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estudos:levinas:desejo-do-invisivel-1991
DESEJO DO INVISÍVEL (1991:21-24)
LEVINAS. Totalité et infini. Essai sur l’extériorité, 1961; Poche « biblio », 1971 / Totalidade e Infinito. Lisboa: Edições 70, 1988.
O Outro metafisicamente desejado não é «outro» como o pão que como, como o país em que habito, como a paisagem que contemplo, como, por vezes, eu para mim próprio, este «eu», esse «outro».
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A metafísica nasce e persevera no álibi de que a verdadeira vida estaria ausente apesar de se estar no mundo, orientando-se para o outro lado e para o outro como movimento que parte de um mundo familiar e habitado, uma “nossa casa”, rumo a um fora estrangeiro e a um além.
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“A verdadeira vida está ausente” como formulação inicial do descompasso entre estar-no-mundo e buscar-além.
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Metafísica definida por direção ao “outro lado”, ao “doutro modo” e ao “outro”.
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Movimento descrito como partida do familiar para um fora-de-si estrangeiro.
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O termo desse movimento é nomeado outro em sentido eminente, pois nenhuma viagem ou mudança de ambiente satisfaz o desejo que o visa, já que o Outro metafisicamente desejado não é outro como pão, país, paisagem ou mesmo o eu tomado como outro, porque tais alteridades podem ser incorporadas à identidade do pensante ou do possuidor, enquanto o desejo metafísico tende ao absolutamente outro e escapa à análise habitual que o reduz à necessidade, à carência, à nostalgia e à saudade.
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Outro eminente como alvo irredutível a deslocamentos e variações de experiência.
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Alteridades consumíveis e apropriáveis como assimiláveis à identidade.
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Desejo metafísico orientado ao absolutamente outro como inteiramente diverso.
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Crítica à redução do desejo à necessidade e à figura do ser indigente.
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Nostalgia e saudade como insuficientes para alcançar o verdadeiramente outro.
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O desejo metafísico não busca retorno nem repousa em parentesco prévio, porque deseja uma terra onde não se nasceu, estranha à natureza e inacessível como pátria e destino, de modo que não pode ser satisfeito, ao passo que a linguagem corrente fala levianamente em desejos satisfeitos e entende o amor como satisfação de fome sublime, sendo tal possibilidade de falar assim efeito de desejos impuros e de um amor também impuro, enquanto os desejos satisfazíveis apenas se assemelham ao desejo metafísico pelas decepções da satisfação e pela exasperação da não-satisfação, e o desejo metafísico deseja para além de tudo o que o completaria, como bondade cujo Desejado não cumula, mas abre apetite.
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Terra desejada como lugar sem nascimento, sem pátria e sem chegada.
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Ausência de parentesco prévio como traço constitutivo do desejo metafísico.
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Crítica à noção de amor como satisfação e à noção de desejos plenamente puros.
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Decepção da satisfação e exasperação do desejo como semelhanças meramente negativas.
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Bondade como analogia: o Desejado abre apetite em vez de completar.
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A relação do desejo com o Desejado configura generosidade e bondade como positividade que não suprime a distância, mas se alimenta do afastamento e da separação, sendo o afastamento radical quando o desejo não antecipa o desejável nem o pensa previamente e se dirige ao acaso para uma alteridade absoluta como encontro com a morte, de tal modo que o desejo é absoluto quando o ser desejante é mortal e o Desejado é invisível, e a invisibilidade implica relações com o não dado e sem ideia, enquanto a visão é adequação que compreende englobando, e a inadequação do desejo indica a desmedida do Desejo fora do regime do conhecimento, de modo que o Desejo sem satisfação entende afastamento, alteridade e exterioridade, reconhece a alteridade como alteridade de Outrem e do Altíssimo, abre a dimensão da altura pelo desejo metafísico, eleva a altura ao identificá-la com o Invisível, define a metafísica como morrer pelo invisível sem dispensar actos, mas com actos que não são consumo, carícia nem liturgia, como formula Platão em República 529 b.
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Generosidade e bondade como relação que preserva distância e separação.
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Afastamento radical como ausência de antecipação e de pré-compreensão do desejável.
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Morte como figura do encontro com alteridade absoluta não antecipável.
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Desejo absoluto como correlação entre mortalidade do desejante e invisibilidade do Desejado.
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Invisibilidade como relação com o não dado e sem ideia, não como ausência de relação.
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Visão como adequação e compreensão englobante.
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Inadequação como desmedida do Desejo fora do conhecimento mensurador.
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Desejo sem satisfação como reconhecimento da exterioridade do Outro.
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Outrem e Altíssimo como sentidos da alteridade para o Desejo.
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Altura aberta pelo desejo metafísico e nobilitada como Invisível.
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Platão, República, 529 b como referência ao olhar da alma para o alto e ao invisível.
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Actos requeridos como não redutíveis a consumo, carícia ou liturgia.
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A aspiração ao invisível aparece como loucura diante de uma experiência pungente do século XX em que necessidades conduzem pensamentos e explicam sociedade e história e em que fome e medo vencem resistência e liberdade, sem que isso autorize duvidar da miséria humana nem do domínio das coisas, dos maus e da animalidade, pois ser homem consiste em saber que é assim, e a liberdade consiste em saber que a liberdade está em perigo, sendo essa consciência um ter tempo para evitar a inumanidade como adiamento perpétuo da hora da traição, diferença ínfima entre homem e não-homem que supõe o desinteresse da bondade, o desejo do absolutamente Outro, a nobreza e a dimensão da metafísica.
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Século XX como cenário em que necessidades orientam pensamento e explicam sociedade e história.
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Fome e medo como forças capazes de vencer resistência humana e liberdade.
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Miséria humana e animalidade como dados reconhecidos.
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Ser homem como saber da própria vulnerabilidade ao domínio das coisas e dos maus.
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Liberdade como saber do perigo que ameaça a liberdade.
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Consciência como tempo para evitar e prevenir a inumanidade.
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Adiamento da traição como diferença mínima entre homem e não-homem.
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Desinteresse da bondade e desejo do absolutamente Outro como condição dessa diferença.
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Nobreza e metafísica como dimensão implicada nesse adiamento.
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