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TEMPORALIDADE DO CUIDAR CIRCUNSPECTIVO
KING, Magda; LLEWELYN, John. A guide to Heidegger’s Being and time. New York, NY: State Univ. of New York Press, 2001.
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A ocupação prática como modo primário do cuidado cotidiano com as coisas
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A ocupação prática com utensílios é apresentada como o modo originário pelo qual a existência cotidiana cuida das coisas, isto é, lida com elas, conta com elas e as toma em consideração no curso do viver.
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Mesmo uma existência resolutamente apropriada permanece necessariamente implicada na aquisição, produção, modificação e uso das coisas de que depende para poder existir, de modo que a autenticidade não elimina, mas reinscreve, a relação prática com o mundo.
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A proximidade concreta do Da-sein em relação às coisas faz emergir a questão filosófica decisiva do vínculo entre o ser-no-mundo cuidador e os entes que estão à mão no mundo, pois essa ligação não pode ser reduzida nem a causalidade a partir das coisas nem a dedução da presença corporal a partir do cuidar.
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A relação entre cuidado e coisas não é de coexistência externa, mas de implicação essencial, exigindo determinação do nexo ontológico que faz com que ambos se pertençam sem que um seja produzido pelo outro.
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Determinação fenomenológica do caráter dos utensílios e fixação do ser-intramundano das coisas
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Para determinar o nexo entre cuidado e coisas, o primeiro passo consiste em elucidar o caráter fenomenal das coisas com as quais se está ocupado, isto é, os meios pelos quais fins práticos são buscados.
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O traço decisivo da análise fenomenológica dos utensílios não é simplesmente privilegiar coisas úteis em contraste com substâncias indiferentes, mas fixar desde o início o caráter intramundano das coisas, isto é, a pertença essencial de cada utensílio a um mundo.
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Nas lidas diárias, o caráter de mundo das coisas não é tematizado, mas é compreendido implicitamente, de tal modo que o mundo de trabalho já se encontra previamente desvelado mesmo quando se procura um instrumento perdido.
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A impossibilidade de um utensílio isolado é afirmada como tese estrutural, pois um martelo só pode mostrar-se como o que é dentro de um todo utensiliar que pertence ao mundo de trabalho de um construtor ou carpinteiro.
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Estrutura de remissões e constituição do ser-do-utensílio como ser-referido
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O martelo é apresentado como previamente referido ao martelar, o martelar ao fixar, o fixar ao colocar um telhado, e assim por diante, de modo que o utensílio é constituído por uma rede de remissões que o ultrapassa.
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O ser do utensílio é determinado como ser-referido a algo para além de si, de modo que sua identidade não se dá por propriedades subsistentes, mas pela posição funcional na totalidade de remissões.
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O nome dado à estrutura pela qual os utensílios se mostram em seu estar-à-mão é indicado como Bewandtnis mit… bei, isto é, relevância de algo para algo, ou relevância em determinada ocasião, como a relevância do martelo para martelar.
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O ser do utensílio é dito residir em ser destinado a um propósito, e o propósito é descrito como a tarefa específica a ser realizada, como a casa a ser construída, que unifica e sustenta o complexo inteiro de remissões.
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O termo da estrutura de remissões e o for the sake of do Da-sein
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A tarefa realizada, como a casa, ainda conserva caráter utensiliar ao ser relevante para morar, de modo que um produto concluído permanece inserido na rede de utilidade.
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Com a destinação da casa ao abrigo de uma existência fática, a estrutura de remissões encontra seu termo, pois o Da-sein não pode referir-se a algo além de si como meio para um fim.
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A análise temporal esclarece que o Da-sein é constituído pelo vir-a-si em sua possibilidade extrema e intransponível, e por isso não é integrável como instrumento num esquema de finalidade que o ultrapasse.
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Em virtude de sua própria estrutura temporal, o ser-aí é afirmado como seu próprio fim, e o conjunto de remissões mundanas passa a depender do for the sake of da própria possibilidade de ser-aqui.
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A significação originária do for the sake of e a constituição ontológica do mundo cotidiano
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A partir do para-o-bem-de sua própria possibilidade de ser-aqui previamente desvelada, um Da-sein fático significa a si mesmo como pode ser em relação a outros entes, isto é, como pode referir-se a eles e como eles podem ter incidência sobre sua própria possibilidade de existir.
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O complexo inteiro de remissões previamente desvelado, expresso como de para em para, constitui a estrutura ontológica do mundo cotidiano, fazendo possível que as coisas intramundanas se manifestem como relevantes para tarefas e, sob outra formulação equivalente, como destinadas a propósitos.
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O cuidar junto às coisas deixa-as ser relevantes, e essa permissão de relevância é tratada como constituinte essencial do ser do Da-sein enquanto cuidado.
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A unidade do cuidado é declarada fundada na temporalidade, e por isso a pergunta decisiva se dirige ao modo específico de temporalidade que torna possível uma ocupação cuidadora prática com coisas.
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A estrutura temporal fundamental do deixar-ser-relevante: aguardar, reter e fazer-presente
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O deixar-ser-relevante é situado no gesto mais simples do manuseio de algo útil, no qual a coisa é usável ou está em uso por estar inserida num contexto intencional de relevância.
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A compreensão da intenção e do contexto de relevância é determinada como possuidora de estrutura temporal de aguardar, porque o cuidar se orienta para o para-que e para o encadeamento de remissões que sustentam o uso.
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Ao aguardar a intenção, o cuidar pode simultaneamente retornar a algo como relevância, e esse retorno não é lembrança temática, mas inscrição do manuseio num horizonte já reconhecido.
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A unidade extática entre aguardar o contexto e reter os meios da relevância torna possível o modo especificamente manual pelo qual a coisa útil é feita presente no trato prático.
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Condição de possibilidade da ocupação prática como unidade extática de aguardar-reter-fazer-presente
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A unidade extática de um fazer-presente que aguarda e retém é afirmada como condição de possibilidade de um ter-a-ver prático com coisas.
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A retenção, já mencionada no contexto da compreensão inautêntica, é agora especificada como voltada a entes intramundanos que não têm caráter de ser-aí, e por isso ela opera como retenção de utensílios e de nexos de uso.
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Essa retenção cotidiana é fundada num esquecimento do si mesmo lançado, e esse esquecimento abre o horizonte de um antes no qual o ser-aí autoesquecido pode lembrar, isto é, reter, os utensílios relevantes.
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A retenção e o aguardar não aparecem como fixação explícita de um todo utensiliar nem como contemplação teórica do fim, pois o essencial é que o fazer-presente, brotando dessa unidade, torna possível a absorção característica do cuidar no mundo das coisas úteis.
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Familiaridade dos nexos implícitos e possibilidade de interrupção do fluxo circunspectivo
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O fazer-presente que aguarda e retém unifica as remissões implicitamente compreendidas dentro das quais o cuidado cotidiano se move circunspectivamente sem apreensão teórica explícita.
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O movimento fluente e evidente dentro dessas remissões familiares pode ser interrompido, e é justamente nessas rupturas que o mundo utensiliar como um todo pode vir à vista.
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Nas ocasiões de quebra do fluxo, os utensílios até então inconspícuos podem prender a atenção ao se mostrarem no modo estranho de meras substâncias, isto é, como simplesmente presentes, desvinculados do para-que que os sustentava.
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A análise prepara, assim, a transição para a explicitação das condições ontológico-temporais que tornam possível esse prender-se da atenção por aquilo que falha, falta, surpreende ou resiste.
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A inutilizabilidade e a crítica à teoria da associação como explicação das lidas com coisas
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A possibilidade de que algo inutilizável, como um instrumento danificado, prenda a atenção é tomada como problema ontológico-temporal, não como mera sucessão psicológica de impressões.
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A teoria da associação é julgada inadequada porque considera apenas a ligação entre experiências passadas e presentes e porque, sendo psicológica, carece de fundamento ontológico apropriado.
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Mesmo numa experiência simples, como notar um instrumento danificado, já está implicada a totalidade da temporalidade, pois o fazer-presente que aguarda e retém é interrompido e sustentado pelo que, após inspeção, se mostra como dano.
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O fazer-presente torna-se explícito ao ser detido pela inaptidão do instrumento para a tarefa, e assim o para-que previamente aguardado e o instrumento atualmente manipulado emergem do implícito para o explícito.
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O ser detido do fazer-presente e a gênese da inspeção e da remoção de perturbações
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O fazer-presente pode encontrar algo impróprio para uma tarefa porque já se move num aguardar que retém o que está em relevância, de modo que a interrupção não é acidente externo, mas possibilidade inscrita no horizonte circunspectivo.
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Ser detido significa que, na unidade do aguardar que retém, o fazer-presente se desloca mais para si mesmo e constitui a inspeção, a verificação e a eliminação da perturbação.
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A interrupção revela que o encontro com o instrumento inutilizável depende da unidade extática do fazer-presente que aguarda e retém, e não poderia ser explicado como mero encadeamento de vivências em tempo intramundano.
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O argumento conclui que deixar coisas serem em relevância como tais tem de estar fundado nessa unidade extática, pois sem ela o próprio fenômeno do encontro circunspectivo com a falha seria ontologicamente impossível.
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A falta do utensílio e o não-fazer-presente como modo deficiente do presente
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O fluxo do ter-a-ver prático pode ser interrompido não apenas pela inutilizabilidade, mas também pela constatação de que algo aguardado não está à mão, de modo que a falta se torna experiência positiva.
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O faltar não é mera ausência de fazer-presente, mas um não-fazer-presente como modo deficiente do presente, entendido como não-fazer-presente de algo esperado ou sempre já disponível.
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Embora deficiente, esse modo é dito positivo, porque ele conserva estrutura temporal própria e não pode ser reduzido a simples nada.
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A falta permanece em unidade extática com o aguardar, pois não se pode faltar algo senão já aguardando-o, o que torna a deficiência um modo derivado, mas real, da estrutura futural do cuidado.
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A surpresa e o não-aguardar como modo deficiente do futuro
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A surpresa é descrita como fenômeno que só pode ocorrer mediante algo não aguardado, mas esse não-aguardar não é pensado como ausência pura de aguardar.
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O não-aguardar é dito um modo positivo, embora deficiente, do aguardar, pois de outro modo seria inexplicável que ele pudesse desvelar um âmbito horizonal no qual a surpresa pode sobrevir ao ser-aí.
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A indicação de um âmbito horizonal exige que o não-aguardar seja compreendido como ek-stasis temporal, isto é, como modificação da temporalização e não como simples lacuna.
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O não-aguardar se insere na dinâmica da queda, pois o aumento do ímpeto da queda contrai o ser-aí em um fazer-presente que busca desenraizar-se do sustento e da orientação de um aguardar genuíno.
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Obstáculos insuperáveis e o lidar com a resistência como modificação temporal do cuidado
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Uma interrupção decisiva do cuidar circunspectivo ocorre ao topar com coisas que não podem ser produzidas, obtidas, evitadas ou eliminadas, aparecendo como obstáculos insuperáveis.
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O lidar com tais obstáculos é descrito como suportar e acomodar-se, e esse acomodar-se não é mera aquiescência negativa ou indiferença, mas modo específico de descobrimento do inoportuno, do impeditivo, do perturbador e do ameaçador.
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Esses entes são, em geral, encontrados no modo da resistência, que se impõe à ocupação e evidencia limites do domínio técnico e prático.
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A estrutura temporal desse aceitar é descrita como uma não-retenção que aguarda e faz-presente, na qual não se conta com o impróprio como algo esperado, mas ele é tomado em consideração enquanto algo com o qual não se pode contar.
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O não-contar-com e a retenção da impropriedade na disponibilidade cotidiana
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O não-contar-com é caracterizado como modo de levar em conta o que não se pode segurar, sem que isso signifique esquecê-lo completamente.
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A coisa resistente não é esquecida, mas é retida de tal modo que permanece à mão precisamente em sua inadequação, integrando o conteúdo cotidiano do mundo circundante facticamente desvelado.
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A modificação temporal não produz um novo mundo, mas altera o modo de presentificação e de previsão com que o cuidado lida com o que impede e ameaça.
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A análise completa, assim, o espectro de modificações de um fazer-presente que aguarda e retém, mostrando que a resistência é acessível apenas sobre esse fundamento temporal.
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Esclarecimento do alcance e do limite da resistência para a descoberta da realidade
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A importância do caráter resistente das coisas para a descoberta de sua realidade é admitida, mas a explicação que o toma como fonte primária da realidade é julgada insuficiente.
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A insuficiência decorre de que a resistência é apenas um entre vários caracteres do real e, além disso, caracteriza entes intramundanos, sem explicar o fenômeno do mundo enquanto tal.
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O que se torna decisivo é que a descoberta da resistência exige condições existencial-temporais prévias, sem as quais o encontro com o resistente não poderia ocorrer como encontro significativo.
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Uma vez desveladas essas condições, a experiência de resistência pode ser plenamente reconhecida como evidência da exposição e dependência de uma existência fática diante de um mundo de coisas que jamais pode ser totalmente dominado.
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Síntese conclusiva: estrutura temporal fundamental e suas modificações
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A estrutura temporal do deixar-coisas-serem-relevantes é estabelecida como fazer-presente que aguarda e retém, e nela se funda a familiaridade do mundo mais próximo, pela qual até um mundo estranho não é totalmente estranho, permitindo orientação mínima.
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A primeira modificação é descrita como um fazer-presente que aguarda e retém, mas é detido, como quando a absorção é suspensa por um instrumento danificado que interrompe o fluxo e força inspeção e correção.
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A segunda modificação é descrita como um aguardar e reter que se realiza como não-fazer-presente, no fenômeno de faltar algo esperado, em que a deficiência do presente permanece positivamente estruturada pelo aguardar.
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A terceira modificação é descrita como um não-aguardar que retém e faz-presente, no fenômeno da surpresa, em que a deficiência do futuro abre o âmbito horizonal no qual algo pode sobrevir ao ser-aí.
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A quarta modificação é descrita como um aguardar com não-retenção que faz-presente, no fenômeno de resistência de coisas impróprias e insuperáveis, em que não-contar-com e retenção da impropriedade estruturam o encontro com o impeditivo.
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Nas duas modificações relativas a faltar e surpreender, é indicado que as formulações completas não são apresentadas explicitamente, mas são sustentadas pelo conjunto das determinações oferecidas, preservando a exigência de unidade extática em cada caso.
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