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Ídolo e Distância

MARION, Jean-Luc. L’idole et la distance: cinq études. Paris: Librairie générale francaise, 1991.

Abertura

  • A “morte de Deus”, longe de significar um desaparecimento divino, revela a face moderna de sua fidelidade insistente, pois a ausência de Deus, quando conceitualmente delimitada, remete à própria revelação cristã da paternidade divina, onde a deserção do Pai no Calvário funda uma filiação indissolúvel, e todo abandono metafísico encontra seu sentido e superação no deserto percorrido pelo Filho em direção ao Pai, num jogo trinitário que retoma todas as desolações na seriedade e no perigo do amor.
    • A teologia dos nomes divinos, tema bíblico e patrístico, permite essa retomada trinitária da “morte de Deus”, e sua quase-disparação após Suarez coincide com o declínio da teologia dogmática, mas o empreendimento de Dionísio não visa recusar todo discurso sobre Deus em favor de uma apófase duvidosa, mas trabalhar a linguagem para que ela não entre em contradição com o que ousa enunciar, abrindo-se para um discurso de louvor.
  • A distância, tal como concebida, se refere imediatamente à diferença ontológica heideggeriana, mas a questão que se coloca é se o desdobramento da distância não seria um mero decalque da diferença, e, para além disso, se a distância não é radicalmente outra em relação à questão do Ser, aliando-se, provisoriamente, às críticas de Levinas e Derrida, para então exigir uma reavaliação a partir da doação, onde o dom do Ser e o dom do Pai se distinguem e se redobram em uma distância que se coloca a si mesma como seu ícone.
  • A urgência da investigação levou a dispensar algumas precauções, como uma descrição fenomenológica suficiente do par ídolo/ícone, transpondo-o do domínio cultural para o conceitual, com base na Escritura e na teologia, e a mobilizar um conjunto heteróclito de autores (Nietzsche, Hölderlin, Dionísio, Heidegger, Levinas, Derrida, Balthasar), sem a pretensão de se cobrir de autoridades ou criticar pensamentos heterodoxos, mas com o intuito de se deixar instruir pela distância, sendo a fecundidade da interpretação o único critério, desde que quem recebe pense.
  • A ênfase nas “marchas” da metafísica, que não são margens, mas defesas que a protegem contra ela mesma, permite vislumbrar a idolatria onto-teológica e superá-la, permanecendo no flanco da metafísica sem desertá-la, e, nesse contexto, a filosofia, em seus maiores expoentes, ao avançar em direção à onto-teologia, a excede pela via do ícone, como se vê em Tomás de Aquino, Descartes, Kant e Schelling, cujas obras poderiam ser exploradas para avançar na direção indicada pela distância.
  • O autor assume a responsabilidade pelo texto, mas reconhece a dívida para com H. Urs von Balthasar, cuja maneira de proceder orientou o trabalho, e para com diversos interlocutores e amigos que leram ou contribuíram com o texto, expressando sua gratidão a todos eles.
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