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Fenomenologia do Corpo

HENRY, Michel. Filosofia e fenomenologia do Corpo. Tr. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: É Realizações, 2012

Advertência à segunda edição francesa

Introdução – A contingência aparente da questão concernente ao corpo e a necessidade de uma análise ontológica do corpo

  • 1. Os pressupostos filosóficos da análise biraniana do corpo
  • 2. O corpo subjetivo
  • 3. O movimento e o sentir
  • 4. O duplo emprego dos signos e o problema da constituição do corpo propriamente dito
  • 5. O dualismo cartesiano
  • 6. Crítica ao pensamento de Maine de Biran: o problema da passividade

Conclusão – A teoria ontológica do corpo e o problema da encarnação: a carne e o espírito


  • Interroga-se se a intervenção de uma problemática do corpo em pesquisas ontológicas voltadas ao ego deve parecer especificação contingente e desvio de seu verdadeiro fim, tendo até então a elucidação do ser do ego prosseguido no plano da subjetividade absoluta
  • Pergunta-se se o corpo, dado como ser transcendente habitante do mundo, exigiria mudança radical da reflexão filosófica, voltando-a para o mundo em lugar da subjetividade, e por que privilegiá-lo entre tantos elementos transcendentes
  • Tenta-se fundar a contingência da questão na contingência de seu objeto, perguntando-se se ter um corpo é fato contingente por excelência ou se, ao contrário, essa relação constitui estrutura enraizada na natureza humana e capaz de defini-la, exemplificando-se com o pudor, em que a presença a si do espírito significa consciência aumentada e dolorosa do corpo
  • Sendo esse vínculo dialético, partindo-se da análise da consciência somos levados a interrogar o ser do corpo, não se constituindo a natureza das coisas por realidades autônomas mas por estruturas dialéticas, sendo o homem uma delas
  • Aponta-se, com Kierkegaard, essa questão que relaciona espírito e corpo como paradoxo fundamental, desempenhando papel de fundamento, não sendo o trágico, o cômico, o exibicionismo ou a timidez sentimentos que ocorrem à natureza humana sem explicação a partir dela, devendo a realidade humana ser determinada pelas exigências implicadas nesses sentimentos
  • Sendo o ser encarnado do homem, e não a pura subjetividade, o fato originário, a pesquisa deve necessariamente sair da esfera da subjetividade para elaborar uma problemática do corpo, não mais contingente mas exigida pela própria natureza das coisas, invertendo-se então o sentido da contingência, que passa a constituir-nos primordialmente
  • Interpretando-se essa contingência constitutiva da relação entre consciência e corpo, ela só pode significar que, em relação à esfera da subjetividade, a região ontológica em que aparece o corpo é realidade heterogênea, não se encontrando nenhum corpo enquanto a pesquisa se move exclusivamente na subjetividade, sendo necessária uma “passagem” para fora dela
  • Fora da esfera da subjetividade está o ser transcendente, distinguindo-se nele diversas regiões ontológicas, questionando-se se nosso corpo, sendo corpo vivo, poderia recobrir-se com o corpo-extensão cartesiano, composto de partes extra partes
  • Observa-se que, apesar de suas bases fenomenológicas, a biologia é ciência cujo saber, indefinidamente progressivo, não se confunde com nossa experiência imediata, de modo que só um homem futuro ao fim do desenvolvimento científico saberia verdadeiramente o que é esse corpo, não se vendo que conhecimento um primitivo teria dele
  • O corpo da biologia é objeto cultural, essencialmente histórico tanto em sua aparição quanto em suas modificações, observando-se em nota que o homem não é essencialmente ser histórico, permanecendo idêntico a si mesmo em seu fundo ontológico, sendo históricos apenas os objetos culturais e as atitudes a eles relativas, como hábitos de alimentação ou vestuário, não o corpo originário
  • Não é nessa relação com o corpo biológico que se busca o primeiro saber sobre o corpo, nem se leem obras de biologia para aprender a caminhar ou saltar, sendo a ciência inoperante em relação a esse saber primordial que ela pressupõe sem poder explicá-lo, fornecendo antes o horizonte ontológico de onde a biologia extrai seus problemas
  • Especifica-se o sentido da redução fenomenológica em curso: nosso corpo, corpo vivo, não pode ser compreendido como realidade biológica nem, na experiência ingênua, apenas como estrutura transcendente ao lado de objetos inertes e ferramentas
  • Distingue-se, entre os corpos vivos, o corpo animal do corpo humano, cujas propriedades particulares dão a impressão de nova estrutura, distinguindo-se assim três termos: o corpo como entidade biológica, o corpo como ser vivo na experiência natural, e o corpo humano como nova estrutura irredutível a todo corpo vivo
  • Reconhece-se a dificuldade de conceber as relações entre esses três termos, oscilando corpo biológico e corpo vivo entre termo fundante e fundado conforme o ponto de vista, e remetendo o estudo da relação entre corpo vivo e corpo humano a uma fenomenologia comparada entre percepção animal e percepção de outrem
  • Declara-se que essas distinções não importam ao problema ontológico fundamental, pois em qualquer caso lidar-se-ia apenas com especificações do ser transcendente em geral, permanecendo assim a problemática do corpo contingente em relação ao projeto de ontologia fundamental
  • Pergunta-se então se não teria chegado o momento de reconhecer que a filosofia primeira não pode se identificar com a mera análise da subjetividade, pois um homem “puro”, sujeito descarnado como o espectador kantiano dos Paralogismos, não teria razão de se interrogar sobre um corpo do qual estaria desprovido
  • Mas sendo o homem sujeito encarnado, cujo conhecimento se situa no universo a partir de perspectivas orientadas por seu corpo, este deveria constituir tema de pesquisa que tome por objeto o homem real, não mais o homem abstrato do idealismo
  • Elencam-se três alternativas: ou não é necessário levar o corpo em conta na definição do homem, prosseguindo-se o estudo do ego subjetivo; ou trata-se apenas de ponto de vista abstrato, devendo a filosofia da subjetividade ceder lugar a um existencialismo partindo de fenômenos como “situação” e “encarnação”; ou o fenômeno do corpo não escapa às garras de uma ontologia fenomenológica fundada na subjetividade, pertencendo o corpo, em sua natureza originária, à própria esfera da subjetividade
  • Optando-se pela terceira via, afirma-se que nosso corpo não é primitivamente biológico, vivo ou humano, mas pertence à região da subjetividade absoluta, não sendo inverossímil falar de um “corpo transcendental”, corpo que é um Eu, conhecido pelo ego como qualquer outra intencionalidade de sua vida
  • Observa-se que os diferentes sistemas filosóficos concordaram sempre numa doutrina comum, a do pertencimento ao mundo do ser de nosso corpo, sendo Maine de Biran o único, na longa história da reflexão humana, a compreender a necessidade de determinar originariamente o corpo como corpo subjetivo, merecendo ser visto ao lado de Descartes e Husserl como um dos verdadeiros fundadores da ciência fenomenológica da realidade humana
  • Lamenta-se que essa descoberta fundamental tenha passado despercebida, situando-se erroneamente Maine de Biran numa corrente “espiritualista” de introspecção que vai de Lachelier a Bergson, contrassenso que compromete a compreensão de sua obra, nada tendo o pensamento biraniano a ver com a vida interior neokantiana nem com a intuição bergsoniana
  • Observa-se que o próprio interesse pelos herdeiros de Maine de Biran impediu sua verdadeira compreensão, movendo-se estes em pressupostos incompatíveis com a intuição central do biranismo, só acolhido ao preço de um travestimento involuntário, verdadeira queda da concepção autêntica da subjetividade rumo à “psicologia”
  • Observa-se ainda o isolamento de Maine de Biran do grande público, não por serem suas pesquisas difíceis ou fantasiosas mas por serem desprovidas de tudo que parece “sensacional”, tendo por objeto o que há de mais humilde e comum, citando-se o próprio Biran sobre seu “fraco monumento” destinado ao “pequeno número de homens” dedicados ao “cultivo do sentido interior”, erguido num “país deserto, inculto”
  • Anuncia-se o propósito de decifrar esse “fraco monumento”, um dos maiores já edificados pelo espírito humano, a fim de recolher seu ensinamento e servir-se dele como fio condutor para a análise ontológica do corpo
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