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Redução dobrada: Nada

MARION, Jean-Luc. Réduction et donation: Recherches sur Husserl, Heidegger et la phénoménologie. Paris: PUF, 1989.

A redução redobrada – o Nada

  • A segunda tática estabelece um segundo dispositivo fenomenológico fixado pela conferência de 1929, O que é metafísica?, cujos traços essenciais permitem reconhecer nela uma espécie de redução fenomenológica, metamorfose daquilo que na analítica do Dasein se arriscava chamar redução redobrada
    • Assim como a questão em vista do ser devia ser construída segundo três dimensões, trata-se aqui de elaborar a questão em vista do Nada, identificando os atos suscetíveis de assegurar a doação do Nada como tal, o que a conferência efetivamente realiza ao afirmar que o próprio Nada estava ali
    • No dispositivo de 1929, como no de 1927, a redução se cumpre por ocasião da angústia, mas com notável diferença: em 1927 a angústia afeta o Dasein singularizando-o frente ao conjunto do ente, enquanto em 1929 ela exerce o Dasein no encontro com o ente em geral, sobre a base já obtida pelo tédio, que manifesta o ente em seu conjunto
    • O alargamento do campo da angústia, de um ente a todo o ente, resultaria de uma potência fenomenológica acrescida da redução, capaz de operar sobre o ente em totalidade, ainda que continuando a partir do Dasein, cujo âmbito próprio, o In-der-Welt-Sein, já concernia desde 1927 ao ente em sua totalidade
    • A angústia opera sobre o ente em totalidade uma retração que recebe sua saída do Nada, o qual designa essencialmente à expulsão, reenvio que faz deslizar em direção ao ente em totalidade que assim naufraga, sendo essa expulsão designadora a essência do Nada — a redução a nada
    • Uma nota de 1949 esclarece que designar em expulsando concerne ao ente tomado por si mesmo, enquanto reenviar significa reenviar ao ser do ente, de modo que a expulsão do ente fora do mundo constitui apenas o primeiro momento da angústia, que prossegue pelo reenvio ao ser
    • O ser não aparece como termo último da angústia, resíduo ou etidade remanescente do naufrágio do ente, mas como cumprimento de seu movimento, retomando a angústia certos traços fundamentais da redução de 1927, confirmados pelo emprego de Verweisung desde 1925 e 1927 para definir o fenômeno como relação de reenvio
  • Uma objeção impõe-se quanto à divergência entre o ponto de chegada da redução de 1929, mais frequentemente designado como o próprio Nada, e o ser do ente atribuído à analítica do Dasein, exigindo reconstituir a triplicidade dos termos própria à redução redobrada
    • A primeira etapa conduz do ente em totalidade ao ser do ente por um reenvio que expulsa, sendo o Nada mesmo a transgressão do ente em direção ao ser do ente, pois a redução a nada do Nada inverte a relação: o Nada revela o primeiro clarão do ser do ente
    • Em 1929, o que se interroga é o ente em sua totalidade, o que se demanda permanece o ser do ente desvelado no Nada do ente em geral, mas o que se quer saber carece de nome próprio, já que o sentido de ser de 1927 permanece mais horizonte de projeto que percurso cumprido
    • Arrisca-se a hipótese de que o que Ser e Tempo designava sob o título de sentido de ser, a conferência de 1929 visa, sem incluí-la expressamente no texto original, sob o nome de diferença ontológica, noção que já determinava o horizonte da pesquisa desde os cursos de 1927 e o texto de 1928, Vom Wesen des Grundes
    • Comentários acrescentados por Heidegger em 1931 ao texto de 1929 explicitam a diferença ontológica em passagens sobre a discordância essencial, a distinção radical entre o Nada e o ente, e o encontro simultâneo entre Nada e ente na angústia, confirmando que a essência do Nada põe o Dasein pela primeira vez diante do ente como tal, propriamente diante do ser do ente, diante da diferença
  • As duas retomadas da redução fenomenológica convergem para um único fim, receber na pura doação em pessoa e a título de fenômeno o próprio ser, pois ser significa aparecer, não como algo que sobrevenha ocasionalmente ao ser, mas como aquilo em que o ser se desdobra enquanto aparecer
    • Heidegger, ao recusar e pretender ultrapassar como não fenomenológica a redução tal como Husserl a praticava, permanece legitimamente seu discípulo, pois é sempre em virtude do método da fenomenologia e do princípio do retorno às coisas mesmas que se desdobra a segunda e radical redução — a de todos os entes ao ser do ente
    • Quanto à fenomenologia, o essencial não é que ela seja efetiva a título de orientação filosófica, pois mais elevada que a efetividade se ergue a possibilidade, permanecendo em aberto se o aparecer do ser, cumprimento último da fenomenologia, pode de fato se realizar
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