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Filosofia de marx e dogmatismo marxista

Marx. vol. I. Una filosofía de la realidad. - 1a ed. - Buenos Aires : Ediciones La Cebra, 2011. / Marx. vol. II. Una filosofía de la economía. - 1a ed. - Buenos Aires : Ediciones La Cebra, 2018.

1. A publicação em 1932 dos textos filosóficos de Marx, sobretudo A ideologia alemã, revela a teoria da história e das formas sociais e as premissas de uma teoria transcendental da economia, tornando ao mesmo tempo imperceptível e inegável, sob a luz dos postulados do materialismo dialético, que esse conteúdo nada tinha a ver com o marxismo já constituído.

  • O achado do manuscrito por Riazanov nos arquivos do partido social-democrata alemão preenche a lacuna entre os escritos de juventude, marcados pelo humanismo feuerbachiano, e a obra da maturidade, abrindo caminho a uma leitura filosófica interna ao movimento do pensamento de Marx.
  • Riazanov, apesar de perceber a importância do achado, permanece incapaz de compreender o manuscrito, reduzindo-o à confirmação do resumo de Engels em Ludwig Feuerbach e o fim da filosofia clássica alemã e ao desmantelamento do pensamento filosófico de Marx numa dialética formal aplicada às ciências positivas.

2. A ideologia marxista, ainda que admitisse em Riazanov o conteúdo aparente dos textos filosóficos, logo revela a irredutibilidade desse conteúdo, dando início a uma história de ocultamento do pensamento filosófico de Marx pelo marxismo.

  • Goldmann explica a tardia publicação de A ideologia alemã pelo desinteresse de Engels e classifica a obra como de interesse apenas biográfico, desprovida de verdades teóricas e científicas, e considera a polêmica com Stirner — mais da metade do texto — desproporcional e hoje ultrapassada.
  • O desconhecimento do papel decisivo dessa polêmica, que funda o abandono do materialismo feuerbachiano e a definição do indivíduo real contra o conceito ideológico de indivíduo, evidencia o véu ideológico lançado pelo marxismo sobre os textos fundamentais de Marx e a tentativa de minimizá-los ou desqualificá-los.

3. O projeto de Althusser consiste na eliminação do pensamento filosófico de Marx em favor das teses dogmáticas do materialismo dialético constituídas à margem desse pensamento, tratando os escritos filosóficos como pura artificialidade histórica explicável apenas pelos postulados do materialismo histórico.

  • Os escritos filosóficos são reduzidos a produtos de juventude de “um jovem burguês alemão”, excluída categoricamente sua capacidade de explicar ou gerar a obra posterior.
  • O corte entre o esclarecedor e o esclarecido separa radicalmente os conceitos ideológicos, inutilizáveis em si mesmos, dos conceitos científicos da teoria marxista, restando aos Manuscritos de 44 servir de objeto exemplar à aplicação do método marxista.

4. Entre o sentido imanente dos manuscritos filosóficos e o sentido verdadeiro que lhes confere a teoria marxista abre-se um corte equivalente a dois discursos distintos, um falso e outro verdadeiro, de modo que a evolução do pensamento de Marx — do rechaço conjunto a Hegel e Feuerbach, ao idealismo e ao materialismo — não pode ser julgada pela consciência que o próprio Marx tinha desse percurso, mas deve ser submetida ao critério de um pensamento estranho a ela.

  • A afirmação de Marx sobre a “liquidação de nossa consciência de outrora” em A ideologia alemã não basta como prova do corte epistemológico, exigindo-se antes uma teoria e um método marxistas aplicados ao próprio Marx para pensar a realidade das formações teóricas em geral, ideologia filosófica e ciência.
  • Toda a obra de Marx deve ser submetida a essa mesma operação, pressupondo uma teoria marxista da natureza diferencial das formações teóricas e de sua história — isto é, uma teoria da história epistemológica que é a própria filosofia marxista, condição prévia e ao mesmo tempo produto da inteligibilidade de Marx.
  • A prescrição metodológica dessa leitura crítica resume-se em voltar a Lênin e, por ele, a Marx, de modo que a pretensa releitura apenas repete o que o marxismo sempre fez, medindo um pensamento de gênio pelo crivo de um catecismo elementar.
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