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estudos:gadamer:mundo-da-vida

Mundo da vida

Analecta Husserliana 2

A ciência do mundo da vida

1. A novidade da doutrina husserliana do mundo da vida permanece problemática porque seu desenvolvimento combina repetição, correção e autointerpretação teleológica, exigindo compreender essa doutrina à luz da insistência de Husserl em que seus contemporâneos não apreenderam o sentido autêntico da redução transcendental, fundamento constante de seu projeto de filosofia como ciência rigorosa.

2. O conceito de mundo da vida amplia a investigação filosófica para a experiência cotidiana e legitima análises sociais e históricas que não precisam acompanhar a redução transcendental, mas sua significação husserliana depende sobretudo do reconhecimento de modos originários de doação irredutíveis à verdade científica, cuja legitimidade fenomenal deve ser esclarecida pela correlação entre atos intencionais, objetos visados e fluxo constituinte da consciência.

3. A análise da correlação intencional revela a ingenuidade de uma ontologia fundada no objetivismo das ciências naturais matemáticas e esclarece também as idealizações presentes no próprio mundo da vida, de modo que essa temática já se anuncia nas investigações anteriores sobre a constituição e a temporalidade da consciência, não representando uma descoberta inteiramente tardia.

4. A integração das pesquisas fenomenológicas ao projeto sistemático da redução transcendental torna necessário examinar o rigor de seu procedimento, distinguindo o uso husserliano da dúvida cartesiana da intenção original de Descartes, pois Husserl procura suspender toda validade mundana, inclusive a das ciências eidéticas, para reconhecer os fenômenos e seus modos de doação a partir da constituição transcendental.

5. A redução transcendental pretende ultrapassar disputas entre posições filosóficas e visões de mundo, excluindo as ciências de fatos do domínio da fenomenologia pura e restituindo-lhes legitimidade sobre novas bases eidéticas, de modo que a subjetividade transcendental ofereceria o fundamento suficientemente abrangente para resolver todos os problemas filosóficos, pretensão mantida das “Ideias” à “Crise”.

6. A dificuldade de conservar a atitude transcendental manifesta-se especialmente no problema da intersubjetividade, cuja solução Husserl continua a situar na constituição do outro pelo ego transcendental, recusando a necessidade de abandonar essa orientação e sustentando que somente a partir da solidão radical do ego se pode legitimar a experiência de uma comunidade de sujeitos igualmente dotados de perspectiva própria.

7. O problema do mundo da vida assume simultaneamente a forma de uma autocrítica da exposição da redução nas “Ideias” e de uma dificuldade permanente da fundamentação transcendental, pois a articulação entre o horizonte vivido e a mudança de atitude envolve paradoxos que Husserl acredita resolúveis apenas mediante uma elaboração mais rigorosa do procedimento redutivo.

8. A consideração do mundo histórico torna-se inevitável diante das crises culturais e políticas e da ameaça do historicismo, enquanto a exigência de tornar-se um filósofo sincero leva Husserl a procurar uma justificação última de todas as convicções, esperando que o esclarecimento do mundo da vida inaugure uma nova época de responsabilidade racional e autoconfiança filosófica.

9. A autocrítica husserliana reconhece que a suspensão das realidades particulares não elimina automaticamente a crença no mundo como horizonte anterior a toda posição de objetos, permitindo que pressupostos não examinados contaminem a análise constitutiva, sobretudo porque o próprio filósofo permanece inserido em um horizonte histórico cujas evidências variam entre culturas e épocas.

10. A ciência ultrapassa a doação imediata do mundo da vida por decisões, idealizações e construções matemáticas, mas sua validade pressupõe esse solo anterior, cuja multiplicidade histórico-cultural suscita o problema de uma estrutura universal dos mundos vividos e de um a priori que fundamente todas as ciências, inclusive a lógica, parecendo ameaçar a primazia fundadora do ego transcendental.

11. A nova exposição da redução na “Crise” retoma problemas anteriores, mas substitui a suspensão gradual das validades por uma mudança de atitude total e única, pois nenhuma exclusão parcial pode suspender o solo universal do mundo da vida enquanto continuar a operar sobre ele mediante outras posições.

12. A tematização do a priori do mundo da vida abre uma nova via de redução e permite esclarecer a constituição intersubjetiva dos horizontes compartilhados, mas preserva o paradoxo de uma subjetividade constituinte que também pertence ao mundo constituído e permanece vinculada a horizontes pessoais e culturais específicos, tornando problemática a possibilidade de uma ciência universal diante dessa diversidade incontornável.

13. A solução husserliana reafirma a distinção entre o ego mundano, constituído como parte do mundo, e o ego transcendental que constitui todas as formas de experiência sem ser um elemento entre outros, conservando sua função última, sua evidência apodítica e sua solidão filosófica.

14. As investigações históricas da “Crise” esclarecem a origem do objetivismo científico mediante uma reconstrução orientada pela fenomenologia transcendental, mas a estrutura do mundo da vida também pode ser investigada eideticamente, pois sua historicidade concreta não elimina a diferença entre a doação intuitiva dos horizontes vividos e a doação simbólica das construções científicas.

15. O mundo da vida apresenta a estrutura universal de um mundo finito, subjetivamente relativo e aberto a horizontes indeterminados, cuja investigação parte necessariamente da situação vivida pelo próprio pesquisador, sem impedir o acesso eidético a estruturas universais, desde que se preserve o sentido transcendental do ego como instância puramente operante.

16. A investigação histórica do objetivismo pertence ao horizonte concreto da civilização europeia e permite esclarecer seus pressupostos e limites, modificando o caminho da autocompreensão husserliana sem alterar sua finalidade última, pois a ciência rigorosa continua sendo concebida como exame universal de si fundado no ego transcendental e orientado para um autoconhecimento absoluto capaz de tematizar a relatividade do mundo da vida.

17. A associação entre a nova via da redução e as considerações históricas responde sobretudo às circunstâncias intelectuais contemporâneas e à necessidade de combater o ceticismo historicista, enquanto o resultado permanece a fenomenologia transcendental e a interpretação da história da filosofia como processo cujo sentido culmina nessa transformação.

18. A contribuição de “Ser e tempo” pode, nessa perspectiva husserliana, ser limitada à explicitação dos horizontes da existência histórica anteriormente deixados em aberto, preservando-se a pretensão de uma ciência rigorosa cujo autoconhecimento universal deveria orientar conscientemente uma práxis comum da humanidade.

19. A pretensão de orientar a vida humana pela fenomenologia enfrenta a distância crescente entre prudência prática e política e validade anônima da ciência, pois o possível êxito pessoal de Husserl em conciliar mundo da vida e ego transcendental não resolve a tensão entre o fluxo temporal da existência e a reivindicação filosófica de uma verdade eterna.

20. A reviravolta ontológica de Heidegger restitui primazia ao processo existencial e liberta a filosofia da pretensão de superar as ciências mediante um saber a priori das essências, compreendendo o pensamento filosófico como esclarecimento dos conceitos, da linguagem e dos limites da abordagem científica, cujo reconhecimento fundamental da finitude humana abre possibilidades incessantes de autocorreção e de diálogo sobre o mundo e a vida.

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