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1 Intelecto

FLUSSER, Vilém. Da dúvida. São Paulo: É Realizações, 2018

1. Os exercícios mentais da ioga começam pela concentração, cuja recomendação aparentemente simples de eliminar todos os pensamentos salvo um único arbitrariamente escolhido exige, na prática, uma ginástica mental incrível, ridícula e degradante, equivalente às convulsões corporais dos iogues, que desorienta a mente a ponto de quase não se saber onde se tem a cabeça e que costuma levar o ocidental a abandonar o exercício por ofender seus cânones estéticos e seu senso de dignidade de pessoa inteligente.

2. A revolta diante desse exercício decorre de ele desvendar de modo imediato e vivencial a luta entre vontade e intelecto na mente e de pretender fortalecer a vontade contra o intelecto, invadindo o território deste como primeiro passo para sua conquista e destruição, meta da ioga, ao passo que a tradição ocidental, empenhada na supremacia do intelecto, vê na subordinação da vontade o estado natural, bom, belo e certo, e na revolta da vontade a luta da loucura contra a sanidade e da irrupção vertical da barbárie contra a civilização, cuja vitória seria um acontecimento apocalíptico de inversão dos valores, demência individual e fim da sociedade civilizada.

3. A simples concentração põe em contato vivencial com uma civilização equivalente à ocidental, dotada de procedimento organizado, técnica apurada e êxito pragmaticamente verificável, mas empenhada em favor de forças que aos olhos ocidentais são bárbaras, pois luta pela vitória da vontade sobre o intelecto, e daí nascem o choque de surpresa e a revolta.

4. Esse choque e essa revolta são existenciais e não especulativos, pois no plano especulativo o Ocidente há muito encara com equanimidade a luta entre intelecto e vontade, desde a exaltação romântica da vontade e o primado ontológico que lhe concede Schopenhauer até a corrente filosófica dos séculos XIX e XX que deserta a frente ocidental para aderir à vontade, mas todos esses fenômenos são artificiais e inautênticos, esforços intelectuais de abandonar o intelecto aos quais falta justamente vontade.

5. Do ponto de vista existencial, um único esforço de concentração segundo as regras da ioga vale mais que mil tratados de Nietzsche ou Bergson, porque ilumina num relance de experiência imediata aquilo que esses pensadores pretendiam, talvez sem o saber autenticamente.

6. Por ser tão contrário ao funcionamento tradicional da mente, o exercício da concentração revela de modo simples e quase palpável aspectos do intelecto e da vontade, numa situação que, por ultrapassar o intelecto, só pode ser descrita por alegoria e em cujo centro se encontra o Eu.

7. O Eu manifesta-se pensando e querendo, e no início da concentração pensa uma multiplicidade de pensamentos que correm como fios num tear, com um fio mestre intensamente iluminado pela atenção no centro e, ao seu redor, fios auxiliares que o acompanham, cruzam ou sustentam.

8. Os fios auxiliares surgem da escuridão além do cone luminoso da atenção, passam fugazes por sua penumbra e voltam a perder-se, permanecendo sempre disponíveis para se tornarem novos fios mestres caso a atenção se desvie, enquanto, simultaneamente, o Eu quer deter o fio mestre e destruir todos os auxiliares, isto é, quer pensar um único pensamento, até que, se a concentração for bem-sucedida, a situação muda radicalmente.

9. Ao final, o Eu permanece no centro diante de um único pensamento rígido, parado e morto, de modo que já não se pode dizer que pense, enquanto sua vontade, agora inteiramente livre e apenas ancorada nesse pensamento morto, experimenta-se como força quase ilimitada e sem objetivo que gira em torno dele e o faz girar, gerando um processo semelhante ao pensar, porém governado pela vontade e não pelo intelecto, que é a meditação.

10. Para quem viveu a concentração e a meditação incipiente, tal descrição é satisfatória, pois suas palavras não são símbolos de significado unívoco, como no discurso estritamente intelectual, mas alegorias que evocam e tornam inteligível uma situação a rigor inarticulável, ao passo que para quem nunca passou por essa experiência bruta as palavras precisam ser tomadas como símbolos exatos, e desse ponto de vista o esforço de intelectualizar a situação deve ser considerado fracassado.

11. Essa constatação ilumina o modo como o intelecto se encontra encarcerado em si mesmo.

12. A descrição é intelectualmente insatisfatória porque, como toda alegoria, recai no antropomorfismo ao apresentar três personagens, quase três deuses, o Eu, o Intelecto e a Vontade, aproximando-se perigosamente da mitologia.

13. Embora a própria ciência não dispense personificações alegóricas como a Lei, a Hereditariedade ou o Consumidor, a desmitologização continua sendo um ideal da disciplina intelectual, de modo que é forçoso reconhecer que a situação da concentração é, a rigor, intelectualmente impenetrável e inarticulável.

14. Ainda assim, alguns aspectos dessa situação são articuláveis, pois, se o Eu e a Vontade devem ser expulsos da discussão por não admitirem nada intelectualmente satisfatório, o Intelecto pode ser plenamente desmitologizado, uma vez que na alegoria foi antes coisificado que personificado, bastando desmaterializar a imagem do tear e dos fios para obter uma descrição simbólica e exata, segundo a qual o intelecto é o campo no qual ocorrem pensamentos, conceito de campo que, embora possa parecer alegórico, é empregado pela ciência exata em outro nível de significado.

15. Sem necessidade de ser mais realista que o rei, essa descrição do intelecto é mantida como hipótese operante.

16. Descrever o intelecto como campo no qual ocorrem pensamentos leva a dúvida cartesiana ao menos um passo adiante, autorizando a substituir a afirmativa “Penso” por “Pensamentos ocorrem”, já que o método cartesiano prova apenas a existência de pensamentos e nunca a de um Eu que pensa, revelando-se o “Penso, portanto sou”, abreviação de “Há um Eu que pensa, portanto há um Eu que é”, uma afirmativa pleonástica além de duvidosa.

17. O intelecto assim descrito é um conceito ao mesmo tempo mais restrito que o Eu, porque o Eu não se esgota no pensar e também quer, e mais amplo, porque nem mesmo um Super-Eu que abrangesse todos os Eus individuais cobriria todo o campo onde ocorrem pensamentos, como mostram os pensamentos produzidos mecanicamente por instrumentos eletrônicos, razão pela qual o Eu, além de duvidoso, deve ser eliminado da consideração do intelecto pelo princípio de economia da navalha de Occam, ideal ainda dificilmente realizável dado o apego atual ao conceito de Eu, mas cuja libertação já não é reservada aos místicos e se mostra alcançável pela especulação intelectual.

18. Concebido como campo, o intelecto torna sem sentido a pergunta “O que é o intelecto?”, pois um campo não é um quê, mas a maneira como algo ocorre, tal como o campo gravitacional é o modo de comportamento dos corpos relacionados com a Terra, de modo que o intelecto é a estrutura dentro da qual e segundo a qual os pensamentos ocorrem, sem dignidade ontológica fora deles e sem que haja pensamentos fora dele, sendo aquela pergunta tão ingênua e metafísica quanto “O que é Beleza?”, armadilha em que caem intelectualistas e anti-intelectualistas, enquanto a pergunta que se impõe, e da qual depende a compreensão do intelecto, é “O que é um pensamento?”.

19. Do ponto de vista ocidental tradicional, o pensamento aparece como fenômeno psicológico dado íntima e imediatamente, mas contemplado no exercício da concentração apresenta-se como fenômeno externo, coisa entre as coisas do mundo, uma teia densa e opaca interposta entre o Eu e a realidade que ao mesmo tempo tapa, apresenta e representa essa realidade, deixando passar sua luz apenas refratada e peneirada, o que corresponde ao triplo sentido do alemão vorstellen, à Vorstellung que Schopenhauer opõe à vontade e ao véu de ilusões que o ensinamento hindu chama Maya e manda rasgar.

20. Esse ponto de vista de dentro para fora permite uma apreciação objetiva do pensamento, tomado como objeto e não como sujeito da contemplação e, portanto, como fenômeno no sentido husserliano, algo a ser intencionado e investigado, revelando-se então que o pensamento não é simples, mas um complexo de elementos chamados conceitos organizados segundo regras fixas chamadas lógica, isto é, uma organização lógica de conceitos.

21. O pensamento revela-se ainda um processo em dois sentidos: primeiro, como busca estética de sua própria completação e de uma forma, cuja realização lhe confere a aura vivencial de satisfação e de obra de arte perfeita chamada significado; segundo, como processo autorreprodutivo que gera automaticamente novos pensamentos, encadeados em fios que formam o tecido do pensar, já que mesmo o pensamento completo e significante carrega um dinamismo interno que o impede de repousar em si e o leva a superar-se e abandonar-se, e a forma desse abandono que produz novos pensamentos também se chama lógica, conceito portanto ambivalente que designa tanto as regras pelas quais o pensamento se completa quanto as regras pelas quais se multiplica.

22. A teia dos pensamentos pode então ser concebida como conjunto dinâmico de organizações de conceitos que ao mesmo tempo esconde e revela a realidade, apresentando-a ao Eu deformada pelas próprias regras do pensar, de modo que a realidade aparece como aparece porque assim é construída a teia e a realidade em si permanece inalcançável, concepção em que a teia corresponde à razão pura de Kant e suas regras às categorias kantianas.

23. Essa concepção, habitual na discussão filosófica clássica, embora pareça crítica e admita limites do intelecto, continua operando com a ideia de conhecimento como adequação do intelecto à coisa, adequação que nega em suas premissas, pois, movida por fé ingênua no intelecto, supõe que a realidade em si transparece, ainda que deformada, através da teia dos pensamentos, ao mesmo tempo que declara impossível qualquer afirmação sobre ela, razão pela qual precisa ser abandonada.

24. Abandonada essa concepção, vislumbra-se a força que impele a teia dos pensamentos, concebível como um único superpensamento enorme em busca de completação e, por estar incompleto, ainda sem significado, sendo essa força a busca do significado, busca absurda porque frustrada pelo próprio caráter do pensamento, de modo que os significados dos pensamentos individuais se tornam secundários e parasitários, significantes apenas no contexto da teia cuja expansão alimentam e insignificantes diante do significado último inalcançável, sem que o abandono da fé nesse significado último implique abandonar o uso pragmático dos significados particulares, reação de tudo ou nada em que reside o erro e o primitivismo dos anti-intelectualistas.

25. À luz dessas considerações, a teia dos pensamentos é um conjunto dinâmico de organizações de conceitos que esconde a realidade no esforço de finalmente revelá-la, uma busca da realidade que começa por abandoná-la e, portanto, um esforço absurdo idêntico à dúvida, de modo que o intelecto, descrito como campo no qual a teia dos pensamentos se expande, pode ser definido de forma condensada como o campo da dúvida.

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