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estudos:franck:2005:14

14: 31/01/2006

FRANCK, Didier. Heidegger, Ser e Tempo. Aula de 2005

1. A próxima aula ocorrerá em 14 de fevereiro.

2. A primeira metade do capítulo 3, “O poder-ser-todo próprio do Dasein e a temporalidade como sentido ontológico do cuidado”, capítulo de transição, mas decisivo, dá acesso à temporalidade como sentido ontológico do Dasein, para depois repetir a analítica existencial mostrando que cada existencial é um modo da temporalização, tese das mais importantes do livro, cuja novidade não está em ligar o tempo à alma, o que já faz Aristóteles no livro IV da Física, mas na maneira de pensar o tempo e na multiplicidade de modos de temporalização, pois, contra a tradição aristotélica e kantiana, que pensa o tempo a partir do agora, como número do movimento segundo o anterior e o posterior, todas as dimensões do tempo se abrem a partir do futuro, ainda que Husserl, nas lições sobre o tempo, já tivesse mostrado que o presente tem estrutura diferenciada, com a retenção, que não é memória, e o último capítulo articulará temporalidade extática e temporalidade aristotélica.

  • O ponteiro dos segundos do relógio ilustra a determinação aristotélica, indo de agora em agora segundo o anterior e o posterior.

3. A analítica do Dasein, disciplina subordinada à ontologia fundamental, visa o tempo como sentido ontológico do Dasein porque o ser sempre foi compreendido no horizonte do tempo, como mostra a antiga determinação do ser como ousia, presença constante (beständige Anwesenheit), cuja dissociação entre constância e presença será todo o esforço de Heidegger, o que justifica que o ente em que o ser se mostra tenha por sentido ontológico o tempo, compreensão grega que Nietzsche foi o primeiro a ver, tão claramente quanto viu a morte de Deus, dissociando presença e constância e buscando pensar a constância a partir do eterno retorno do devir.

  • Talvez só se veja isso em Nietzsche porque Heidegger o mostrou depois.
  • Ousia designa pré-filosoficamente uma propriedade fechada sobre si, e ta pareonta, em Homero, o que está disponível, usos que sempre indicaram algo estável e fechado, sem que os filósofos se tenham regulado por eles.

4. Para a liberação fenomenal da temporalidade (phänomenale Freigebung der Zeitlichkeit), é preciso aceder ao Dasein em seu todo e em sua versão mais própria, pois o fenômeno mais rico prevalece sobre os mais pobres, sabendo-se que o ser-para-a-morte próprio se mostrou como lançar-se na possibilidade e que esse poder-ser é atestado na resolução, restando saber como se articulam antecipação e resolução, segundo a regra fenomenológica de que as coisas revelam seu ser pela maneira de aceder a elas e de que, inversamente, é seu ser que abre esse acesso, regra formal em que as coisas comandam, como sabia Husserl ao tomá-las por fio condutor.

5. Metodicamente, só há um caminho possível (p. 302): partir da resolução, estrutura existencial de uma possibilidade existencial atestada concretamente pelo Dasein, e perguntar se ela não contém a estrutura do poder-morrer, para obter o poder-ser-todo atestado pelo próprio Dasein e uma base fenomenalmente acessível ao sentido de ser do Dasein, sendo o sentido a dimensão a partir da qual algo é compreendido, de modo que o compreendido é o ser do Dasein e não o tempo, assim como o mundo é a dimensão a partir da qual se compreende o martelo, cujo sentido é seu uso, num autocontrole fenomenológico permanente que não recusa a construção, desde que fenomenológica, pois a destruição é sempre prelúdio a uma construção.

  • Que o sentido seja o uso, redescoberto hoje pela filosofia analítica, já está em Platão.
  • “Sentido do ser” é genitivo duplo: o sentido que se busca do ser e o ser que dá sentido, sendo o ser a dimensão fundamental do sentido em geral.
  • Claudel diz que o tempo é o sentido da vida, jogando com os vários sentidos da palavra.
  • Nos Prolegômenos à história do conceito de tempo, a construção aparece como etapa da fenomenologia, e Heidegger diz que a apropriação deve ser construída.
  • Nietzsche escreveu “quantas casas ainda restam a construir”, mas escrevera primeiro “quantos mundos”, e Zaratustra destrói, como “vassoura de Deus”, mas para construir.

6. Se a resolução só atinge sua propriedade projetando-se para o poder-morrer, possibilidade da impossibilidade que ultrapassa todos os poderes fáticos (p. 302), a resolução, verdade do Dasein como abertura em que ele se abre a si mesmo como fundamento lançado de sua nulidade, liga-se também à certeza, laço entre verdade e certeza próprio da metafísica moderna desde Descartes, como mostra o curso sobre a quarta Meditação, de modo que Sein und Zeit, ao ligar certeza, verdade e resolução como querer, inscreve-se na continuidade dessa metafísica, livro de transição, com um pé dentro e outro fora, cuja claudicação explica seu inacabamento.

  • Toda decisão de fazer isto ou aquilo pressupõe uma decisão relativa ao poder-morrer, explicação clara, mas em certo sentido falsa.
  • Nada é mais determinante que um momento de transição, também filosoficamente.

7. Toda a análise foi conduzida pela ideia de existência como modo de ser diferente da subsistência, e, tratando-se agora de seu sentido como ser-adiante-de-si e fora-de-si, a interpretação do sentido do cuidado exige a existência em sua plenitude (p. 303), alcançada na resolução antecipadora, na qual a temporalidade se revela a partir do futuro, pois o poder-morrer é o próprio futuro, o estar-já-lançado no mundo, o passado, e o estar voltado para o ente de que se ocupa, o presente, cada conduta sendo um modo diferente de temporalização e as estruturas “abstratas” ganhando inteligibilidade nas situações em que o Dasein sempre se encontra, segundo a regra fundamental (p. 304) de que todas as estruturas são modos de temporalização da temporalidade, e a resolução, projetar-se silencioso e angustiado para o ser-culpado originário, fundamento nulo de uma nulidade, anterior a toda culpa fática, deve abrir-se até o fim para afirmar a constância desse ser-culpado, contendo o ser-para-a-morte como modalidade existencial de sua propriedade.

  • Lévinas, grande intérprete de Husserl e de Heidegger I, compreendeu bem que Heidegger descreve situações dramáticas em que passado, presente e futuro ganham sentido.
  • Kant define o tempo abstratamente, e Bergson viu antes de Heidegger que a temporalidade só se descreve como relação particular da consciência com isto ou aquilo, e Heidegger escreve à esposa que Bergson não está errado.
  • Quem lê Heidegger ou Hegel sem esse “modo de usar” produz o desastre do comentarismo.
  • Teologicamente, viver na esperança ou sob a lei do pecado não é a mesma temporalidade.
  • Ao declarar tardiamente que a espacialidade do Dasein não é modo da temporalização, Heidegger introduziu uma falha no edifício, e Husserl já via que toda estrutura da consciência ganha sentido em vividos temporais.
  • A questão da constância do Dasein (Ständigkeit, Selbstständigkeit), se não provém da subsistência, é o problema nietzschiano do eterno retorno, pois, destruída a ontologia da Vorhandenheit, que prestava serviços, é preciso compreender de novo a identidade pessoal.

8. A aula é retomada após interrupção.

9. A resolução contém o poder-morrer como modalidade existencial de sua autenticidade e é, por outro lado, deixar-se chamar ao ser-culpado mais próprio, que, pertencendo ao ser do Dasein, poder-ser, deve ser entendido como poder-ser-culpado, de modo que, partindo de um ou de outro fenômeno, ambos se confundem, pois é na antecipação que se revela a impossibilidade da existência como possibilidade, a pura nulidade do Dasein, sua culpabilidade originária, e a resolução antecipadora, que compreende o poder-ser-culpado a partir da totalidade do Dasein, é o fenômeno originário da verdade da existência e o solo fenomenal para aceder a seu sentido de ser.

  • Na p. 306 da tradução de Martineau, “c'est à peine” deve ser corrigido para “c'est-à-dire se comprend en lui”.

10. Uma nota distingue o ser-culpado originário do status corruptionis teológico, a humanidade sob o pecado, admitindo que a teologia possa encontrar na analítica existencial uma condição ontológica da possibilidade fática do pecado, fechado à experiência filosófica, posição insustentável, pois o pecado só se compreende na revelação, que é incondicionada, e, sendo originário, não é fático, de modo que Heidegger lhe retira o aguilhão, e não se pode ser condição ontológica de algo sem ter esse algo em vista, o que revela uma nota embaraçada, possível apenas pela formalização e ontologização do pecado, pois há no conceito de finitude, mesmo ontológica, uma referência ao infinito.

11. Com a resolução, o Dasein está diante da verdade originária da existência, sendo ao mesmo tempo o desvelar e o desvelado, restando compreender sua certeza (p. 307), que, não podendo ter o sentido cartesiano, deve significar constância, como o ter-por-verdadeiro kantiano, manter a decisão de um instante a outro, isto é, repetir o instante, estrutura herdada do eterno retorno nietzschiano, que assegura constância sem pressuposto substancial, de modo que ser livre é estar disposto à repetição da resolução, mantendo-a sempre aberta, e a verdade originária abre também o Dasein à sua não-verdade, à certeza de sua irresolução e da recaída no impessoal, única base para uma decisão, o que restitui um direito limitado à ontologia da Vorhandenheit.

  • A decisão, tomada sempre num instante, exige, para ser constante, projetar-se sempre primeiro para o poder-ser mais próprio e, a partir dele, determinar-se por tal ou tal poder-ser fático.
  • O anão, a quem Zaratustra mostra o instante, não compreendeu que o instante somos nós, que só para nós os dois caminhos se unem, e o eterno retorno entre dois instantes, infinitude de todo o devir, não tem sentido físico, mas assegura a estabilidade de quem decide.
  • A estrutura do instante (Kairos), distinto do agora (nun) equivalente a qualquer outro, será estudada no último capítulo sobre a temporalidade.
  • A mais alta decisão consiste em decidir sobre as condições de possibilidade de toda decisão.
  • A crítica da substancialização do homem restitui ao que abandona um direito próprio e explica por que se pode ser forçado a abandoná-lo, o que o § 63 retomará e é importante para compreender a destruição.

12. A resolução antecipadora pode ser entendida como a angústia bem compreendida, pois projetar-se para o poder-ser mais próprio convocado ao ser-culpado originário desdobra a angústia, revelação ao Dasein de seu próprio nada, sendo a revelação do ser revelação do nada de todo ente e do próprio Dasein, o que confirma o lugar central da angústia na analítica existencial.

13. O § 63, único parágrafo verdadeiramente metodológico de Sein und Zeit, lança um olhar retrospectivo a partir do Dasein atingido em sua originariedade, lembrando que o ente onticamente mais próximo e ontologicamente mais distante se dá primeiro em sua não-verdade, interpretando-se em termos alheios e recobrindo-se por uma tendência fundada na decadência, compreendendo-se a partir do mundo de que se ocupa e ignorando que é transcendência, de modo que a análise fenomenológica deve usar de violência, palavra do texto, contra esse autorrecobrimento, violência exigida também pela estrutura de projeto de toda compreensão, mas não arbitrária, pois guiada por um horizonte indicado pelo próprio Dasein, a ideia de existência como estar-fora-de-si, que provém da própria compreensão, estrutura do projetar e do existir, presente mesmo no Dasein decaído, sempre já numa língua e aberto ao domínio do sentido, círculo que é preciso percorrer.

  • Husserl dizia igualmente que o sujeito transcendental sempre foi interpretado em termos mundanos e psicológicos.
  • Não se interpreta um texto sem violência, sob pena de amável falatório, como em 99% dos casos, e a potência de uma interpretação mede-se pelo que seu horizonte faz surgir.
  • A tradição recobre as origens, e reencontrá-las exige uma arqueologia guiada por um horizonte, pois as grandes descobertas arqueológicas são intelectuais e não simples remoção de terra.
  • O Dasein decaído “fala sempre”, mas para isso precisa estar aberto ao sentido.
  • Ulisses percorre um círculo, mas não é exatamente o mesmo que retorna, e o conjunto constitui trabalho filosófico de ourives.
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