: “o sistema é o entrelaçamento, à medida do saber, do ajuntamento e da junta do próprio Ser.”

10. O que a interpretação das potências da origem, Terra e Céu, e dos modos do surgimento, Urgência e Elevação, chamava “coisa quádrupla” (ein Vierfaches) ou “estrutura essencial” (das Wesensbau) do puramente surgido, passa a chamar-se Seynsfuge, “entrelaçamento do Ser”, entendido também como “fuga” musical (Fuge), sendo o Ser simultaneamente junta das quatro potências originárias e fuga no acorde harmônico das quatro notas da Grundstimmung, formando o conjunto dessas instâncias opostas duas a duas o “sistema” do mundo cuja chave de abóbada é o próprio Ser.

11. Heidegger pensa, na verdade, o contraponto da metafísica à imagem da estrutura contrapontística da fuga, postulando que cada ente é tributário do sistema enquanto ente do ser, sendo pensar necessariamente pensar “a mesmidade do Ser e do ajuntamento”; sob o espírito de sistema da metafísica, que fixa na objetividade da razão o advir do Ser, deve-se reencontrar a fuga, sempre escapada, do sustema do pensamento do começo, cuja denominação completa se tornará σύστημα ἐξ οὐρανοῦ καὶ γῆς τε καὶ ἀνθρωπῶν καὶ θεῶν.

12. Ao entrar no sistema da terra e do céu, Heidegger virou definitivamente a página da metafísica, mas o termo escolhido para designar essa reviravolta, die Kehre, não remete a uma conversão religiosa nem a um simples desvio, designando antes, no dialeto suábio, a curva do caminho que se enlaça ao flanco da montanha para retomar em direção oposta — não é o caminhante quem inverte sua marcha, mas o próprio caminho que se inflete, dócil ao comando da montanha, para continuar a elevar-se até o cume.

13. Ao realizar a virada, Heidegger não toma decisão pessoal de virar as costas à metafísica; seu caminho de pensamento, invariável, contorna por forças próprias o Maciço metafísico para abrir vista sobre nova paisagem, não para apagar o horizonte metafísico, como em Nietzsche, mas para assegurá-lo em seus justos limites, descobrindo entre o cume e o abismo a vasta amplitude do mundo que o pensamento deve encarar como um todo, sendo o retorno ao mundo, na abertura do quádruplo surgimento, o retorno às próprias coisas.

14. Em 1935, o giro hölderliniano conduz Heidegger a retornar à metafísica para dela demarcar fundamentos e limites: o curso de verão Introdução à Metafísica retoma a estrutura quadripartite evidenciada no curso de inverno de 1934-1935 sobre A Germânia e O Reno para aplicá-la à própria metafísica, reduzindo-a a quatro distinções de “conexão essencial” — ser e devir, ser e aparência, ser e pensar, ser e dever — apresentadas segundo esquema em cruz análogo ao de O Reno.

15. Essa primeira partição metafísica aproxima-se da partição tetrádica que Heidegger descobrirá cinco anos depois em Aristóteles, no seminário de 1940 sobre a Física, ao apoiar-se na concepção hölderliniana da natureza (φύσις) na estrofe III do Hino Como em Dia de Festa, distinguindo quatro novas determinações metafísicas referidas não mais ao “Ser”, mas à “Natureza”: natureza e sobrenatureza, natureza e arte, natureza e história, natureza e espírito.

16. É a mesma estrutura, apesar dos nomes diferentes, que rege as limitações do Ser e da Natureza, identificando Heidegger explicitamente as duas fontes das partições quádruplas: a “Natureza” torna-se aqui o nome para o que está acima dos deuses e é “mais antigo que as eras”, tornando-se o nome para o “Ser”, pois o “Ser” é anterior a todo ente que dele toma emprestado o que é.

17. A segunda tétrade, referida à Natureza, corresponde exatamente à primeira, inscrita no Ser, esgotando ambas o conjunto das oposições metafísicas da história da filosofia: a Arte pertence ao mundo da aparência (Platão), a História ao do devir (Heráclito), o Espírito ao do pensar (Parmênides), e a Sobrenatureza ao do dever (Kant), sendo a Natureza primeira nesse jogo de oposições assim como o Ser é primeiro em relação às quatro ramificações.

18. Se os dois esquemas quadripartites são similares, a figura da Natureza, oriunda de Hölderlin, que nela vê “a onipotente”, orienta implicitamente para o outro pensamento, pois o cerne das quatro cisões, em sua intimidade secreta (Innigkeit), é termo pré-metafísico — φύσις na língua dos pensadores gregos, Natureza na língua do poeta alemão —, conduzindo naturalmente ao esquema inicial do esquartejamento das potências da origem em O Reno.

19. Sob cada uma das oposições canônicas da metafísica — Arte/aparência, História/devir, Espírito/pensar, Sobrenatureza/dever — e, em seu centro, Natureza/Ser, reconhecem-se as quatro potências originárias a partir das quais a metafísica, como história do Ser, pôde ter lugar, nascendo a quadratura do ente do esquartejamento do Ser.

20. É o mesmo destino que destina a Arte, na manifestação da bela aparência, aos Deuses que reinam na luz; que destina o Espírito, no ato de pensar, à Terra, pois “a verdade é essencialmente terrestre”; que destina a História, no fluxo do devir, aos Homens, que se afrontam para conquistar seu solo natal; e que destina a Sobrenatureza, no imperativo do dever, ao Céu, ao qual se referem as leis não escritas dos deuses.

21. Esse diagrama em cruz, cujo modelo permanece o de O Reno, pode ser lido a partir dos elementos primitivos da mitologia hölderliniana, presente já em Hyperion, de 1796, onde homens e deuses, submetidos aos desígnios do Destino, dirigem prece “às forças favoráveis do céu e da terra”, e Diotima se descreve como “flor entre flores em quem as forças do céu e da terra se conjugavam pacificamente”, desenvolvendo um fragmento da Juventude de Hyperion quatro elementos de estrutura cósmica primitiva — a terra bem-amada, o Sol do céu, o Éter que nos envolve e o Espírito da água — que o poeta nomeia “comunidade divina” e “Sagrado”.

22. Essa estrutura hölderliniana aproxima-se da tétrade dos deuses no romance de Wilhelm Heinse, Ardinghello — Zeus (o ar), Apolo (o fogo do sol), Netuno (a água) e Plutão (a terra) —, sendo pensada por Hölderlin como a tétrade dos elementos tradicionais associada a quatro divindades a partir das duas potências fundamentais cantadas por Hesíodo, Terra e Céu, tal como O Reno opõe as potências da origem, Terra e Tonante, nomeadas por referência ao Banquete platônico como “Penia” e “Poros”; essa mesma estrutura quaternária reaparece, de forma alusiva, no seminário de Heidegger sobre a φύσις de Aristóteles em 1940, mencionando os princípios Fogo, Água, Terra, Luz, referidos expressamente à “Natureza” de Hölderlin.

23. É tentador, e legítimo, reconstituir a figura dos Quatro que evidencia, com o systema da Terra e do Céu, aquilo que Hölderlin chamava “a entente radiosa com tudo o que é”, integrando ao diagrama os quatro elementos de Empédocles e as quatro causas de Aristóteles, sendo mais justo associar a causa formal ao raio de presença dos deuses e a causa material à receptividade dos homens, e Céu e Terra aos conceitos de causa motriz (movimento do céu) e causa final (repouso da terra).

24. Esse sistema tetrádico do Ser, detectado por Heidegger no início dos anos trinta tanto em Aristóteles quanto em Hölderlin, não constitui ainda a figura definitiva do mundo, atravessando período de latência nos trabalhos sobre a metafísica, sobretudo os dedicados a Nietzsche entre 1937 e 1940, até eclodir de uma só vez nas conferências de 1949, tomando seu nome definitivo de Geviert.

25. Antes disso, deve-se acompanhar os comentários de Heidegger aos poemas de Hölderlin entre 1936 e 1943, que enriquecem pouco a pouco a figura do Quadripartido: os quatro textos das Erläuterungen zu Hölderlins Dichtung de 1951 — “Hölderlin e a essência da poesia” (1936), “Como em dia de festa” (1939), “Retorno. Aos próximos” (1943) e “Lembrança” (1943) — e dois cursos mais extensos sobre os Hinos Andenken (1941-1942, 1942-1943) e Der Ister (1942), de modo que, deixadas de lado as conferências tardias de 1959 e 1968, os textos desse período criativo concernem aos quatro Hinos dedicados à Germânia, ao Reno, à Lembrança e ao Ister, bem como aos quatro estudos da edição das Erläuterungen de 1951.

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