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estudos:henry:em:ser-acontecimento-impessoal
§4 Ego cogito
HENRY, Michel. L’ essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963
§4 - A inserção do ego cogito e de sua problemática no interior do horizonte liberado pela ontologia fenomenológica universal
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Não é fácil à ontologia preservar a pureza de seu projeto inicial, sendo o pensamento do ser difícil porque estamos tão profundamente ligados às coisas da terra que não nos parece haver morada própria reservada a nós, morada que só se obtém pela renúncia e onde reina o absoluto desnudamento, fonte de nosso terror
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desde sua origem a filosofia sucumbe à tentação do ente, sucedendo à busca original que abandona a consideração do ente e avança para a categoria suprema, como que por queda fatal, um movimento de atenção que retorna ao ser determinado ou a um super-ente
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a filosofia foi na maior parte das vezes, como diz Heidegger, uma mistura de filosofia primeira e discussões sobre Deus ou a imortalidade da alma, prosseguindo Santo Tomás de Aquino o erro inaugurado pela filosofia helênica ao introduzir a ideia de Deus na scientia divina, confusão que se afirma com brilho ainda maior nas Meditações de Descartes
Ocorre em Descartes, já visível em Santo Tomás, uma oscilação da pensamento, instituindo-se concorrência entre os entes que pretendem indevidamente o papel de princípio, obtendo o ego cogito uma preeminência cuja significação não é apenas cronológica-
a subordinação da ontologia à egologia, implícita na filosofia moderna, não é mais justificada que o antigo primado da teologia, permanecendo o cogito, sob os títulos de sujeito, espírito, pessoa ou razão, um existente que não se pode confundir com um fundamento ontológico
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é a significação ontológica da filosofia que se perde, sendo a resposta ao problema do ser absurdamente pedida a um existente determinado, vendo-se assim Hegel falsificar a significação autêntica da ontologia grega ao reduzi-la a um momento da evolução da consciência, permanecendo para o idealismo o projeto ontológico ligado à realidade prévia de uma existência singular
Essa existência reveste, sob o título de consciência, duplo aspecto: designa por um lado o poder que desdobra o horizonte, obra da transcendência que constitui originariamente a trama pura de toda objetividade possível, e por outro o existente singular onde se enraíza essa transcendência-
tal transcendência não é então mais que um caráter particular da consciência, propriedade segundo a qual esse existente recebeu o poder de dirigir-se a objetos, acrescentando-se esse poder à existência prévia do cogito como determinação notável mas segunda
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a compreensão ontológica ou pré-ontológica do ser é desnaturada quando se torna atributo de uma determinação ôntica, não se salvaguardando a transcendência em sua significação própria ao assimilá-la a um caráter da consciência, mesmo dizendo-a fundamental, pois enquanto o ser do sujeito não foi elucidado não se sai do paradoxo de fazer a condição repousar sobre o condicionado
A transcendência não pode ser inserida numa existência singular, sendo antes o rompimento, o abalo puro que quebra e destrói toda existência ao fundá-la, o nada, obra interna do ser, movimento que dissolve toda efetividade fazendo-a ser nessa mesma dissolução-
o nada que escava a brecha, chamada horizonte, onde algo pode emergir no ser, não pode sem absurdo ser encerrado nos limites desse algo, sendo negando o existente na ultrapassagem originária, obra do nada, que o ser presta assistência a esse existente que quer ser
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dessa proteção também o sujeito precisa, devendo pedi-la humildemente, não havendo um sujeito, uma única razão, mas espíritos que esperam pacientemente que se cumpra a obra do ser, o trabalho infinito do negativo, sendo o ser um acontecimento impessoal que o existente humano não pode reivindicar como seu
Afunda-se na contradição, colocando a problemática em confusão insuperável, se, pretendendo salvaguardar a essência em sua natureza íntima, quer-se contudo inseri-la na subjetividade humana e identificá-la com ela, não podendo a transposição dos temas da ontologia do ser para uma filosofia do cogito resultar senão em deformação-
essa deformação, que merece ser chamada falsificação, tem dupla consequência: o nada ao qual se faz revestir a condição de sujeito perde sua natureza de essência para tornar-se simples operação subjetiva, sendo a significação transcendental mantida talvez apenas última tentativa de escapar ao psicologismo
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não se evita a contradição de atribuir à essência, cujo nadificar desdobra o horizonte do ser, a condição de uma realidade particular submetida a esse horizonte, sendo antes no interior de tal meio que nós e as coisas podemos nos manifestar como fenômenos na luz do mundo
A subjetividade não é a condição absoluta, e assim como a essência sofre alteração profunda quando pensada como determinação particular, também não se respeita a natureza da subjetividade quando se lhe atribui papel que não pode desempenhar, sendo a subjetividade não a essência mas uma vida particular e profundamente real-
as discussões relativas ao substancialismo espiritual ilustram a contradição em que se afunda inevitavelmente o idealismo, que ao tomar a subjetividade por fundamento ontológico busca minimizar sua realidade de existente, não sendo a subjetividade uma substância mas apenas um ato, uma atividade virtual, possibilidade pura e vazia de realizar atos de pensamento
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já o idealismo pressente que a significação ontológica de tal fundamento implica o despojamento da existência singular, vendo-se a subjetividade idealista abandonar todo conteúdo real para não ser mais que forma vazia de um pensamento em geral, dissolvendo-se a vida interior na existência nebulosa do sujeito constituinte, denunciada pelos pensadores subjetivos
Não se pode confundir indefinidamente o fundamento ontológico pensado sob o título do ser com um existente singular, encontrando-se toda filosofia que persegue esse ideal contraditório diante do dilema de abandonar a questão do ser ou de subtrair um existente indevidamente privilegiado à condição ontológica última-
nesse último caso a contradição apenas se desloca, pois tal existente ou efetivamente se despoja de sua condição de existente ou é incapaz de desempenhar o papel pretendido, mantendo-se ao mesmo tempo os dois termos incompatíveis da alternativa
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esforça-se então por atenuar essa contradição despojando o existente de sua natureza de existente, chegando-se, após a subjetividade nebulosa e impessoal do idealismo, a afirmar a identidade da subjetividade com o nada, afirmação absurda pois se o ser é o nada é justamente porque, ao estender seu império, repele toda determinação, inclusive a subjetividade, pensada sob o título de campo transcendental que se pode dizer impessoal, mas que ao ser encerrado nos limites de uma existência singular converte a análise em outra coisa que já não é análise
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