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Hegel e Kierkegaard

FIGAL, G. Introdução à Martin Heidegger. Tradução: Tr Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2016.

O início com Hegel e com Kierkegaard

  • A permanência de Heidegger como figura marginal seria provável caso tivesse morrido na Primeira Guerra Mundial como Emil Lask, dado que sua dissertação de 1913 sobre a Doutrina do juízo no psicologismo e sua tese de habilitação de 1915 sobre Duns Scoto não revelam ainda autonomia filosófica, embora já contenham, retrospectivamente, motivos centrais como a experiência da história e a experiência não mascarada da própria vida ou do ser-aí (Dasein)
  • O destino original de Heidegger era a teologia, não a filosofia, nascido em 1889 em Meßkirch, no Baden, filho de sacristão e criado em ambiente católico rigoroso
    • A conversão às tendências filosóficas ocorre já no primeiro semestre de estudos em Friburgo (1909/10), quando se ocupa das Investigações lógicas de Husserl
    • A familiarização com o neokantismo se dá sobretudo através do mestre Heinrich Rickert
  • O recurso à doutrina medieval das categorias e do significado, na tese de habilitação, aproveita as pesquisas contemporâneas para tratar de modo original os problemas categoriais medievais
    • A comparação com Hegel se impõe, pois nas Lições sobre a história da filosofia Hegel já mostrava como uma interpretação atenta à problematicidade terminológica de sua época permite reabrir os textos da tradição
    • A diferença de acentuação em relação a Hegel recai sobre o vínculo entre filosofia e história
  • A função de modelo exercida por Hegel se evidencia no fechamento explícito do escrito de habilitação, no qual se discute o problema das categorias como determinações universais do objeto em sua objetualidade
    • As categorias, como determinação mais geral do objeto, só podem ser adequadamente elaboradas se levado em conta o papel essencial do sujeito, pois objeto e objetualidade têm, como tais, sentido unicamente para um sujeito
    • A influência das Investigações lógicas de Husserl se manifesta na ênfase sobre a estrutura intencional dos atos de consciência
  • O sujeito dos atos intencionais não se deixa compreender apenas como sujeito no sentido da teoria do conhecimento, crítica dirigida tanto ao neokantismo quanto a Husserl, já que a compreensão dos objetos é sempre também uma ação viva, significativa e realizadora de significado
  • A questão teórico-cognitiva das categorias exige um contexto mais amplo, no qual determinações históricas da subjetividade substituem as meramente teórico-cognitivas, dado que o passado só é compreensível a partir do presente
  • O afastamento heideggeriano do contexto husserliano se dá porque a história não representava, para Husserl, o tema de uma filosofia rigorosa, levando Heidegger a retomar programaticamente o conceito hegeliano de espírito
    • A citação heideggeriana afirma que o espírito vivo é, como tal, por essência espírito histórico no sentido mais amplo do termo, e que a compreensão do espírito depende de assumir toda a riqueza de suas prestações, ou seja, sua história, fornecendo um meio continuamente crescente para a compreensão viva do espírito absoluto de Deus
  • A convicção hegeliana de que os fatos passados do pensamento constituem o resultado do trabalho de todas as gerações passadas do gênero humano sustenta a concepção de uma história da filosofia
  • A historicidade do filosofar não conduz, em Hegel, a uma relativização historiográfica do pensamento presente, pois a continuidade da história da filosofia repousa sobre aquilo que de comum permanece invariável, tornando o pensamento presente autoconsciência absoluta e desvelamento divino, tal como ele se conhece a si mesmo
  • O projeto hegeliano de uma história da filosofia coincide com o projeto de uma filosofia da história filosófica, na qual o conceber do próprio desenvolvimento está para além do tempo e exibe a verdade do espírito absoluto, o que permite traduzir o pensamento de Hegel na linguagem de uma teologia especulativa
  • O ponto de referência para esclarecer o deslocamento de acento operado por Heidegger está no pensamento de um espírito inteiramente transparente a si mesmo, que Heidegger ao mesmo tempo avança e retira
    • Heidegger não concebe o presente como realidade efetiva de um espírito absoluto, mas apenas como aproximação progressiva ao absoluto, sendo o desenvolvimento histórico do espírito uma riqueza eternamente crescente, sem meta de cumprimento no presente
  • A renúncia heideggeriana a traduzir a filosofia em teologia especulativa transforma-se a favor do particular e do individual, cuja vitalidade contemplativa e compreensiva não tem os traços de uma autoconsciência absolutamente transparente, mas o caráter da unicidade e da individualidade temporais
    • Em Hegel o ponto de vista do indivíduo é caracterizado como estar no interior do todo como cegos, enquanto Heidegger determina a estruturação fundamental do espírito vivo incluindo singularidade e individualidade dos atos com a universalidade
    • O significado da vida individual permanece, para Heidegger, o absoluto, Deus, ao qual só o indivíduo tem acesso, pois a experiência do absoluto repousa sobre o indivíduo
  • A individualização da experiência de Deus revela a dívida de Heidegger para com o crítico mais radical de Hegel, o escritor religioso Sören Kierkegaard
    • No semestre de inverno de 1921/22, Heidegger abre suas aulas com citação dos Exercícios sobre o cristianismo de Kierkegaard, com indicação da fonte acompanhada de implícito agradecimento
    • O propósito heideggeriano de vincular a insistência kierkegaardiana na individualidade da fé ao programa hegeliano de filosofia histórica se anuncia no fecho do escrito de habilitação, no projeto de uma filosofia do espírito vivo, do amor operante e da adorante intimidade com Deus
  • A ausência de resposta clara sobre como conciliar as vozes de Hegel e Kierkegaard permite, ainda assim, esboçar uma solução: a riqueza crescente do espírito histórico como aproximação ao espírito absoluto de Deus se combina com a ideia kierkegaardiana de que a filosofia só pode indicar a direção da experiência autêntica e individual da fé
  • O sentido concreto dessa articulação aparece no tratamento heideggeriano da visão de mundo medieval, vista como imagem contrária à própria época
    • A possibilidade e a riqueza da experiência vivida, condicionadas pela dimensão da alma voltada à realidade transcendente, contrastam com a vastidão de conteúdo destinada a perder-se, própria da vida atual
    • A citação heideggeriana afirma que, no atual horizonte existencial, as possibilidades de insegurança crescente ou desorientação completa são muito maiores, enquanto, ao contrário, a estruturação fundamental da forma de vida do homem medieval já a priori não está destinada a perder-se na vastidão de conteúdo da realidade sensível
    • A aparência de crítica conservadora da cultura, evocando uma vida passada plena de sentido, sugere traços de antimodernismo, aversão à civilização, irracionalismo e reservas contra a autonomia da vida emancipada pelo Iluminismo
  • A simplicidade dessa leitura não se sustenta, pois Heidegger reconhece que a Weltanschauung medieval não pode servir de modelo ao presente, tratando-a antes como objeto de pesquisa histórica sujeita a condições próprias de acesso
    • O interesse heideggeriano recai sobre a falta de uma verdadeira fundamentação conceitual e cultural-filosófica na discussão histórica do medievo, alcançável apenas por uma abertura de inteligência simpática conforme ao tempo passado
    • O elemento comum entre presente e passado reside na estrutura fundamental do espírito vivo, ainda que historicamente individualizada
  • A atribuição, ao herói medieval do escrito de habilitação, de uma disposição a uma segura atenção para a vida imediata da subjetividade parece retomar Hegel, mas a ausência de meta no presente afasta a autoconsciência absolutamente transparente, restando apenas a aproximação ao absoluto e a fadiga que sempre recomeça
  • A fadiga filosófica encontra no presente um tempo propício, ligado ao cumprimento de tarefas de dissolver de sua rigidez o conteúdo sistemático da escolástica medieval
    • A diferença em relação a Kierkegaard consiste em que a filosofia, para Heidegger, não deve ser guia que se anula diante do salto na fé, mas antes fazer valer a vida individual em cuja estrutura fundamental se encontra a relação da fé com a transcendência
    • O interesse pela fé e pela religião, sem acesso direto a ela, torna-se constitutivo do interesse pela subjetividade, que se articulou historicamente na fé
  • O deslocamento radical da relação entre filosofia e história, em face da concepção hegeliana, elimina o lugar de uma tradução da filosofia em teologia especulativa, fazendo do pensamento filosófico articulação do particular sempre histórico
  • O trabalho preparatório de Kierkegaard, na obra A doença para a morte, com o conceito de si mesmo, antecipa a estrutura fundamental da individualidade
    • A visão do compreender histórico como algo distinto da superação de uma particularidade passada na universalidade de uma autoconsciência absoluta já fora reconhecida por Wilhelm Dilthey, cujo mérito de ver claramente o significado do singular Heidegger explicitamente admite
    • A citação da Introdução às ciências do espírito de Dilthey (1883) afirma que é somente na autorreflexão que se encontra a unidade vital e sua continuidade em nós

Uma pergunta retrospectiva a Aristóteles

  • A gênese do texto programático Interpretações fenomenológicas de Aristóteles, de 1922, remonta à expectativa de Heidegger de ser chamado para a cátedra de filosofia em Marburgo ou Göttingen
    • A ausência de publicações após a tese de habilitação levou à redação do rascunho sobre Aristóteles
    • A escolha final recaiu sobre Marburgo, onde Heidegger assumiu a vaga no verão de 1923 e tornou-se catedrático efetivo no semestre seguinte
  • O rascunho retoma e articula conceitualmente as lições anteriores, antecipando determinações essenciais que serão retomadas de modo mais desenvolvido em Ser e tempo
  • A referência de Heidegger a Franz Brentano, cuja obra Sobre os múltiplos sentidos do ente em Aristóteles (1862) serviu de único apoio para seus primeiros desajeitados tentames de introduzi-lo à filosofia, explica a centralidade de Aristóteles e de Tomás de Aquino nos estudos teológicos de Heidegger
    • A citação do rascunho afirma que a doutrina de Deus, da Trindade, do estado natural, do pecado e da graça na escolástica tardia foi elaborada com os meios conceituais fornecidos por Tomás de Aquino e Boaventura, fundando-se na Física, Psicologia, Ética e Ontologia de origem aristotélica
  • A diferença em relação ao escrito de habilitação está em que a visão medieval do mundo já não é indagada pela abertura à imediatidade da vida subjetiva, mas como interpretação da vida mediada por uma tradição precisa
  • A mediação pela tradição faz da articulação da vida presente uma interpretação interrompida e inautêntica da vida, situação que a filosofia da situação atual partilha com a medieval, movendo-se em grande parte de modo inautêntico num contexto de conceitos gregos alterados
    • A citação heideggeriana observa que os fenômenos fundamentais perderam suas originárias funções expressivas, plasmadas sobre regiões de objetos, fruto de experiências bem determinadas
  • A impossibilidade de recorrer a Hegel, nesse estágio, conduz à necessidade de questionar radicalmente a tradição pós-grega recorrendo a Aristóteles
  • A escolha de Aristóteles, e não de Platão, se justifica pela hipótese de que Aristóteles representa o cumprimento e a real coroação da filosofia precedente ou, alternativamente, alcançou na Física uma nova posição problemática fundamental, determinante para a antropologia filosófica
  • A concepção aristotélica do homem e do ser-aí tem por objeto a vida em sua estrutura fundamental, tal como se mostra a partir de si mesma, o que em grego se diz phainómenon (fenômeno), definindo a filosofia aristotélica como antropologia fenomenológica radical
  • A questão de como o leitor posterior pode compreender nos textos aristotélicos aquilo que neles deve ser compreendido permanece em aberto, pois a estrutura fundamental da vida precisaria já estar autenticamente compreendida
  • A convicção heideggeriana sustenta que os conceitos fundamentais da filosofia, apesar de terem perdido sua função expressiva originária, conservam ainda uma precisa marca da origem, remetendo às suas fontes objetivas na filosofia aristotélica
  • O significado peculiar atribuído a Aristóteles decorre de sua posição como início de toda filosofia posterior, momento em que ainda não existe tradição capaz de tornar autônomos os conceitos fundamentais
  • A pesquisa filosófica é caracterizada como, em sentido radical, conhecer histórico, na medida em que compreende o caráter objetivo e o modo de ser de seu tema
  • O conhecer histórico heideggeriano se opõe ao modelo hegeliano, pois o presente é caracterizado por sua imperscrutabilidade, e o passado não depende de uma autoconsciência transparente do presente
    • A citação do rascunho descreve a pesquisa histórico-filosófica como colocada diante da tarefa de decompor o contexto interpretativo tradicional dominante em seus motivos ocultos, procedimento que Heidegger denomina destruição (Destruktion)
  • O acerto de contas com as posições do escrito de habilitação revela que a particularidade e individualidade do compreender fazem emergir sempre um não-compreender, situando a vida presente na contingência histórica da tradição
    • A citação afirma que a pesquisa filosófica, em seu caráter ontológico, não é algo que uma época possa tomar emprestado de outra
  • A história da filosofia, no sentido heideggeriano, não é a sequência de articulações do tramandado, mas possibilidade de interrogar retrospectivamente o início da tradição, sendo a crítica da tradição sempre crítica do presente
    • A citação esclarece que a crítica nascida da destruição não recai sobre o fato de nos encontrarmos numa tradição, mas sobre o modo como nos encontramos nela
    • A destruição é descrita como o verdadeiro caminho, ao longo do qual o presente deve reencontrar-se em suas próprias motilidades fundamentais
  • A reciprocidade entre vínculo e libertação em face da tradição se expressa no conceito heideggeriano de motilidades fundamentais, que designam modalidades de realização da própria vida
  • A pergunta retrospectiva sobre o início não conduz a uma teoria filosófica pronta, mas confronta quem pergunta com a tarefa de apropriar-se radicalmente das possibilidades fundamentais de experiência
  • A escuta da imediatidade da vida subjetiva permanece o tema inicial de Heidegger, mas agora só é possível como escuta do início da tradição, um prestar ouvidos que não é servidão ao pensamento inicial
  • A particularidade do passado, à qual Aristóteles não escapa, é reconhecida como aspecto essencial da apropriação da história
    • A citação do rascunho afirma que a compreensão radical de uma pesquisa filosófica passada implica submeter os modelos ideais assumidos à crítica mais radical e cortante, pois o ser-aí fatual é o que é, sempre e somente enquanto ser-aí determinado
  • A universalidade da estrutura fundamental do ser-aí fatual não permite recorrer diretamente às determinações aristotélicas, respondendo-se a elas apenas com uma crítica mais sutil, transformada em proveitosa inimizade entre o primeiro início e o novo início
  • O primeiro início e o novo início são momentos dinâmicos do conhecer histórico, no qual método e objeto coincidem no ato mesmo de perguntar, distinguindo-se de Hegel por reter a tensão entre os particulares
  • O conceito mais importante derivado dessa concepção é o de hermenêutica fenomenológica da faticidade (Faktizität), a ser esclarecido a partir das lições de Ontologia — hermenêutica da faticidade, do semestre de verão de 1923
  • A faticidade designa o caráter de ser do nosso próprio ser-aí, no sentido do ser-de-cada-vez
    • A citação define que o ser-aí, conforme o ser em seu caráter de ser, nos é, não como objeto de intuição sensível, mas para si mesmo no como de seu ser mais próprio
  • A faticidade remete à particularidade temporal da própria vida como fato irredutível, distinto do fato concreto constatável, associando-se ao termo ser-aí, que passa a preferir-se ao termo vida a partir das lições Prolegômenos à história do conceito de tempo (1925)
    • O ser-aí, lido como infinitivo verbal, indica que há vida somente na medida em que ela é vivida, remetendo à motilidade já referida no rascunho sobre Aristóteles
  • A associação heideggeriana de ser-aí a deter-se, não ir embora e estar-presente-junto indica atenção voltada à própria particularidade temporal, em oposição a não estar junto de si
    • O decaimento (Verfallen), já nomeado no rascunho sobre Aristóteles, designa o querer manter o vínculo obrigatório com a tradição, mantendo-se assim uma modalidade do próprio ser-aí
  • O decaimento só é possível quando a situação particular própria está situada no presente, sendo ele mesmo uma modalidade do ser-aí
    • A citação afirma que, no afastar-se de si, a vida está presente a si mesma, e que o perder-se em algo tem em si mesmo um mais ou menos explícito e inconfessado respeito por aquilo diante do qual foge
  • O movimento entre permanecer preso à tradição e distanciar-se dela é articulado, no rascunho aristotélico, por meio dos conceitos que circunscrevem a estrutura da vida histórica
    • A citação descreve o ser da vida, acessível na própria faticidade, como algo que só se torna visível através do contramovimento que se opõe à tendência decadente do cuidado
    • O termo existência (Existenz) articula as duas motilidades fundamentais da faticidade em que consistimos
  • A hermenêutica, tal como definida por Heidegger, é uma determinada unidade na execução do hermeneüein (interpretar), interpretação da faticidade que leva ao encontro, à vista, à apreensão e ao conceito, sendo também o estar-desperto do ser-aí em relação a si mesmo
  • A explicitação hermenêutica da faticidade completa-se quando se explicitam tanto o decaimento no âmbito das sombras conceituais quanto o perguntar genuíno
  • A denominação fenomenológica da hermenêutica da faticidade remete ao termo tomado de Husserl, cujo programa de uma lógica pura, nas Investigações lógicas, buscava descrever os objetos próprios da investigação lógica tal como se dão originariamente na consciência
    • A citação de Husserl esclarece que não se trata de discussões gramaticais em sentido empírico, mas de uma fenomenologia pura dos vividos do pensamento e do conhecimento
  • A correspondência entre a intuição husserliana e o prestar ouvidos heideggeriano à imediatidade da vida subjetiva, de um lado, e entre a descrição husserliana e a hermenêutica heideggeriana, de outro, evidencia a transposição do programa fenomenológico das vivências conceituais para uma fenomenologia do conhecer histórico e do ser-aí
  • A origem grega do termo fenômeno, de phainómenon (o que se mostra) e phainestai (mostrar-se), é explicitada por Heidegger como aquilo que se mostra como se mostrando, sem representação indireta
    • A citação define o fenômeno como o modo do ser-objetual de algo, o estar-presente por si mesmo de um objeto
  • A adequação da fenomenologia ao propósito heideggeriano decorre de que a vida, enquanto ser-aí, é caracterizada pela autodação, tornando o ser-aí o objeto perfeito e único da fenomenologia
  • A presença peculiar do ser-aí, impenetrável e alcançável apenas historicamente pelo desvio da destruição, é estranha a Husserl e central em Heidegger
    • A citação afirma que, se ao caráter de ser do ser que é objeto da filosofia pertence um ser-fechado no modo do esconder-se e do velar-se, então a tarefa de trazer ao fenômeno torna-se aqui radicalmente fenomenológica
  • A definição de fenômeno em Ser e tempo pergunta o que merece o nome de fenômeno em sentido característico, remetendo ao que se manifesta antes de tudo e na maioria das vezes e que exprime o sentido e o fundamento
  • A identidade entre fenomenologia e hermenêutica da faticidade se confirma quando Heidegger afirma, em Ser e tempo, que o lógos da fenomenologia tem o caráter do hermeneuein
  • A retomada do termo fenomenologia de Husserl constrói uma ponte para as questões aristotélicas, das quais crescem lógica e ontologia a partir da nova posição problemática fundamental
    • A citação do rascunho afirma que a problemática da filosofia diz respeito ao ser da vida fatual, sendo a filosofia ontologia primeira e, enquanto interpretação categorial do apelar e do interpretar, também lógica
  • O deslocamento anunciado nessa concepção da lógica, que já não trata a filosofia apenas como expressão e descrição da faticidade, mas como interpretação do apelar e do interpretar, conduz a uma crise da compreensão filosófica heideggeriana, da qual Ser e tempo é sintoma
  • A relação entre filosofia e religião, dominante no escrito de habilitação, não desaparece no projeto sobre Aristóteles, mas se transforma: a filosofia decidida a apreender a vida fatual em sua possibilidade ontológica determinante deve ser fundamentalmente ateia
  • O sentido dessa caracterização é esclarecido em nota de rodapé: ateia não designa uma teoria como o materialismo, mas o afastar-se em relação à ideia de Deus como levantar a mão contra Deus, o que significa manter-se livre da aliciante ocupação de falar apenas de religiosidade
  • A aparente inconciliabilidade radical entre filosofia e religião não elimina o vínculo entre ambas, retomado por Heidegger a partir de Kierkegaard, cuja análise do si mesmo e das formas de desespero, atribuída ao pseudônimo Anti-Climacus na obra A doença para a morte, reconhece nessa consideração o pecado cristão
  • A caracterização da filosofia como levantar a mão contra Deus é mais radical que a noção kierkegaardiana de pecado, pois configura uma alternativa entre vida e morte para a vida filosófica
    • A antropologia teológica de Agostinho, com sua ideia do homem e do ser-aí remetendo à filosofia grega, à teologia patrística e à antropologia paulina e joanina, entra no raio de ação do programa de destruição
    • A referência à Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor. 1, 19-25), segundo a qual o que os gregos buscavam tornou-se loucura diante da cruz, integra-se a essa mesma crítica
  • O significado dessa discussão para Heidegger revela-se na mudança que ela impõe ao programa de destruição, conduzindo por fim a uma visão da filosofia como contramovimento problemático em relação à religião
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