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Problema Central do Pensamento de Nishida Kitarō

DAVIS, Bret W. (org.). The Oxford Handbook of Japanese philosophy. New York, NY: Oxford University Press, 2020. (Fujita Masakatsu)

A Busca pelo Fundamento Não-Dual da Realidade

O problema central e fundamental do pensamento de Nishida Kitarō (1870–1945), que se estende desde a publicação do seu livro seminal An Inquiry into the Good (1911) até sua morte, foi a busca por um ponto de vista imediato e concreto que precede a separação de sujeito e objeto, e a questão de como conceber filosoficamente este fundamento para apreendê-lo e, a partir dele, a totalidade dos assuntos.

Apesar das transformações em seu pensamento – de “experiência pura” para “vontade absoluta” (passando pelo deed-act de Fichte), depois para o pensamento de “lugar” (traduzido para o japonês por um termo que significa campo ou posição) e finalmente para “intuição de ação” – Nishida manteve uma postura filosófica básica de retorno ao que é mais imediato e concreto para compreender a totalidade da realidade.

  • A autocrítica de Nishida sobre o desenvolvimento de seu pensamento
    • O reconhecimento de Nishida de uma transformação em seu pensar, ao mesmo tempo que reivindica ser permeado por algo que permaneceu constante
    • O pensamento de Nishida tendo surgido nem do sujeito nem do objeto, mas daquilo que precede a separação de sujeito e objeto, o que permanece inalterado
    • O retorno ao que é mais imediato e concreto sendo a postura filosófica básica, desde seus escritos anteriores aos posteriores
    • A grande mudança em seu pensamento ocorreu precisamente em como conceber o que é mais imediato e concreto, e em como apreender a totalidade dos assuntos a partir de lá

A Fundação Inicial: A Experiência Pura

  • A experiência pura como crítica ao dualismo sujeito-objeto
    • A experiência pura sendo idêntica à experiência direta, na qual “não há ainda um sujeito ou um objeto, e o conhecer e o seu objeto estão completamente unificados”
    • A possibilidade de deslocar a atenção dentro do estado em que sujeito e objeto ainda não se separaram, “sem adicionar o mínimo de pensamento”
    • A absorção em algo que o eu ama, fazendo com que o eu se esqueça totalmente, e neste ponto, “um poder incompreensível para além do eu funciona sozinho em toda a sua majestade; não há nem sujeito nem objeto, mas somente a união verdadeira de sujeito e objeto”
    • A crítica de Nishida tendo como alvo o dualismo que opõe o subjetivo ao objetivo
    • A distinção entre sujeito e objeto sendo uma “forma relativa que surge quando a unidade da experiência foi perdida,” e o considerar sujeito e objeto como realidades mutuamente independentes sendo “meramente uma visão arbitrária”
  • A discrepância entre o construto dualista e a natureza real da experiência
    • A crítica de Nishida atingindo a grande discrepância entre o construto dualista e a natureza real de nossa experiência, onde o mundo exterior participa diretamente em nossa experiência
    • O não ser o caso de se sentir o medo ou o gosto delicioso dentro de uma consciência que está apartada do mundo exterior
    • A realidade não partindo daquele lugar e existindo em outro lugar, pois “a verdadeira realidade não é algo dividido em subjetividade e objetividade, e a natureza real não é um conceito puramente objetivo e abstrato, mas sim um fato concreto da consciência que inclui ambos o sujeito e o objeto”
    • A realidade concreta “abrangendo sujeito e objeto” e incluindo “sentir e volição”
    • A “matéria pura” anterior à sensação sendo um “construto do pensamento” e “o que é mais abstrato e mais removido da verdadeira visão da realidade”
  • A lógica da fluidez e a intuição
    • O conhecimento dos fatos de nossa experiência direta não podendo ser medido ou falado em modos públicos
    • A necessidade de “realizar pessoalmente a verdadeira visão da realidade, em vez de refletir sobre ela, analisá-la e exprimi-la em palavras”
    • A crítica de Nishida atingindo a ideia de que apreender a verdade é equivalente a medi-la com métricas públicas e falar sobre ela em linguagem pública
    • A recusa da lógica da rígida dissecação e reconstrução de partes fixadas, que faz com que a realidade se torne uma “intelecção semiótica seca, rígida e sem vida”
    • A adoção da “lógica da fluidez,” que tenta apreender o que muda incessantemente em seu próprio dinamismo, o que requer ser “realizado pessoalmente” (traduzido do japonês como obter por si mesmo)
    • A concordância com Bergson de que a realidade, que é “fluida, desenvolvimental, não para por um instante, ou seja, é algo que está vivo,” deve ser “intuída”
    • A definição de experiência pura em consonância com o durée pure (duração pura) de Bergson como “mudança autônoma, qualitativamente contínua”

A Conversão para o Pensamento de "Lugar"

  • A autocrítica e o problema da logicização
    • O pensamento de Nishida tendo passado por uma “conversão” no período intermediário para o pensamento de “lugar”
    • A transformação estando firmemente conectada a uma “logicização” de seu pensamento, com o objetivo de construir um sistema filosófico
    • A superação das deficiências do seu pensamento anterior, tais como “psicologismo,” “o ponto de vista da consciência” e “subjetivismo”
    • A necessidade de libertar-se do subjetivismo, o que exigiu que o pensamento, através da mediação do conceito de hypokeimenon de Aristóteles, viesse a demandar como seu ponto de partida “algo lógico”
  • O lugar-caráter da autoconsciência e o conceito de substância
    • A introdução do conceito de “substância” para ligar a experiência direta ao conhecimento conceitual, adotando a definição aristotélica de substância como “aquilo que é sempre um sujeito gramatical e nunca um predicado”
    • A substância sendo pensada em termos de intuição, como “aquilo que unifica juízos infinitos” e que está na base de tudo, sendo “a intuição de algo irracional”
    • A racionalização da experiência sendo entendida como o eu ou a substância se concretizando e se vendo por meio de refletir-se em si mesmo
    • O eu sendo entendido em termos de “autoconsciência,” a qual “transcende e envolve o eu”
    • O surgimento do termo “lugar” (basho em japonês) no pensamento de Nishida a partir da consideração do lugar-caráter da autoconsciência: “Autoconsciência é uma questão da unidade do Eu que conhece, o Eu que é conhecido, e o lugar em que Eu me conheço”
  • O lugar do nada (mu no basho) e a lógica predicativa
    • O uso do conceito de lugar em vez de substância, pois o lugar é uma questão de “nada” (mu), e não de ser
    • O “lugar do nada” sendo “algo que envolve ser e nada,” transcendendo até mesmo a oposição de ser e nada, e permitindo que esta oposição se estabeleça dentro de si mesmo
    • A crítica ao conceito de substância de Aristóteles por não apreender o que realmente jaz na fundação dos juízos
    • O eu não podendo ser concebido pela lógica do sujeito gramatical, mas devendo ser pensado em termos de lugar como uma autodetenção de um campo de consciência, exigindo uma lógica predicativa
    • O eu sendo a “consciência que é consciente,” que não pode ser objetificada, nem delimitada como um sujeito gramatical, e que é o lugar em que o conhecimento se estabelece, transcendendo todas as categorias
  • A intenção radical de Nishida
    • A intenção de Nishida de problematizar os pressupostos e até mesmo o próprio arcabouço do nosso pensar
    • O eu sendo entendido “não como a unidade de um sujeito gramatical, mas antes como uma unidade predicativa,” não como um ponto, mas como um círculo, não como uma coisa, mas como um lugar

A Culminação: A Intuição de Ação

  • A conversão ao mundo e à realidade histórica
    • O desenvolvimento do pensamento de Nishida sendo um movimento de “consciência” ou “eu” para “mundo,” sendo a realidade verdadeira e mais concreta “o mundo atual,” ou o “mundo da realidade histórica”
    • O mundo atual sendo “o mundo que envolve a atividade pessoal, o mundo no qual atuamos pessoalmente”
    • A estrutura lógica deste mundo sendo discutida em termos de determinação mútua de indivíduos e universais, e de um-enquanto-muitos e muitos-enquanto-um
  • A intuição de ação como o eu que atua
    • A intuição de ação sendo o ponto final do caminho de Nishida, um ponto de vista de conhecimento extremamente atual e a base para todo o conhecimento empírico
    • A intuição de ação sendo um conceito para capturar o eu como um ser corporificado que age no mundo social e histórico, e não apenas o “eu que vê”
    • A crítica ao intelectualismo da filosofia ocidental moderna desde Descartes, que teria negligenciado o fato de que o pensar “porta o significado de atuar”
    • A afirmação de Nishida de que “eu ajo, logo eu sou,” em linha com o pensamento de Maine de Biran, em oposição ao cogito ergo sum de Descartes
    • A crítica de Nishida de que Kant e Husserl permaneceram presos no ponto de vista do eu intelectual, restringindo-se à consciência que foi objetificada
  • O corpo expressivamente ativo e a poiesis
    • O corpo sendo o corpo expressivamente ativo, o corpo histórico, e não meramente um organismo biológico
    • A intuição significando que as coisas “incidem sobre nós expressivamente,” movendo-nos com sua atividade expressiva
    • A ação tendo a natureza de produção ou poiesis, sendo a práxis “trabalho” e “criação”
    • A intuição de ação sendo definida como “Vemos as coisas por meio da ação; as coisas nos determinam e nós também determinamos as coisas”
    • A ação sendo “chamada” por algo expressivo no mundo, e não surgindo de mera consciência
    • As ações sendo “elementos criativos” do mundo histórico, e a história ou o mundo se formando por meio de nossas ações, com os corpos sendo “órgãos para a racionalização do irracional”
    • O conhecimento de objetos não sendo uma mera reflexão da realidade, mas sim uma expressão no sentido de uma atividade expressiva, onde o objeto retratado é a “vida histórica,” sendo nisto que se baseia a objetividade do conhecimento
    • A intuição de ação fornecendo a base para o conhecimento, permitindo que a objetividade do conhecimento se estabeleça, e sendo a maneira mais fundamental e concreta de apreender a realidade.
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