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Religiosidade

FLUSSER, Vilém. Da religiosidade: A literatura e o senso do sagrado. São Paulo: Com-Arte / Editora da Universidade de São Paulo, 1967.

Os pequenos ensaios que perfazem o presente volume foram publicados em diversas revistas. Os ensaios de número 1,2, 3, 6, 8, 9, 11, 14, 15, 16 e 17 saíram no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo. O número 4 saiu na Revista Brasileira de Filosofia, e o número 5 na Revista do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, Depto. de Humanidades. Os números 7 e 10 saíram na revista Comentário. O número 12 no Diálogo e o 13 na Revista Brasileira de Cultura, editada em Madrid. A escolha dos ensaios obedeceu a um critério vagamente temático, que é o seguinte: a literatura, seja ela filosófica ou não, é o lugar no qual se articula o senso de realidade. E “senso de realidade” é, sob certos aspectos, sinônimo de “religiosidade”. Real é aquilo no qual acreditamos. Durante a época pré-cristã o real era a natureza, e as religiões pré-cristãs acreditam nas forças da natureza que divinizam. Durante a Idade Média o real era o transcendente, que é o Deus do cristianismo. Mas a partir do século XV o real se problematiza. A natureza é posta em dúvida, e perde-se a fé no transcendente. Com efeito, nossa situação é caracterizada pela sensação do irreal e pela procura de um senso novo de realidade. Portanto, pela procura de uma nova religiosidade. Este o tema dos ensaios escolhidos.

O primeiro ensaio procura localizar o tema. O segundo e o terceiro procuram mostrar como o tema surgiu com o Renascimento. Ο quarto e o quinto representam um esforço de formular um novo senso de realidade, tomando como real a língua. Representam portanto a minha filosofia. Os ensaios 6, 7 e 8 tratam da realidade como aparece em Kafka. Os números 9 e 10 tentam articular a realidade do existencialismo, e mais especialmente a camusiana. A partir daí focalizo a cena da literatura brasileira. Os ensaios 11, 12, 13 e 14 se batem com e contra a filosofia de Vicente Ferreira da Silva, que é uma filosofia em busca de uma realidade. O ensaio n° 15 trata da poesia concreta, que é uma técnica de criar nova língua, portanto nova realidade. Os últimos dois ensaios têm por tema a obra de Guimarães Rosa, que alia a técnica realizadora do concretismo com uma religiosidade transcendente. A presente coleção de ensaios procura portanto mostrar como a tendência ocidental em direção de uma nova religiosidade se manifesta produtivamente na cultura brasileira. É neste sentido que pode ser tomada como um esforço em prol da elaboração de uma filosofia da literatura brasileira.

Reunir estes ensaios sob a forma de um livro é tentar salvá-los do efêmero que é próprio de toda Revista. Espero que esta contribuição modesta seja útil à discussão geral do que é a civilização brasileira.


  • Apresentação
  • Introdução
  • 1. Da religiosidade
  • 2. Por que e para quê?
  • 3. Coincidência incrível
  • 4. Pensamento e reflexão
  • 5. Da dúvida
  • 6. Praga, a cidade de Kafka
  • 7. Esperando por Kafka
  • 8. Do funcionário
  • 9. Em louvor do espanto
  • 10. O tema exclusivo
  • 11. Vicente Ferreira da Silva
  • 12. O projeto
  • 13. Literatura brasileira de vanguarda?
  • 14. Resenha
  • 15. Concreto-abstrato
  • 16. O «lapa» de Guimarães Rosa
  • 17. Do poder da língua portuguesa
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