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estudos:fabris:2004:4.4

4.4 Temporalidade e cotidianidade

FABRIS, Adriano. Essere e tempo di Heidegger: introduzione alla lettura. Roma: Carocci, 2004.

A interpretação temporal dos momentos do cuidado

  • 4.4.1. Mostrado, no § 65, que as três êxtases do porvir, do ser-já-sido e do presentificar constituem o sentido do ser do ser-aí, indica-se, no § 67, a necessidade de interpretação temporal dos singulares momentos do cuidado, analisando-se a temporalidade da abertura em suas diferentes articulações (§ 68), o sentido temporal do ser-no-mundo (§ 69) e da espacialidade do ser-aí (§ 70), delineando-se somente então a constitutiva referência ao tempo da existência própria da cotidianidade (§ 71).
  • As modalidades da abertura já indagadas no capítulo quinto da primeira seção — disposição afetiva, compreensão, discurso e decadência — são retomadas em ordem invertida, da compreensão à disposição afetiva e da decadência ao discurso, devendo tais estruturas ser reconduzidas às diversas êxtases da temporalidade em sua ordem própria: o porvir predominando na compreensão, o ser-já-sido na disposição afetiva e o presentificar na decadência e no discurso.
  • Além de rastrear o sentido temporal dos múltiplos aspectos da abertura, pretende-se distinguir, em cada uma dessas manifestações, as formas autênticas da temporalidade das inautênticas, obtendo-se assim elementos para a discussão do conceito ordinário de tempo reservada ao capítulo sexto.
  • A temporalidade da compreensão rastreia-se primariamente no porvir, que possibilita ontologicamente um ente que, compreendendo, existe em seu poder-ser, indicando o termo precorrimento o porvir autêntico, a partir do qual o ser-aí pode alcançar-se a si mesmo como poder-ser, e o aguardar (Gewärtigen) o porvir inautêntico segundo o qual o ser-aí se relaciona consigo esperando que tal relação lhe seja concedida ou negada pelos entes de que cuida, sendo apenas a partir desse aguardar-se algo para si que o ser-aí é capaz de esperar (erwarten) e permanecer à espera de (warten auf) algo.
  • Sendo a compreensão primariamente permeada pelo porvir, é ela também cooriginariamente determinada pelo presente e pelo ser-já-sido: o presente autêntico em que, compreendendo, a resolução abre a situação em que o ser-aí se encontra lançado é o instante (Augenblick), não devendo ser confundido com o agora (das Jetzt), modalidade inautêntica de presente fixado e concebido como mensurável, sendo antes o modo pelo qual a extaticidade do ser-aí, seu constitutivo ser-arrebatado a outro (Entrückung), é conquistada e mantida, em virtude da resolução, na situação concreta.
  • Quanto ao ser-já-sido específico da compreensão, manifesta-se, autenticamente, na repetição (Wiederholung), e, inautenticamente, no esquecimento: na resolução o ser-aí compreende-se como mortal e assume-se naquilo que já sempre é, dando-se nessa assunção a retomada, a repetição, do próprio ser fático, ao passo que, fugindo de si e perdendo-se nas relações intramundanas, o ser-aí se relaciona consigo na modalidade temporal do esquecimento, a partir da qual somente pode ser pensado o recordar.
  • Análogo aprofundamento é realizado, no § 68b, quanto à temporalidade da disposição afetiva, sendo o ser-já-sido a modalidade primária, caracterizando-se emoções, estados de ânimo e sentimentos por espécie de reconduzir-a, mostrado primeiro mediante análise do medo, que evidencia as modalidades inautênticas do esquecer que aguarda e presentifica algo, e depois mediante tratamento da angústia, que reconduz o ser-aí à sua faticidade infundada, a seu ser-lançado, e simultaneamente à possibilidade autêntica de sua repetição, retomar-se, no instante, em virtude do precorrimento da morte, da dispersão mundana.
    • Ressalta-se ainda a reflexividade própria do sentir — sentir é sempre também sentir-se sentindo —, evidenciando-se assim o reconduzir-a constitutivo do sentir e, ao mesmo tempo, sua condição de capacidade constitutiva do ser-aí de receber afecções, ulterior prova de sua finitude.
  • O último grupo de questões, tratado nos §§ 68c e 68d, concerne à específica temporalidade da decadência e do discurso, constituindo aqui o presente (Gegenwart) o sentido existencial primário: no caso da decadência, evidenciado pela curiosidade (Neugier), aquilo tornado presente ao se encontrar algo não é retido como tal, mas logo abandonado por expectativa de algo diverso, sob impulso de uma sofreguidão do novo (Gier nach dem Neuen); no caso do discurso, o privilégio do presentificar deve-se ao fato de este se enunciar nas formas da linguagem e falar primariamente do ambiente circundante, exigindo-se repensar, a partir dessa estrutura temporal, os modos e tempos verbais da língua numa perspectiva distinta da linguística tradicional.
  • Conclui-se que, embora cada estrutura seja dominada por determinada êxtase temporal, as demais modalidades permanecem igualmente manifestas, não devendo o desdobramento da temporalidade, sua temporalização, ser pensado como sucessão de êxtases, mas como acontecer unitário: a temporalidade se temporaliza toda em cada êxtase, fazendo-o unitariamente como porvir-sendo-sido-presentificante.

O sentido temporal do ser-no-mundo

  • 4.4.2. Também o ser-no-mundo deve ser repensado a partir do enraizamento do ser-aí na temporalidade, evidenciando-se, no § 69, os aspectos temporais que caracterizam, na ordem, o deixar-satisfazer-se, o conhecimento teorético (ou tematização) e, mais amplamente, a transcendência do mundo.
  • O contexto preliminarmente descortinado em que nos movemos com familiaridade, pressuposto pelo próprio uso do utilizável, denomina-se mundo; sendo o deixar-satisfazer-se (Bewendenlassen) a estrutura existencial do cuidar-se, do procurar, modo do cuidado fundado na temporalidade, deve a condição existencial do deixar-satisfazer-se ser rastreada nos modos em que a temporalidade se desdobra, confirmando-se isso pelo fato de a familiaridade do ser-aí com seu ambiente configurar-se como presentificar que aguarda retendo, cuja estrutura se rastreia também na surpresa, na importunidade e na impertinência.
  • No § 69b, enfrenta-se o problema da gênese ontológica da atitude teorética, isto é, da origem da ciência, e de sua temporalidade específica, não podendo a teoria ser entendida simplesmente como privação ou carência da práxis, mostrando-se, a partir de análise da mirada (Umsicht) com que o ser-aí se move no mundo, como surge a modalidade cognitiva denominada reflexão, que, procedendo segundo o esquema implicativo se…, então…, atua-se na forma de um trazer-próximo, de um ligar algo tornado presente, compreendendo-se assim o presentificar como pano de fundo temporal da reflexão e sua ligação primária com meras representações.
  • O específico da atitude teórica, e das próprias ciências nela realizadas, consiste em radical transformação da relação com o ente, colocando entre parênteses seu aspecto instrumental e seu caráter de satisfação e assumindo-o como objeto (Objekt) submetido a particular tematização, que transforma tudo em objeto, pondo o ente e permitindo captá-lo objetivamente, impostação que, como a da filosofia husserliana, dominada pelo caráter temporal da presença, pressupõe na verdade a mais ampla articulação temporal do ser-no-mundo do ser-aí.
  • O § 69c dedica-se à articulação da temporalidade que caracteriza, em geral, a transcendência do mundo, devendo o conceito de transcendência ser entendido dinamicamente — sendo autenticamente transcendente o ser-aí enquanto ser-no-mundo —, introduzindo-se as noções de horizonte temporal e esquema horizontal: o horizonte compreendido como pano de fundo em que se inserem as êxtases temporais em sua dinâmica de excedência, determinando aquilo em relação a que o ser-aí, ente que existe em sua faticidade, é essencialmente aberto, e o esquema, de derivação kantiana, indicando a direção, já de algum modo predeterminada, do arrebatamento próprio de cada êxtase.
    • O esquema em que o ser-aí alcança a si mesmo no porvir autêntico ou inautêntico é o em-vista-de; aquele em que o ser-aí, em virtude de sua disposição afetiva, está aberto a si mesmo em seu ser-lançado é o diante-de-que do ser-lançado; e o relativo ao presente é constituído pelo para, isto é, pelo a-que (Um-zu), afirmando-se ao final do parágrafo a reconduzida articulação do ser-no-mundo, em todos os seus aspectos, à unidade extático-horizontal da temporalidade.

O sentido temporal da cotidianidade do ser-aí

  • 4.4.3. Os últimos passos dessa renovada análise da cotidianidade concernem à noção de espacialidade e ao caráter do antes de tudo e na maioria das vezes próprio do ser-aí, mostrando-se, no § 70, que também a espacialidade se funda na temporalidade, uma vez que tanto a capacidade de aproximar algo quanto a possibilidade de orientar-se num contexto espacial são compreensíveis apenas a partir da mundidade do mundo e de sua constituição temporal específica, devendo o privilégio da espacialidade na mentalidade comum ser igualmente reconduzido ao domínio indiscutido da modalidade da presentificação característica da decadência do ser-aí.
  • O § 71, concluindo o capítulo, esclarece o significado existencial e temporal do termo cotidianidade, modo da existência do ser-aí que define o como segundo o qual este vive o dia a dia, devendo os diversos aspectos da existência cotidiana ser pensados no interior de perspectiva temporal, podendo essa condição média e comum ser assumida e feita própria pelo ser-aí apenas mediante ato de resolução realizado no instante.
  • Resta compreender um último caráter temporal que na situação cotidiana emerge com clareza: o particular estender-se da temporalidade, seu distender-se (Erstreckung) — como na sucessão dos dias da vida do ser-aí, em sua extensão do nascimento à morte —, constituindo um dos modos de seu dinâmico desdobrar-se, compreendendo-se a partir dessa extensão temporal fenômenos como o hábito, o nivelamento numa dimensão comum e o âmbito do na maioria das vezes, sendo apenas a partir dessa noção que se pode investigar o específico acontecer do ser-aí que abre o contexto de sua história.
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