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1 A verdade do mundo
HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma filosofia do cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2015
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Há muitas espécies de verdades, exemplificando-se com “o céu escurece e ameaça chuva”, verdade contingente e a posteriori, e “num círculo todos os raios são iguais”, verdade necessária e a priori, perguntando-se o que ambas têm igualmente de “verdade”
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É verdadeiro o que se mostra, remetendo a verdade de uma proposição à verdade prévia de um estado de coisas, a esse próprio aparecimento, valendo o mesmo tanto para verdades contingentes quanto necessárias
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Segue-se que o conceito de verdade se desdobra entre o que se mostra e o fato de se mostrar, sendo este último totalmente indiferente ao que se mostra, prova disso sendo que um céu azul se mostraria igualmente a nós, tal como o furor de populações ou o sorriso de uma criança
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O fato de se mostrar, considerado em si mesmo, é a essência da verdade, podendo-se chamá-la “mostração”, “aparecimento”, “manifestação”, “revelação”, termos pelos quais a verdade é também designada no Novo Testamento
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Sendo o fato de se mostrar a Verdade fenomenológica pura, toda verdade concernente às coisas, incluindo os manuscritos e acontecimentos do Novo Testamento, remete a essa verdade prévia, tendo sido a fenomenologia husserliana quem primeiro pôs explicitamente essa questão fundamental, embora já implícita desde a origem da filosofia e do senso comum
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Na Grécia as coisas são chamadas “fenômenos”, phainomenon, do verbo phainesthai, cuja raiz pha, phôs, significa luz, sendo a luz para onde vêm as coisas a luz do mundo, não designando o mundo o conjunto dos entes mas o próprio horizonte de sua mostração, sua Verdade
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Nessa interpretação grega já está implicada a intuição fundadora da fenomenologia contemporânea: o que é não “é” senão enquanto se mostra, sendo assim o Ser enquanto tal a verdade enquanto tal, o puro fato de se mostrar
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Essa interpretação do Ser como Verdade domina o pensamento ocidental, não mudando nada a passagem da filosofia antiga do Ser à filosofia moderna da consciência, mas antes levando-a ao absoluto, sendo os fenômenos da consciência suas representações, seus objetos
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Explica-se representar como vor-stellen, “pôr diante de”, designando ob-jeto o que é posto diante e assim tornado manifesto, sendo o fato de ser posto diante também o fato de ser posto “lá fora”, o mundo, revelando-se tautológica a expressão “a verdade do mundo”
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A emergência da filosofia moderna da consciência marca o momento em que o mundo deixa de ser compreendido ingenuamente como soma de coisas, sendo justamente esse “estar ali diante de nós” o que faz das coisas fenômenos, não sendo esse “estar diante de” senão o próprio “lá fora” do mundo
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A essa verdade original do mundo está submetido tudo que é verdadeiro, sensível ou inteligível, não existindo uma coisa para nós senão se se mostra nesse “lá fora” primordial, pouco importando se essa verdade é compreendida a partir da consciência ou do mundo
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A essa capacidade de mostrar-se no “lá fora” pertence o fato de tudo que nela se mostra ser por princípio diferente dela, manifestando-se esse desdobramento entre o verdadeiro e a Verdade na indiferença da luz a tudo que ela ilumina, não explicando nunca o modo de desvelamento do mundo o que nele se mostra, deixado a si mesmo, contingente, perdido
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A verdade do mundo não é apenas indiferente ao que mostra, mas atinge o que dela tem sua verdade de modo mais grave ainda, pois o mundo não é meio inerte preexistente às coisas mas um horizonte que não cessa de advir sob a condição de um poder que o projeta, chamado em Kant imaginação transcendental
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Não é necessário vincular essa produção do horizonte a uma consciência determinada, bastando pensar essa produção do “lá fora” por si mesma, como fato primeiro e absoluto, sendo a Natureza grega e a consciência moderna dois modos de formular essa mesma verdade original
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Essa autoexteriorização do “lá fora” a que se chama mundo tem outro nome, o Tempo, sendo mundo e tempo idênticos, designando o mesmo processo, desdobrando-se o horizonte do mundo em três dimensões temporais — futuro, presente, passado —, os três “ek-stases” de Heidegger, que deslizam continuamente uns para os outros
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Percebe-se aqui a gravidade do golpe que a verdade do mundo acarreta a tudo que faz ver: lançar as coisas para fora de si não significa mera transferência de lugar, mas a própria coisa se encontrando fraturada, cindida de si, despojada de sua realidade, esvaziada de sua carne, reduzida a imagem, película sem espessura
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Essa vinda ao aparecer, que devia conferir o ser, retira-o, fazendo do ser seu contrário, privando cada coisa de sua substância para entregá-la como aparecimento estranho à realidade que devia ser a sua, sendo esse fazer-ver que destrói o próprio tempo, passagem, deslizamento para o nada
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O tempo não é deslizamento do presente para o passado segundo análises célebres do senso comum: no tempo não há presente, nunca houve nem haverá, pois as coisas vêm à aparência já arrancadas de si mesmas, esvaziadas de seu ser, já mortas, sendo o modo de fazer ver do tempo o modo de fazer ver do mundo
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A verdade do mundo é a lei do aparecimento das coisas, dando-se estas fora de si mesmas de modo que seu aparecimento é seu desaparecimento, sendo por isso que não há presente no tempo, destruindo a vinda ao presente a própria realidade da coisa na apresentação, tornando-a imagem homogênea à imagem do futuro e do passado
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Tudo que aparece no mundo é submetido a processo de desrealização principial, colocando a priori tudo nesse modo de aparecer num estado de irrealidade original, não havendo inicialmente uma coisa presente que depois passasse, mas passando ela desde sempre, atingindo destruição e morte a priori tudo que aparece como a própria lei desse aparecimento, citando-se o Apóstolo: “Pois passa a figura deste mundo” (1 Coríntios 7,31)
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Anuncia-se que toda forma de verdade examinada, salvo a verdade do cristianismo, foi assim elucidada, restando compreendê-la agora em sua estranheza radical com respeito a tudo que o senso comum, a filosofia ou a ciência chamam e continuam a chamar “verdade”
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