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Ladrière

Jean Ladrière (1921-2007)

A ideia que anima a filosofia é a de uma intenção cognitiva que se pretende radical, orientada para um saber ao mesmo tempo da totalidade enquanto tal e da individualidade enquanto tal. Caminhar nessas duas direções contraditórias, interligando-as, tal é a ambição da filosofia (Ladrière 1978, 54 ss). Para fazê-lo, ela recorre à ideia de fundamento. A filosofia é para Husserl a ciência ao arché absoluto: ela é verdadeira arqueologia. Assim, do ponto de vista do fundamento, “é tornar-se testemunho da constituição do todo, ver a realidade, em sua integralidade, desdobrar-se em todas as suas articulações e ao longo de suas dimensões” (Ladrière 1978, 55).

A ciência, de sua parte, com seu discurso objetivo, visa sempre a um domínio particular mas atinge apenas generalidades. “Ela se afasta, pois, ao mesmo tempo, da totalidade e da singularidade, a fim de se estabelecer na zona intermediária da generalidade abstrata” (Lan-drière 1978, 56). E mais, a ciência visa a e se constitui sobre uma realidade já dada de antemão que já está sempre aí. As proposições da ciência têm um sentido na medida mesma em que apontam essa realidade.

Como ciência do fundamento, a filosofia é limitada, pois é apenas ciência do fundamento (Ladrière 1978, 60). Dessa maneira, “ela se dá o privilégio de contemplar a gênese do mundo, mas tem de pagar por esse privilégio com sua incapacidade de conhecer o mundo em seu conteúdo concreto. Ela se aplica à constituição enquanto tal, à origem enquanto tal, não aos resultados da constituição, àquilo que vem depois da origem” (id., p. 60). A ciência, por sua vez, “como não se coloca na origem das coisas, é capaz de compreender sua estrutura e perscrutar-lhe a intimidade”. Ela (a ciência), afirma Ladrière (id., ibid.) ,conhece o mundo em seu efetuar-se, conhece o resultado da gênese. E é isso que explica a eficácia da ciência e sua fecundidade.

Apresentando-se como conhecimento da profundeza, a filosofia é, no entanto, estéril de conteúdo; a ciência como conhecimento de conteúdo é carente de profundidade.

Dialetizar as duas ordens de discurso significa simbolizá-los mutuamente: simbolização que é, segundo Ladrière, um vestígio da unidade no seio e apesar da dualidade. “A ciência e a filosofia, partes integrais que são do discurso da razão e do saber racional, simbolizam tão somente um outro saber, que não será mais chamado de logos mas de sabedoria” (Ladrière 1978, 61). [Newton Aquiles von Zuben]


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