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estudos:fabris:2009:filosofia

O que é a filosofia?

FABRIS, Adriano; CIMINO, Antonio. Heidegger. Roma: Carocci, 2009.

A estrutura do pensamento heideggeriano

O que é a filosofia?

  • 1. O confronto heideggeriano com as formas tradicionalmente assumidas pela filosofia, sobretudo em sua configuração metafísica, implica a necessidade, cada vez mais premente a partir dos anos trinta, de superar a filosofia mediante um autêntico ultrapassamento da metafísica (Überwindung der Metaphysik), num esforço que se converte na intenção de distorcer os conceitos fundamentais herdados do passado a fim de restabelecer o pensamento do mal ao qual certa prática filosófica o conduzira.
    • Tal empreendimento acarreta, sobretudo, a exigência de elaborar positivamente, para além dos resultados da filosofia tradicional, novas formas de reflexão voltadas ao futuro.
  • 2. Impõe-se, em síntese conclusiva, definir com maior precisão a proposta heideggeriana em seu conjunto, articulando as estruturas de seu pensamento sempre em relação com a tradição filosófica, de modo a identificar os espaços em que uma nova estética, uma nova lógica, uma nova ética e, de modo mais amplo, um novo pensamento possam ser elaborados, delineando-se para além da filosofia outras possibilidades de investigação numa direção distinta daquela experimentada no passado.
  • 3. A busca de novos horizontes para o pensamento constitui tarefa própria assumida com grande intensidade e rigor, ao ponto de comprometer o próprio equilíbrio psicológico, sustentada pela convicção de poder confrontar-se em igualdade de condições com os grandes pensadores de todas as épocas, isolados entre si como os cumes das montanhas mais elevadas, mas capazes, a partir dessas alturas, de reconhecerem-se mutuamente e de compreender o essencial do pensamento de cada um.
    • Nessa experiência de radicalização e de confronto sem preconceitos, firma-se a persuasão de que é possível, senão mesmo necessário, renunciar dentro de certos limites à ideia de filosofia legada pela tradição, o que conduz ao anúncio do fim da filosofia (das Ende der Philosophie).
  • 4. O anúncio do fim da filosofia não significa afirmar que o pensamento esgotou sua função, mas antes implica a persuasão de que é possível indicar novos horizontes de investigação, superando assim as dificuldades que afligiram as tentativas do passado e penetrando o fundo das questões tradicionais mediante a identificação de seus pressupostos, movimento que se estende não apenas a Platão, Hegel e Husserl, mas também a Aristóteles e Kant.
  • 5. Proclamar o fim da filosofia significa, portanto, não tanto assinalar o encerramento de uma história, quanto assumir conscientemente uma nova tarefa: a de redefinir a própria filosofia, tarefa realizada mediante a indicação e a prática de outros modos de pensar.
    • Pretende-se eliminar certas barreiras nas quais a reflexão do passado se encerrara, criticando distinções mantidas indevidamente firmes, como aquelas entre filosofia e poesia, entre lógica e linguagem, entre teoria e práxis.
    • Busca-se transformar o próprio pensamento em experiência, tornando-o capaz de apreender as formas nas quais o ser (Sein) se manifesta e se reflete nos entes (Seiende), abrindo assim novas formas de relação com tudo o que é.
    • Sustenta-se, sobretudo, a diferença entre ser e ente, a diferença ontológica (ontologische Differenz), condição única para um autêntico confronto com o niilismo europeu, resultado inevitável da tradição metafísica, e para a identificação de novas modalidades de sentido para o pensamento.
  • 6. Aprofundam-se, em sede conclusiva, os percursos heideggerianos voltados à elaboração de um novo pensamento, o pensamento do sentido (Sinn) e do evento (Ereignis), fornecendo-se um quadro sinótico dos motivos fundamentais que caracterizam, ao longo da obra, a investigação de Heidegger em suas diversas fases, mediante a análise dos principais aspectos da tentativa heideggeriana de pensar de outro modo: uma nova estética, uma nova lógica, uma nova ética e, em síntese, um novo pensamento.
  • 7. O uso de aspas ao mencionar “estética”, “lógica” e “ética” justifica-se por sublinhar a diferença da abordagem heideggeriana em relação aos modos tradicionais de pensar os mesmos problemas, isto é, à metafísica ocidental (abendländische Metaphysik), categoria empregada por Heidegger de modo talvez demasiado genérico, ressalvando-se que, uma vez evidenciada essa intenção, bastará o uso do adjetivo novo para indicar o esforço heideggeriano de abrir ulteriores possibilidades de reflexão para o homem.
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