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Rodrigo Maltez Novaes

FLUSSER, Vilém. O Último Juízo: Gerações (2 vol.). Org. Rodrigo Maltez Novaes, Rodrigo Petronio. São Paulo: É Realizações, 2017

A gênese das Gerações de Flusser

1. A ironia é um método retórico, uma maneira de falar sobre as coisas.

2. Ironia significa em grego falar disfarçado, e há uma ironia barata, que disfarça sem necessidade ou para enganar os ouvintes e é método caro à demagogia, e outra tão cara que pode custar os olhos da cara, sendo difícil distinguir entre ambas, o que exige ouvido atento.

3. Vilém Flusser iniciou o projeto de Até a terceira e quarta geração em 1965, logo após traduzir, reescrever e publicar A história do diabo, escrito em alemão em 1958, e, embora costumasse escrever e autotraduzir suas obras entre alemão e português, redigiu este livro apenas em português, traduzindo só alguns capítulos para o alemão, de modo que sua maior monografia, com 336 páginas datilografadas, permaneceu inédita como livro por cinquenta e dois anos, tendo apenas dois capítulos publicados parcialmente em 1965 na revista Cavalo Azul, editada por Dora Ferreira da Silva, grande amiga e interlocutora de Flusser, o que faz desta a primeira edição integral dessa obra-prima.

4. O título original inspira-se num versículo do Êxodo e traz o subtítulo Visitarei as transgressões até a terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.

5. O versículo bíblico proíbe curvar-se diante de imagens falsas ou servi-las, porque o Senhor é um Deus zeloso que visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que o odeiam.

6. A frase repete-se outras três vezes no Antigo Testamento, em Êxodo 34,7, Números 14,18 e Deuteronômio 5,9, e sugere numa exegese rápida a imagem de uma maldição hereditária que persegue por gerações os adoradores de imagens ou ideias falsas, razão pela qual a segunda parte do livro se intitula maldição, enquanto o subtítulo irônico inverte essa imagem ao propor uma viagem ao passado em visita àqueles que ainda hoje aborrecem por meio de ideais e valores herdados.

7. As duas hipóteses centrais da obra são que a investigação do passado pode ensinar algo sobre a situação atual e que essa situação é de transição, de fim dos tempos e de renovação.

8. Atravessa-se hoje, portanto, um período de transvaloração como o previsto por Nietzsche, cuja compreensão e cujo possível caminho adiante só se tornam mais claros pela análise do passado.

9. Os primeiros capítulos publicados no primeiro número da Cavalo Azul, em março de 1965, foram Santa Sé, Escola e Alquimia, acompanhados de uma nota que declarava provisório o título do livro, sendo impossível saber se Flusser o teria mudado, embora vários de seus livros tenham saído com títulos diferentes dos originais, como A filosofia da caixa preta, originalmente Para uma filosofia da fotografia, título mantido nas versões alemã e inglesa e alterado em 1985 por Maria Lília Leão com sua aprovação, ou a autobiografia Bodenlos, rebatizada após sua morte, de modo que, diante das dúvidas do próprio Flusser e da publicação póstuma, a mudança do título se mostrou não só possível, mas aconselhável.

10. Ao longo do livro predomina a segunda hipótese, pois a visão do presente como período de transição e a necessidade de compreendê-lo melhor prevalecem sobre a análise e a crítica objetiva do passado, que aparece como série de alegorias e não como objeto de estudo.

11. Não se trata de um estudo objetivo ou de uma arqueologia da história da ciência ocidental, mas de uma análise subjetiva que recorre a alegorias dos temas tratados, sobretudo a do fim dos tempos, do julgamento final, do último juízo, reiterada em toda a obra para gerar e sustentar seu tom irônico-profético.

12. A insatisfação de Flusser com o título inicial provavelmente se deve ao fato de que Até a terceira e quarta geração, apesar de sua dose de ironia, não transmitia o tom irônico-profético sobre o fim da Idade Moderna nem sugeria o fim de uma era, como desejado.

13. Por esse motivo, preservando a essência do original, o título foi alterado para O último juízo: gerações, obra escrita entre 1965 e 1966 e concluída em maio de 1966.

14. Em outubro de 1965, Michel Foucault visitou o Brasil pela primeira vez para apresentar o projeto que seria publicado em 1966 como As palavras e as coisas, e amigos e alunos de Flusser relatam ter assistido às suas aulas, o que torna plausível que ele também as tenha frequentado ou conhecido seu material, embora não haja documentos que o comprovem, sendo certo apenas que no ensaio autobiográfico Em busca de significado, de 1969, Flusser declara ter escrito O último juízo: gerações sob influência de Foucault, sem precisar em que sentido, e que, apesar de iniciado antes da visita, o livro apresenta paralelos surpreendentes com o do filósofo francês, como a semelhança entre geração e episteme, ambas em número de quatro, e o recorte do mesmo período histórico, a Idade Moderna, da Renascença ao século XX.

15. Numa carta a Celso Lafer de dezembro de 1965, a obra é descrita como ensaio sobre o desenvolvimento do sentido da realidade na Idade Moderna, dividida em quatro gerações, Renascimento, de 1350 a 1600, Barroco e Romantismo, de 1600 a 1850, Era Vitoriana, de 1850 a 1940, e Atualidade, encontrando-se então a redação em 1889, ano da loucura de Nietzsche e da construção da Torre Eiffel, tema que absorvia todo o pensamento de Flusser.

16. Em março de 1966, noutra carta a Celso Lafer, Flusser anuncia a proximidade do fim do livro, dizendo ter ultrapassado, mas não superado, todas as gerações e estar mergulhado na atualidade.

17. Em maio de 1966, ainda em carta a Celso Lafer, declara simplesmente que as Gerações já haviam sido entregues.

18. Durante alguns anos após a conclusão, o título figurou nos currículos de Flusser como no prelo pela editora Martins, mas depois deixou de ser mencionado em suas listas de obras e correspondência, sendo difícil saber por que não foi publicado, já que não há indício de que tenha de fato chegado ao prelo nem cópias de provas, ao contrário de outros títulos da época.

19. Durante a redação, Flusser foi convidado pelo Itamaraty a viajar pela Europa e pelos Estados Unidos para dar palestras sobre a filosofia contemporânea no Brasil, primeiro retorno à Europa desde sua chegada ao Brasil em 1940 como refugiado da guerra e da perseguição nazista, e partiu com a esposa Edith no segundo semestre de 1966, enviando a amigos e alunos cartas com impressões do velho continente e relatos de encontros com Max Brod, Max Bense, Theodor Adorno e Hannah Arendt, numa viagem que visava também despertar o interesse de editoras europeias e americanas por autores brasileiros, inclusive ele próprio.

20. Nas cartas dessa viagem, Flusser menciona diversos projetos de publicação que nunca se concretizaram, e, de volta a São Paulo no primeiro semestre de 1967, iniciou um novo livro de reflexões sobre a tradução, anunciando em dezembro ao professor Leônidas Hegenberg seu trabalho sobre a traduzibilidade e a edição de Até a terceira e quarta geração, história subjetiva da ontologia moderna, pela Grijalbo, no âmbito de sua editora universitária.

21. O livro sobre tradução tornou-se um ensaio de 25 páginas datilografadas intitulado Problemas em tradução, e a Grijalbo não publicou as Gerações, de modo que, com esses dois títulos guardados, Flusser encerrou inconscientemente sua primeira fase de produção, iniciada em 1957 com a monografia ainda inédita O século vinte e composta por Língua e realidade, A história do diabo, Da dúvida, Da religiosidade, os cursos e os ensaios para o Instituto Brasileiro de Filosofia, obras entrelaçadas em torno da fenomenologia existencial centrada na filosofia da língua e na construção do real, formando uma grande constelação de textos interligados.

22. Encerrada essa fase, Flusser iniciou a segunda, dedicada à teoria da comunicação pela qual é mais conhecido, e de 1967 a 1970 produziu artigos e ensaios para periódicos nacionais e internacionais, mas nenhuma monografia, concentrado na criação e implantação da Faculdade de Comunicação e Artes da Fundação Armando Álvares Penteado e no curso de Filosofia da Ciência da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

23. A produção de monografias só foi retomada no final de 1970, com Fenomenologia do brasileiro: em busca de um novo homem, concluída em 1971, um ano antes de Flusser emigrar de volta à Europa, em parte devido ao endurecimento da ditadura militar no Brasil.

Curiosidades e observações

1. Na ausência de uma cópia do suposto prelo no Arquivo Vilém Flusser, a edição exigiu digitar as 166 mil palavras do datiloscrito original, fotocopiado, como todos os datiloscritos de Flusser, durante a organização do arquivo por sua viúva, Edith, que entre 1992 e 1998, com o filho Miguel e diversos pesquisadores, reuniu no Brasil e na Europa todo o material produzido por ele, doando as fotocópias à Escola de Arte e Mídia de Colônia e os originais ao Arquivo Histórico da Cidade de Colônia, em parte por ocasião de sua mudança em 1998 para Barbados, onde a filha Dinah se tornara embaixadora do Brasil, a fim de confiar a uma instituição acadêmica a conservação da obra, embora mantivesse consigo uma cópia quase completa para prosseguir seu trabalho de edição e tradução.

2. Em 2013, o acervo do Arquivo Vilém Flusser, transferido em 2007 para a Universidade de Artes de Berlim, foi integralmente digitalizado em colaboração com a PUC-SP e a Fapesp, constatando-se então a falta de alguns datiloscritos inteiros e de páginas avulsas por perda, extravio ou roubo.

3. Graças ao conjunto de cópias mantido por Edith, é possível restaurar hoje a maior parte dos documentos e páginas desaparecidos, como no caso de O último juízo: gerações, cuja cópia digital de Berlim carecia de seis páginas, restauradas a partir da cópia em papel da coleção pessoal de Edith, hoje guardada por Miguel Flusser, sendo necessário ainda redigitalizar páginas ilegíveis pelo desgaste das antigas fotocópias antes de proceder à edição.

4. A escolha de inaugurar a Biblioteca Vilém Flusser com O último juízo: gerações ocorreu naturalmente, por ser o maior livro de Flusser e por permanecer atual em sua visão do presente, apesar de escrito em meados dos anos 1960, apresentando já na introdução seu argumento central, a necessidade de superar a tecnologia pela transformação dela e de nós mesmos.

5. Os instrumentos, por serem coisas já manipuladas, parecem exigir atitudes de consumo ou de recusa e até o próprio aniquilamento, razão ontológica da expectativa de fim do mundo reinante, ao passo que a atitude proposta consiste em aceitar os instrumentos como problemas, numa escolha existencial de não aceitá-los passivamente e de abrir-se vivencialmente ao mundo da tecnologia, decidindo superá-lo não pelo consumo crescente nem pela recusa enojada e entediada, mas pela manipulação e transformação da tecnologia, que, para ser superada, precisa ser transformada em outra coisa.

6. A questão da tecnologia continua sendo central.

7. O debate atual sobre o Antropoceno gira justamente em torno dos efeitos da tecnologia humana e seus derivados sobre a Terra, mas, como adverte Flusser, o que importa são as escolhas capazes de superar a tecnologia pela manipulação e transformação, recusando tanto a tecnofilia quanto a tecnofobia, já que atitudes extremistas não servem neste momento de transição e só um mergulho existencial na dimensão programática dos aparelhos pode salvar, donde o elemento profético do livro, a alegoria do aparelho como Übermensch nietzschiano ou Messias portador de um paraíso técnico, que Flusser chama de pós-história e que difere do pós-modernismo de Foucault.

8. Em As palavras e as coisas, Foucault apresenta o conceito de episteme, cuja história, segundo a síntese de J. G. Merquior em Foucault, ou o niilismo de cátedra, não se confunde com a história da ciência nem com a das ideias e sublinha constantemente descontinuidades enigmáticas entre quatro blocos históricos, a episteme pré-clássica, até meados do século XVII, a clássica, até o fim do século XVIII, a moderna e uma época propriamente contemporânea surgida por volta de 1950.

9. A última episteme de Foucault corresponde à pós-moderna, mas a diferença fundamental entre geração e episteme está na passagem entre os blocos históricos, pois, enquanto para Foucault há descontinuidades epistemológicas enigmáticas, para Flusser não há descontinuidade entre gerações, já que, como afirma Ortega y Gasset em O que é a filosofia?, todos são contemporâneos, mas não coetâneos, sendo coetâneos apenas os da mesma geração e coexistindo em cada momento três gerações distintas, anacronismo cujas tensões entre modelos epistemológicos movem as rodas da história e excluem descontinuidades no modelo geracional flusseriano.

10. José Ortega y Gasset foi uma das grandes influências no pensamento e no estilo de Flusser, como mostra o conceito de aparelhos técnicos de A rebelião das massas, de 1930, central em toda a sua obra, e, em O último juízo: gerações, a importância de Galileu anunciada já na epígrafe, certamente inspirada por En torno a Galileo, de 1933, cujos capítulos, sobre Galileu e seu efeito na história, a estrutura da vida como substância da história, a ideia e o método das gerações, mudança e crise, a verdade como harmonia do homem consigo, a transição da cristandade ao racionalismo, o extremismo como forma de vida, os marcos do pensamento cristão, o homem do século XV e a Renascença como retorno, sugerem ao menos parcialmente essa influência.

11. Outra influência possível é a de David Flusser, primo-irmão três anos mais velho de Vilém, grande especialista no cristianismo primitivo e no período do Segundo Templo, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor de vários livros sobre os essênios do Mar Morto, com quem Vilém trocou cartas desde os anos 1950, após terem emigrado da Europa, sendo que os temas do apocalipse e da crença messiânica, frequentes nos estudos de David, ecoam na obra de Vilém, de modo que, embora a extensão dessa influência seja incerta, os paralelos são tentadores e é inegável que a religiosidade humana e a origem parcial do pensamento ocidental nas religiões do Oriente Médio são elementos fundamentais e constantes no pensamento flusseriano.

12. O sumário de O último juízo: gerações revela uma estrutura geométrica e simétrica de 48 subcapítulos, 12 capítulos e 4 partes distribuídas em 2 livros, divisão marcada ao fim da segunda parte, maldição, e responsável pela publicação em dois tomos, simetria que remete ao more geometrico barroco de Descartes e Spinoza e sugere talvez uma geometria oculta ligada à cabala, não como influência direta, mas como expressão do elemento lúdico sempre presente em Flusser, já que 48 mais 12 mais 4 somam 64, cuja metade, 32, representa os caminhos da sabedoria manifestos nos 4 mundos, e 4 vezes 32 resulta em 128, isto é, 2 elevado à sétima potência, sendo 2 e 7 números importantes na cabala, o que lembra que distinguir as faces da ironia depende de ouvidos atentos.

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