Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:marion:eros:terceiro
Terceiro
MARION, Jean-Luc. Le phénomène érotique: six méditations. Paris: Librairie générale française, 2003.
DO TERCEIRO, QUE ELE CHEGUE
§ 36. A fidelidade como temporalidade erótica
-
O fenômeno erótico só se prolonga através da fidelidade ao serment comum, que sozinha confere ao fenômeno amoroso a temporalidade capaz de assegurar sua visibilidade duradoura.
-
Amar por um prazo determinado equivale a não ter amado desde o início, pois a fidelidade exige, por definição performativa, a promessa de eternidade.
-
A infidelidade, mais difícil de conceber que a fidelidade, revela-se geralmente como sucessão de fidelidades curtas e sinceras, sempre abortadas pela finitude da carne automática, não pela ausência do serment.
-
A fidelidade assegura também o passado do fenômeno erótico, tornando irrevogável o fato de ter amado ou sido amado, mesmo quando a memória concreta do outro já desapareceu.
-
No presente, como jamais posso confirmar a fidelidade alheia, cabe a mim decidir sobre ela avaliando se outrem se comporta como se me amasse, tornando minha própria fidelidade o índice paradoxal da fidelidade do outro.
§ 37. A última resolução antecipadora
-
Diferentemente da resolução antecipadora ontológica, que apenas antecipa a possibilidade da morte sem nada decidir efetivamente, o amante decide de fato ao se comprometer com outrem através do avanço e do juramento.
-
A antecipação erótica não se limita à possibilidade da impossibilidade (a morte), mas alcança a impossibilidade da própria impossibilidade, pois o amor pode ainda amar além da morte, própria ou alheia.
-
Nem a redução transcendental nem a ontológica conferem verdadeira ipseidade, pois ambas permanecem universalizáveis; só a história concreta de quem amei e de quem me amou define, irredutivelmente, quem sou.
-
Essa ipseidade última só me advém de outrem, pois somente ele confere significação ao meu fenômeno amoroso, de modo que aprendo meu nome próprio não de mim, mas daqueles que amo e que me amam.
§ 38. O advento do terceiro
-
A repetição incessante do juramento sugere confiá-lo a um terceiro capaz de estabilizar sua visibilidade intermitente numa duração própria e contínua — esse terceiro sendo a criança.
-
A criança cumpre essa função não por razão biológica ou social, mas fenomenológica, pois sua distância dos amantes, ao invés de apagar o serment, o reproduz num rosto que lhes é ao mesmo tempo próprio e estranho.
-
Essa passagem visa antes a possibilidade da criança do que sua efetiva posse, pois a criança encarna, em sua carne, um juramento cumprido de uma vez por todas, mesmo que os amantes o rompam depois.
-
A criança advém sempre como acontecimento imprevisível e nunca decidido pela vontade dos pais, marcada por uma facticidade radical que a torna, literalmente, um terceiro que se impõe como uma criança encontrada.
-
O desejo de fazer da criança um juízo final falha, pois ela não permanece estável testemunha: rapidamente passa a testemunhar apenas de si mesma, distanciando-se cada vez mais do juramento que a originou.
§ 39. A criança ou o terceiro de partida
-
A criança falta como terceiro desde o início, pois a carne que os amantes engendram juntos não prolonga suas próprias carnes, mas constitui uma terceira carne que se distingue e se afasta desde a concepção.
-
Esse afastamento consagra ainda a impossibilidade de qualquer reciprocidade entre os amantes, pois o dom recebido pela criança jamais retorna a seus doadores, mas se transmite sempre adiante, a um donatário futuro.
-
Assim que aparece, a carne da criança se torna, como toda carne visível, um simples corpo aos olhos dos amantes, o que confirma a suspensão inevitável de toda carne erotizada, incluindo a do terceiro.
-
A criança só pode ainda testemunhar o serment ao dizer seu próprio nome, que coincide com o dos pais, honrando-os assim ao pronunciar, impropriamente, o nome que os une a todos.
§ 40. O adeus ou o terceiro escatológico
-
Como nenhuma criança pode servir de última instância definitiva, sujeita ela mesma à repetição e à pluralidade, o fenômeno amoroso permanece condenado a buscar, sempre de novo, um novo testemunho provisório.
-
Resta então inverter a situação: amar cada instante seguinte como se fosse a última instância, transformando um momento qualquer numa instância definitiva por antecipação escatológica.
-
Essa antecipação responde a três exigências da razão erótica: saber, em última instância, quem realmente amo; dispor de um tempo sem fim para dizer esse amor; e poder, enfim, justificar retrospectivamente mesmo os amores perdidos.
-
Amar assim exige que o primeiro instante coincida já com o último, abolindo a diferença entre agora e sempre, e esse ímpeto inicial para o definitivo chama-se o adeus, passagem a Deus como testemunha última.
§ 41. Mesmo eu
-
Ao me fazer seu amante, outrem me confere aquilo que eu não posso me dar sozinho — a dignidade de amante — validando assim minha pretensão de amar e me tornando, por isso mesmo, amável.
-
Amável enquanto amante, não me amo diretamente por mim mesmo, mas cesso de me odiar pela mediação de outrem, que me convence, contra minha própria voz interior, de que também eu mereço ser amado.
-
Essa descoberta inverte a direção original da redução: percebo que outrem já me amava antes que eu o amasse, e que meu próprio avanço, longe de ser originário, sempre me esperava e me precedia.
§ 42. O sentido único
-
Ninguém pode sinceramente afirmar que nunca foi nem será amado, pois já deve sua própria vida ao amor alheio que o precedeu, e continua a apelar, mesmo na queixa, à possibilidade futura de ser ouvido.
-
O amor não admite equivocidade: distingue-se claramente do desejo de posse de objetos mundanos, que exclui todo alhures, ao passo que toda relação com outrem, incluindo a amizade, participa do mesmo sentido único da redução erótica.
-
A amizade, embora se detenha antes da croisée des chairs até o gozo, não sai por isso da via erótica, mas antecipadamente escolhe a erotização livre, permanecendo fiel ao mesmo caminho, apenas mais breve.
-
Também a distinção entre eros e ágape se desfaz, pois o amante que goza e possui só o consegue esquecendo-se e abandonando-se primeiro, de modo que ambos os nomes designam, na verdade, um único amor.
-
Deus mesmo ama segundo essa mesma lógica erótica — vaidade, avanço, juramento, rosto, carne, gozo, suspensão, terceiro e adeus —, mas ama infinitamente melhor que nós, precedendo-nos e transcendendo-nos justamente como o melhor amante.
estudos/marion/eros/terceiro.txt · Last modified: by 127.0.0.1
