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Deus sem ser

MARION, Jean-Luc. Dieu sans l’être: hors-texte. Paris: Fayard, 1982.

  • A teologia, mais do que qualquer outra escrita, proporciona um prazer extremo, que consiste na transgressão incessante entre os verba (as palavras) e o Verbo, um movimento que só é possível porque o Verbo encontra nas palavras um corpo, ultrapassando a si mesmo.
  • A escrita teológica é uma atividade que exige que o autor fale a partir de um outro, ou seja, do próprio Verbo, de modo que ele se torna “hipócrita” no sentido de que não fala de si mesmo nem de sua própria autoridade, mas de algo que recebe e que não domina.
  • O discurso teológico é paradoxalmente autêntico porque, ao renunciar a falar de si, o autor se descobre mais profundamente diante da luz divina, conhecendo melhor do que ninguém sua própria indignidade e a verdadeira natureza de sua deficiência.
  • O perigo da teologia reside no fato de que ela exige do autor que fale “acima de seus meios”, arriscando-se a dizer o que não pode garantir, pois é o próprio Cristo, que fala em nome do Pai, quem responde pela verdade do que é dito.
  • O título “Deus sem o ser” não nega a existência de Deus, mas busca problematizar a evidência, comum à metafísica e ao neotomismo, de que Deus, antes de qualquer outra coisa, “tem de ser”, questionando se o ser tem alguma relação privilegiada com a divindade.
  • Para aproximar-se da questão de saber se o ser pode acolher algo de Deus, é necessário primeiro compreender o mecanismo da idolatria, contrastando a ídolo com o ícone, para então avançar em direção ao próprio ser, que atua como uma ídolo.
  • A suspensão do ser, quando este se revela como uma ídolo, abre espaço para duas novas instâncias de acesso a Deus: a vaidade e a caridade, que se opõem e se complementam na experiência humana.
  • A experiência da vaidade, acessada pela melancolia, revela a distância e a vacuidade do mundo dos entes, preparando o terreno para uma compreensão do amor que não depende do ser para se manifestar.
  • Deus, por não pertencer à ordem do ser, nos advém como um dom, e é precisamente por não ter de ser que Ele pode salvar e oferecer o dom, que existe em um ato de abandono e doação anterior a qualquer existência.
  • A caridade ou o amor, como a questão mais alta que se coloca, não se analisa, mas se faz, e a Eucaristia é um modo privilegiado de fazê-lo, pois o Verbo abandona o texto para tomar corpo, realizando um “corpo a corpo” onde o amor se faz carne.
  • O livro que se segue é fruto de um trabalho solitário, mas não isolado, tendo sido escrito a partir de demandas e debates com outros, especialmente com Maurice Clavel, a quem o autor reconhece sua dívida por tê-lo feito enfrentar a “gigantomaquia” entre o ser e a cruz.
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