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Metafísica

MARION, Jean-Luc. L’idole et la distance: cinq études. Paris: Librairie générale francaise, 1991.

As marchas da metafísica

1. O ídolo

  • A sentença “Deus está morto” encerra uma contradição, pois o que morre não pode ser chamado de Deus, e a própria proposição se anula ao anular seu objeto, mas a questão permanece pensável, e a crítica formal a essa contradição não elide a interrogação de fundo sobre as condições de pensabilidade dessa morte.
    • O ateísmo conceitual, para ser rigoroso, deve operar com um conceito de “Deus” e proceder hipoteticamente, mas sua refutação só vale para o conceito mobilizado, e para refutar o Absoluto seria necessário esgotar todos os conceitos possíveis, de modo que o ateísmo permanece regional e reproduzível, e o crente pode praticá-lo tão bem quanto o descrente.
    • A demonstração ateísta destrói seu próprio ponto de apoio, pois, se o conceito inicial de “Deus” é refutado, a conclusão apenas mostra que esse conceito não era Deus, de modo que o ateísmo conceitual é rigoroso mas sem pertinência, e sua autocrítica o projeta em uma repetição infinita de críticas regionais, que lhe confere uma função teológica indispensável.
    • A contradição em “Deus está morto” pode ser vista como índice de outra rigueur, a da identidade tautológica “Deus é Deus”, mas isso exige que se pense a morte e a contradição a partir de Deus, abandonando o conceito-objeto de “Deus” e admitindo que Deus, por ser indefinível, não pode ser reformado por conceitos, tornando-se o centro de um discurso que se ordena em relação a ele.
  • O ídolo é a forma arcaica pela qual o homem dá um rosto ao divino, fixando-o a partir de sua própria experiência, de modo que o rosto idolátrico precede a investidura pelo deus, e esse deus, conformado à experiência humana do divino, não engana, mas assegura o divino, tornando-o próximo, familiar, e eficaz politicamente.
    • O ídolo, ao submeter o deus às condições humanas da experiência do divino, aproxima-o demais, e essa familiaridade, ao suprir a ausência dos deuses, acaba por eliminar o escárnio e o retiro do divino, desnaturando-o e levando ao seu ocaso, pois o divino, tornado disponível e manipulável, perde sua alteridade e altivez.
    • O conceito, como o ídolo, opera uma mise à disposition do divino em um rosto familiar, o que permite uma reapropriação feuerbachiana, pois, se as propriedades são comuns ao deus e ao adorador, então o divino pertence à esfera humana e, portanto, a distância que autentica o divino é perdida, abrindo caminho para o ateísmo.
    • Em contrapartida ao ídolo, o ícone oferece o rosto do Deus invisível, uma figura que, em vez de abolir a distância, a preserva e sublinha em sua profundidade invisível, substituindo a teofania positiva pela negativa, onde a figura, indepassável e aberta, revela a distância em vez de aboli-la.
    • A questão que se coloca é se a dialética do ateísmo conceitual pode ter uma relação decisiva com o ídolo, pois ambos, conceito e ídolo, produzem uma presença sem distância do divino, e a função idolátrica do conceito de “Deus” deve ser precisada, para então considerar se o conceito pode, também, funcionar como um ícone, oferecendo a figura do invisível.

2. O “Deus” da onto-teologia

  • O filósofo, ao dar nome ao divino, fixa-o em conceitos como primeiro motor, causa sui, ou ser infinitamente perfeito, mas a questão não é se o conceito se pode chamar Deus, e sim se esse conceito coincide com o próprio Deus, e as provas da existência de Deus, em Tomás de Aquino, por exemplo, acrescentam um “quer-dizer” que estabelece uma equivalência entre o termo último da demonstração e Deus, mas esse “todos” que reconhece a equivalência não funda o discurso, e a equivalência permanece infundada e arbitrária.
    • A metafísica, em sua constituição onto-teológica, pensa o ser a partir do ente, privilegiando o ente em seu ser, e o ente supremo, como causa sui, funda os demais entes, mas também é fundado por eles, num jogo de fundação mútua que define a onto-teologia, e o “Deus” da metafísica, como causa sui, é uma figura que serve ao fundamento, mas não é pensado por si mesmo, e permanece um ídolo conceitual que se ordena à onto-teologia.
    • O “Deus” da onto-teologia, produto e para a onto-teologia, é um ídolo que não remete ao invisível, mas sim a uma função de fundamento, e a morte desse “Deus”, longe de encerrar a questão do divino, abre a possibilidade de um outro caminho, aquele que se mantém aberto para o Wesen divino, e que exige um silêncio que só é possível se se acessa o lugar onde a palavra discursiva não é mais apropriada.
    • Esse silêncio, que Heidegger elabora em referência a São Paulo, aponta para uma “loucura” que é a sabedoria do mundo, e para a possibilidade de uma teologia cristã que tome a sério que a filosofia é loucura, e que, portanto, o “Deus” da onto-teologia é um ídolo, e que o sério de Deus só pode começar a aparecer se for fora da onto-teologia que se pretende avançar, assumindo a “loucura” da cruz.
    • A questão que se coloca é se o ídolo onto-teológico, triunfante ou arruinada, fecha todo acesso ao ícone de Deus como “ícone do Deus invisível”, e para responder a essa questão é necessário percorrer a onto-teologia ao longo de seus limites, de suas marchas, que a defendem e a cernem, para, a partir daí, se expor ao que já não lhe pertence, e entrar no sério da loucura que visa o ícone e recusa o ídolo.

3. Discurso aos atenienses

  • O discurso de Paulo no Areópago (Atos, XVII) mostra que a relação com Deus escapa à conceitualização que compreende as idolias, e que o “Deus desconhecido” não pode ser pensado por conceitos, mas nos compreende, pois é nele que vivemos, nos movemos e existimos, e essa incompreensibilidade é o que nos convoca a ver a própria invisibilidade de Deus.
    • As idolias, ao mediatizar nosso conceito de “Deus”, são superadas quando nós mesmos somos convocados a mediatizar a relação das idolias com Deus, e o deus do debate se desloca: diante de Deus sem rosto, não o olhamos mais em uma face idolátrica, mas Ele primeiro nos olha e nos guarda sob seu olhar invisível.
    • A ressurreição, mencionada por Paulo, é a confirmação da incompreensibilidade de Deus, que não pode ser encerrada em um conceito, e a loucura da cruz, a que Paulo se refere na Primeira Epístola aos Coríntios, é o critério para distinguir o “Deus” da onto-teologia do Deus da revelação.
    • O itinerário que se anuncia é o de percorrer as marchas da onto-teologia, a partir de Nietzsche, Hölderlin e Dionísio, para, a partir daí, vislumbrar a distância que separa o ídolo do ícone, e a possibilidade de um discurso de louvor que não recai na idolatria conceitual.
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