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estudos:henry:em:1.9
§9 Distância fenomenológica
HENRY, Michel. L’essence de la manifestation. Paris: PUF, 1963
§9 - A determinação unilateral da essência do fenômeno e o conceito de “distância fenomenológica”
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Gassendi, nas Objeções às Meditações de Descartes, declara que nada age sobre si mesmo, pois assim como a mão não se golpeia nem o pé se dá um coice, sendo necessário para o conhecimento de uma coisa que ela envie sua espécie à faculdade cognoscente, o que torna evidente que tal faculdade, não estando fora de si, não pode transmitir a si sua própria espécie nem formar noção de si mesma, explicando por que o olho só se vê num espelho, mediante um espaço e o reenvio de sua imagem
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o empirismo de Gassendi aparece nesse texto sobredeterminado por concepções herdadas da filosofia escolástica e, por meio dela, do pensamento antigo, concepções que não constituem, porém, o fundo do argumento contra Descartes
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a teoria das espécies, a ação à distância e a ideia do espelho constituem antes maneiras de um pensamento ainda não elevado ao plano ontológico exprimir, através dessas teorias, pressuposições ontológicas últimas de que tais teorias nunca estão inteiramente separadas
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a persistência através da história de um horizonte ontológico comum sob material filosófico variável, mesmo após a revolução cartesiana, é atestada ao comparar o texto de Gassendi ao de Malverne, comentador da ontologia moderna, para quem ver algo exige campo, de modo que o conhecimento imediato é sempre mediato e o ser precisa estar a distância de si mesmo
A pressuposição subjacente ao texto de Gassendi, mais nitidamente exposta em Malverne, permanece vagamente esboçada, pois a precisão apresentada tende a confundir a distância condicionante do conhecimento do ser com uma distância real assimilável a uma característica ôntica, sendo a córnea do olho tomada como ponto zero dessa distância-
a distância intervém como condição universal do conhecimento com necessidade eidética, mas o que ela condiciona visa na verdade não apenas o conhecimento, mas a possibilidade mesma de um fenômeno em geral, sendo sua identificação com o conhecimento clássico um legado da tradição
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essa distância, pensada como condição e essência do fenômeno como tal, merece ser chamada de distância fenomenológica, conceito que permite elevar-se à pressuposição ontológica última subjacente aos textos evocados
O conceito de distância fenomenológica, compreendido como a estrutura mesma da fenomenalidade, deve ser distinguido do de distância espacial ou real, que existe já anteriormente a qualquer medida, como distância imediatamente experimentada pertencente ao mundo ambiente-
essa distância vivida na experiência perceptiva originária repousa, por sua vez, sobre uma espacialidade mais originária, o meio fenomenológico primitivamente aberto para que algo como um espaço possa se manifestar, sendo essa espacialidade originária o fenômeno do mundo, a visibilidade de todos os fenômenos
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o mundo, entendido em sua mundanidade pura, é a condição transcendental do espaço, pois, como mostrou Heidegger, é o espaço que repousa no mundo e não o contrário, diferindo por isso o conceito de distância fenomenológica do conceito ordinário de distância
O desdobramento da distância fenomenológica é uno com o surgimento do mundo em sua pureza, e sua significação ontológica só é preservada se a distância recebe, por oposição a toda distância espacial, a significação originária de um poder-
as distâncias sobre as quais se apoia o conceito habitual são distâncias encontradas dentro de um campo que, antes de ser espacial, é fenomenológico, mas a distância que caracteriza a extensão fenomenológica originária não é ela mesma encontrada, sendo antes o poder que permite encontrar, obra originária da transcendência que desdobra o horizonte
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essa distância é o afastamento compreendido, como quer Heidegger, em sentido ativo e transitivo, sendo o que afasta antes de concernir ao ser-afastado, não como comportamento ôntico particular, mas como evento ontológico mais originário que faz surgir o horizonte dentro do qual atos concretos de aproximação ou afastamento podem ocorrer
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a distância fenomenológica molda as lonjuras originais e desdobra o horizonte último de visibilidade dentro do qual toda coisa pode tornar-se visível, sendo o poder ontológico que dá acesso às coisas, esse próprio acesso, um acesso no e pelo distante
As coisas são ditas longínquas ou próximas conforme os comportamentos ônticos que nos ligam a elas, mas essa relação apoia-se numa relação mais originária, obra do distante, sendo proximidade e afastamento duas modalidades dentro de um afastamento mais fundamental que pertence, a título de condição, à própria estrutura da fenomenalidade-
a essência do fenômeno é o próprio afastamento enquanto afastamento transcendental, condição de toda presença e constituinte da proximidade, sendo proximidade e afastamento títulos equivalentes para a essência do fenômeno considerada em sua pureza, contendo essa essência uma antinomia interna que lhe confere seu poder ontológico próprio
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o distante é a essência da proximidade, podendo Heidegger dizer que o ser humano é um ser do longínquo e que é somente por esses longínquos originais que cresce nele a verdadeira proximidade das coisas
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a compreensão do estatuto transcendental do afastamento convida a refletir sobre o caráter não originário dos conceitos de próximo e longínquo já em uso na filosofia clássica e retomados por Husserl, que ao estudar nas Ideen e em Erfahrung und Urteil a proximidade e o afastamento do dado visa apenas conteúdos de pensamento segundo graus de clareza, dizendo-se proximidade absoluta quando se atinge o grau máximo de clareza
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no plano ontológico, porém, esse conceito de proximidade absoluta não tem sentido, pois a proximidade enquanto tal é sempre absoluta como o é o afastamento que com ela se confunde, só havendo graus na proximidade quando esta deixa de ser considerada em sua significação ontológica para tornar-se característica fenomenológica do próprio ente
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considerada como poder ontológico que dá acesso aos fenômenos e funda a conhecimento em sua possibilidade, a distância fenomenológica não pode ser dita maior ou menor, não fazendo sentido falar de distância mínima, e quando Malverne diz que ao anular-se a distância espacial nada mais se vê, esse próprio fato de não ver mais nada é um fenômeno positivo em que a essência já cumpriu sua obra
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essa distância fenomenológica transcendental subsiste em sua absolutidade mesmo onde a distância espacial se anula, distinguindo-se as distâncias que estruturam o mundo objetivo, que pertencem ao ente intramundano como determinações ônticas, das que, enquanto existenciais e co-pertencentes à estrutura ontológica da essência, portam a característica eidética de ser sempre uma distância absoluta
Como distância absoluta e transcendental, a distância fenomenológica deve também distinguir-se da distância existencial, que caracteriza a maior ou menor proximidade das coisas segundo o interesse que lhes dedicamos, sem relação com a proximidade espacial, podendo coisas espacialmente distantes tornar-nos contemporâneos de eventos de vinte séculos atrás-
a distância existencial está ligada ao Cuidado, que vive no mundo ambiente preocupando-se não com o mundo como tal, mas com o que nele acontece, havendo no Dasein, segundo Heidegger, uma tendência fundamental ao próximo, mas o que nos é próximo é sempre tal ou tal conteúdo determinado, nunca a proximidade como tal
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a proximidade é, ao contrário, o que está mais longe de nós, não porque idêntica em si à essência originária do longínquo, mas porque nunca é objeto de nosso Cuidado, dissimulando a orientação preocupada com o ser-afastado o próprio afastamento como tal
O ser-afastado encontra seu fundamento no próprio afastamento, e as distâncias vividas, existenciais ou espaciais, que jalonam o mundo desenham-se sobre o fundo do mundo como tal e nele repousam, sendo o ser desse ente intramundano o próprio ser do mundo, e as determinações categoriais repousando sobre as estruturas existenciais-
o ser transcendente, mesmo mascarando cada vez a obra da transcendência, deve a ela todos os seus caracteres ontológicos, ainda que derivados, podendo-se confundir falsamente o conceito transcendental do afastamento com o do ser-afastado que surge para nós no seio do longínquo original
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o conceito não elaborado de distância é apenas a forma como a consciência natural e pré-filosófica se representa a condição do fenômeno, representação que se figura a essência por meio de elementos que a supõem e nela encontram seu fundamento, sendo a ação à distância, a teoria das espécies e os conceitos de reflexo e imagem símbolos de algo que não lhes é homogêneo, mas seu próprio fundamento
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trata-se de circunscrever a essência do fenômeno, e se o pensamento filosófico tradicional mostrou-se incapaz de situar sua problemática num plano ontológico, seu desígnio profundo devia um dia explodir, pensando Heidegger a mesma coisa que Gassendi, mas pensando-a em sua verdade ontológica
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