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4 Crise
HENRY, Michel. Incarnation: une philosophie de la chair. Paris: Seuil, 2000.
4. A crise da fenomenalidade em Heidegger. A indigência ontológica do aparecer do mundo.
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A crise da fenomenalidade que abala o fundamento da fenomenologia husserliana não lhe é própria, vindo do próprio conceito de fenômeno de origem grega, atravessando toda a filosofia ocidental, retornando-se ao parágrafo 7 de Sein und Zeit para reexaminar phainesthai como forma média de phaino, “trazer à luz do dia”, cuja raiz pha, phos designa a luz, sendo aparecer, segundo Heidegger, “isso no interior de que algo pode tornar-se manifesto”
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Aparecer designa então a própria vinda do mundo, o surgimento da luz, a visibilização do horizonte, sendo essa vinda para fora, essa exteriorização da exterioridade, o que a segunda parte de Sein und Zeit atesta ao pensar essa fenomenologia pura do mundo já não confundido com a soma das coisas nele, o ente, mas com o próprio aparecer, pensado como o tempo
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A concepção heideggeriana do tempo é tributária da concepção husserliana já examinada: na audição de um som, protensão, consciência do agora e retenção constituem sua captação temporal, sendo essa captação, antes de tudo, uma captação do próprio tempo, uma “consciência interna do tempo”, deslizando as intencionalidades continuamente no fluxo da subjetividade originária
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Esse deslizar contínuo levou Heidegger a substituir o conceito tradicional de tempo pela “temporalização da temporalidade” (die Zeitigung der Zeitlichkeit), advindo o tempo como projeção de um horizonte de futuro, tornando-se as três intencionalidades husserlianas três “Ek-stases” — porvir, presente, passado —, formando sua passagem contínua o horizonte de visibilidade em que consiste o aparecer do mundo, seu Dasein, seu “estar-aqui”
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Esse aparecer é a própria vinda para fora, o “fora de si”, sendo a temporalidade, segundo Heidegger, “o 'fora de si' originário em e por si mesmo”, e o mundo o que se temporaliza nessa temporalidade, “estando aqui” com o fora de si dos Ek-stases, reafirmando-se assim a identificação do fenômeno mais originário da verdade com o aparecer do mundo
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Menciona-se a crítica de Heidegger à intencionalidade husserliana, por tê-la situado dentro de uma consciência como numa “caixa”, observando-se que essa crítica carece de conteúdo fenomenológico, pois o aparecer da intencionalidade também é compreendido, em ambos, a partir do phainomenon grego como vinda à luz num Ek-stase
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Elencam-se três traços decisivos do aparecer do mundo, introdutórios à fenomenologia da carne, cuja primeira tese é que nenhuma carne pode aparecer no aparecer do mundo
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Primeiro traço: consistindo o aparecer do mundo no “fora de si”, tudo que nele se mostra se mostra como exterior, outro e diferente, sendo essa Diferença a diferença entre o que aparece e o horizonte, entre o que aparece e o próprio aparecer, distinção que fundamenta a fenomenologia mas que talvez não tenha significação geral, decorrendo apenas da natureza particular desse modo de aparecer chamado Diferença do “fora de si”
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esse aparecer desvia de si com tal violência que tudo a que dá a aparecer não pode ser senão exterior no sentido terrível do que, expulso de sua Morada verdadeira, se encontra abandonado e perdido, presa desse isolamento a que Heidegger entrega o homem ao fazer dele, como “ser no mundo”, um ser apenas deste mundo
Segundo traço: o aparecer que desvela na Diferença do mundo não só torna diferente tudo o que desvela mas lhe é a princípio de todo indiferente, não o amando nem o desejando, iluminando vítimas e carrascos, atos caridosos e genocídios, numa neutralidade aterradora, semelhante à luz das Escrituras que brilha sobre justos e injustosTerceiro traço: essa indiferença esconde indigência mais radical, sendo o aparecer do mundo incapaz de conferir existência ao que desvela, desvelando, descobrindo, “abrindo”, mas não criando (macht nicht, öffnet), dando-se o ente em seu desvelamento como independente e anterior ao poder que o desvelaPergunta-se como não perceber que tal situação põe em causa o princípio fundamental da fenomenologia, segundo o qual é a fenomenalidade que liberta o ser, rompendo-se essa precedência no caso do aparecer do mundo se este é impotente para pôr no ser o que dá a aparecer, invertendo-se então o princípio “a tanto aparecer, tanto ser”, paradoxo extraordinário diante do qual se pergunta, antes de tudo, se é possível citar um só exemplo dessa exclusão recíproca do ser e do aparecer -
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