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estudos:kockelmans:1984:7

7 Linguagem

KOCKELMANS, Joseph. On the Truth of Being: Reflections on Heidegger’s Later Philosophy. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

Sobre a essência da linguagem

Artigo I — Reflexões introdutórias

  • A relação entre ser e linguagem emerge da investigação da lógica, das categorias e da significação: a pergunta deixa de se limitar às condições formais do juízo verdadeiro e passa a alcançar o modo como os entes podem aparecer e adquirir sentido em uma abertura histórica.
  • A gramática especulativa inicialmente oferece um caminho para relacionar formas linguísticas e formas de significação, mas sua dependência de distinções metafísicas, como substância e acidente, impede que a essência da linguagem seja pensada a partir de si mesma.
  • A verdade de uma interpelação histórica não pode ser reduzida à presença permanente de um objeto examinável pela lógica tradicional; o ser se dá temporalmente, dirige uma reivindicação ao ser humano e se retrai no próprio acontecimento de sua manifestação.
  • Em «Ser e tempo», a compreensão (Verstehen), a disposição (Befindlichkeit) e o discurso (Rede) constituem dimensões originárias da abertura do ser-aí (Dasein); o discurso articula a inteligibilidade do ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), enquanto a interpretação (Auslegung) explicita o compreendido e o enunciado (Aussage) representa uma possibilidade derivada dessa articulação.
  • As palavras não recebem posteriormente significados acrescentados a coisas sonoras já prontas: o discurso torna articulável uma totalidade de sentido que pode ganhar expressão em significações determinadas, e a linguagem falada constitui o modo como essa articulação se encontra no mundo.
  • Permanece, contudo, uma dificuldade quando a inteligibilidade parece anteceder toda linguagem e, simultaneamente, só poder constituir-se na palavra; o deslocamento posterior consiste em reconhecer que o falar humano responde a um dizer mais originário, em vez de tomar a linguagem apenas como expressão disponível ao ser-aí.

Artigo II — De «Ser e tempo» a «A caminho da linguagem»

  • O discurso (Rede) inicialmente designa a articulação existencial pela qual o ser-aí pode exprimir o que compreende, mas o sentido originário de logos como deixar aparecer exige perguntar pelo acontecimento anterior que reúne os entes e lhes permite mostrar-se em seu ser.
  • Nomear não equivale a fixar arbitrariamente uma etiqueta sobre algo já plenamente descoberto: no dizer originário, o ente é trazido à abertura e preservado nela, de modo que a palavra participa da manifestação daquilo que nomeia.
  • A primazia do dizer do ser implica que o falar autêntico depende de escuta; o ser humano encontra-se sempre em uma linguagem que já lhe oferece possibilidades de sentido, embora o encobrimento inerente às palavras também possa conduzir sua fala às significações correntes e ao esquecimento do não dito.
  • Em logos e legein, o dizer se vincula ao deixar jazer diante de nós aquilo que se apresenta, reunindo-o no desvelamento; a fala humana corresponde a esse reunir quando deixa os entes aparecerem, em vez de submetê-los antecipadamente a uma representação.
  • A linguagem como casa do ser designa o âmbito no qual a manifestação do ser pode chegar à palavra e conservar-se historicamente; pensamento e poesia acolhem essa possibilidade ao dar voz ao que se anuncia sem que a iniciativa humana produza por si só o acontecimento.
  • O dizer da linguagem convoca coisas e mundo em sua pertença recíproca: as coisas reúnem céu e terra, divinos e mortais na quadratura (das Geviert), enquanto o mundo concede às coisas o âmbito em que podem aparecer como coisas.
  • A diferença (Unter-Schied) mantém mundo e coisas distintos na mesma proximidade que os reúne; ela não resulta de uma comparação entre dois objetos prontos, pois abre o entre no qual o mundo concede as coisas e as coisas sustentam o mundo.
  • O apelo da diferença solicita a fala dos mortais sem ter nela sua origem exclusiva: a resposta humana requer escuta e reserva, pois somente ao corresponder ao dizer originário pode dar voz à diferença entre ser e entes.
  • O dizer originário de uma época excede os enunciados explícitos e atravessa os modos de lidar com as coisas, a convivência, a ciência, a técnica, a arte e a religião; nessas práticas historicamente articuladas, uma totalidade de sentido se mostra e se encobre.

Artigo III — A essência da linguagem: a linguagem do ser

  • Fazer uma experiência com a linguagem significa deixar-se alcançar e transformar por ela, e não apenas reunir conhecimentos sobre seu funcionamento; a dificuldade de encontrar a palavra apropriada torna perceptível, ainda que por um instante, a dependência da fala humana em relação ao que a linguagem concede ou retém.
  • A experiência poética da palavra mostra que a coisa não chega à sua presença própria quando lhe falta a palavra capaz de nomeá-la; isso não reduz a palavra a um sinal nem atribui ao poeta a fabricação dos entes, mas indica que o aparecer da coisa e sua possibilidade de ser dita se pertencem.
  • Pensamento e poesia percorrem caminhos diferentes na vizinhança do mesmo dizer: a poesia acolhe e configura a experiência da palavra, enquanto o pensamento procura compreender a relação entre palavra e ser sem transformar essa vizinhança em identidade de tarefas.
  • Perguntar pela essência da linguagem já pressupõe uma abertura concedida pela própria linguagem; por isso, a escuta daquilo que interpela precede a pretensão de fixar sua essência em uma definição.
  • O caminho do pensamento não segue o modelo de um método que determina previamente seu objeto; ele retorna ao âmbito em que pensamento e linguagem já se encontram, permitindo que aquilo que se mostra e aquilo que se resguarda orientem seus passos.
  • A palavra que deixa a coisa aparecer não pode ser inteiramente apreendida como mais uma coisa entre as coisas, embora suas formas escritas e sonoras possam ser examinadas; o enigma do «dá-se a palavra» (Es gibt das Wort) aponta para a doação pela qual também se torna possível dizer que algo é.
  • O dizer (Sagen) é mostrar, fazer aparecer e oferecer mundo em um movimento que desvela e encobre; por isso, a essência da linguagem ultrapassa a descrição de sons e signos, ainda que essas descrições conservem validade em seu próprio âmbito.
  • A proximidade (Nähe) que reúne as regiões do mundo não se mede pela redução de distâncias físicas: ela permite que céu e terra, divinos e mortais se encontrem frente a frente e permaneçam distintos em sua pertença à quadratura (das Geviert).
  • O tempo originário reúne o que foi, o presente e o que vem ao encontro, enquanto o espaço abre lugares e acolhe esse encontro; seu jogo comum constitui o âmbito de tempo e espaço (Zeit-Spiel-Raum) no qual as regiões do mundo podem aproximar-se sem perder sua distância.
  • A linguagem, compreendida como dizer que abre caminhos para essa proximidade, sustenta as relações da quadratura (das Geviert) e se resguarda nelas; os mortais só podem falar propriamente porque pertencem a esse âmbito e respondem ao dizer que lhes concede a possibilidade de pronunciar «é».
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