Mundo
STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.
O mundo. A desconsideração de mundo e o diagnóstico da técnica
I
1. Diante das radicais transformações da civilização ocidental, pensadores e cientistas buscam causas e efeitos culturais a partir de duas grandes matrizes de inteligibilidade, a natureza e a cultura, conduzindo a mudança em curso a uma reestruturação de modos de ser e estilos de sobrevivência.
2. A análise da cultura denominada genético-sintomática pretende caracterizar um fenômeno de muitas faces presente nos domínios religioso, metafísico, ético, político e estético, buscando um episódio fatal ocorrido nos estratos profundos da história espiritual do Ocidente que impele seu destino inexorável rumo ao niilismo.
3. Nietzsche figura como pioneiro desse tipo de interpretação inexorável, empregando a palavra niilismo para designar o efeito mais clamoroso dessa evolução.
4. A leitura genético-sintomática heideggeriana do niilismo aponta a emergência da ontoteologia, iniciada em Platão e retomada em diversas figuras históricas até o fim da metafísica, como episódio emblemático que compromete o destino de toda a civilização ocidental, descrita como história do esquecimento do ser (Seinsvergessenheit).
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Desse encobrimento surge novo modo de lidar com os entes, determinado pelo desempenho dominador da técnica, último estágio dos princípios epocais, condensando-se a análise heideggeriana nos dois extremos de uma cadeia histórica: a gênese platônica da ontoteologia e o sintoma decisivo no atual reino da técnica, era que Heidegger chamará pós-metafísica.
II
5. O termo Besorgen, preocupação ou provimento, designa em Ser e tempo o existencial que caracteriza o ser-aí constantemente envolvido em prover seu ambiente com utensílios e artefatos, não por consideração de necessidades, mas simplesmente por descobrir-se como ser-no-mundo.
6. É a partir desse modo de ser que o ser-aí relaciona-se consigo mesmo por meio dos entes disponíveis, revelando-se no lidar com tais entes a descoberta dos entes puramente existentes, relação que pode desembocar na Ciência e na pesquisa do mundo natural.
7. Esse modo prático de ser no lidar com os utensílios mostra-se primeiro, não objetivador e condição de possibilidade de qualquer relação teórica ou aplicação prática, já resultantes de deliberação tornada possível por esse modo prático de ser no mundo.
8. Já em Ser e tempo, ainda sem a palavra técnica, Heidegger acena para um modo de ser que desembocará na questão da técnica, tornando-se esse elemento até então subterrâneo o centro de sua preocupação somente após os anos 30.
9. Ao envolver-se com a questão da história do ser, Heidegger passa a analisar arte e técnica, ligando-se nos anos 30 a questão da técnica à história do esquecimento do ser, sendo em Contribuições para a filosofia que o destino do Ocidente passa a ser lido a partir dessa história combinada com o fenômeno cultural e histórico da técnica, manipulação de utensílios e utilização da natureza como fundo de reserva.
10. Nesse contexto, o filósofo reúne toda a cultura e todas as histórias do Ocidente numa única História, configurando o diagnóstico sintomático de seu destino.
11. Ler os textos heideggerianos apenas como os de um historiador da Filosofia que tira consequências radicais da história do ser oculta que reunir a civilização ocidental numa única História constitui atitude essencialista, na medida em que se tende a identificar como filosofia qualquer área cultural em que se substitui narrativa por teoria.
12. Rorty chama atenção para o fenômeno de filósofos que, em vez de análises parciais, apresentam princípios teóricos totalizantes sobre a cultura ocidental, tornando-se hoje crescente o receio diante desse essencialismo, aceitável nas Ciências Naturais e na matemática, mas inaceitável nos assuntos humanos como História, Sociologia ou Antropologia.
13. Ao subordinar o destino da história ocidental ao esquecimento do ser e à manipulação técnica dos entes convertida em armadilha da humanidade ocidental, a teoria heideggeriana reproduz hábitos de pensamento essencialistas que não servem à reflexão moral e política, levando à busca de uma força redentora nalgum elemento central do pensamento.
14. Rorty declara sua intenção de rechaçar a tendência a tomar a perspectiva heideggeriana sobre o Ocidente como incontestável, detectando entre os intérpretes de Heidegger a vontade de lê-lo como mensagem final do Ocidente, segundo a qual este teria esgotado suas possibilidades, crítica que aprofunda o diagnóstico genético-sintomático de Lima Vaz sobre a cultura ocidental pelo niilismo.
IV
15. Para examinar o essencialismo heideggeriano na obra tardia, remete-se às análises do dispositivo (Gestell) apresentadas nas quatro conferências de Bremen de 1949, intituladas Um olhar para dentro do que é: A coisa (Das Ding), O dispositivo (Das Gestell), O perigo (Die Gefahr) e A viravolta (Die Kehre).
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Nesse reaparecimento público, Heidegger submete os fenômenos fundamentais dos anos de terror da guerra a um denominador comum representado pelo império da era do dispositivo, seguido de abstrata saída pela reinserção na história do ser como lembrança.
16. Já no artigo de 1936, O tempo da imagem do mundo, Heidegger afirmava que tudo é enquadrado e percebido como oportunidade para manipulação técnica e estética, apresentando agora, ex post, a correção de seu diagnóstico e os efeitos inelutáveis de suas conclusões.
17. Heidegger parece situar-se acima da necessidade de calcular felicidade humana, tratando os êxitos, fracassos e o desastre da guerra como perturbações superficiais e distrações do essencial, consistindo o olhar para dentro do que é em exibir a história do esquecimento do ser e sugerir retorno ao essencial.
V
18. As afirmações sobre um erro fatal da Filosofia com consequências culturais revelam a elevação heideggeriana dos fatores da modernização, racionalização e reificação a um cenário abstrato em que a modernidade se vê emparedada num contexto opressor sem saída senão o niilismo tecnológico.
19. Andrew Feenberg analisa como, para Heidegger e Habermas, a técnica não é neutra, atribuindo-se-lhe conteúdo substantivo que molda a maneira de vida nas sociedades modernas, de modo que meios e fins não podem ser separados, transformando o desenvolvimento tecnológico o que é ser humano, em posição próxima à gaiola de ferro weberiana da racionalização.
20. Feenberg reconhece na Filosofia heideggeriana da técnica uma teoria mais concreta que outras do passado, mas identifica nela conceitos totalizantes que recuam a uma visão determinista, sem indicações de saída do dilema técnico, endurecendo-se a técnica no pensamento e estreitando-se as expectativas de reforma a meros ajustamentos nas fronteiras da esfera técnica.
21. Segundo Feenberg, Heidegger sustenta que a técnica nos invade inclemente, transformando-nos em reservas permanentes, matéria-prima mobilizada nos processos técnicos, de modo que a instrumentalização universal destrói a integridade de tudo o que existe, restando como única esperança um renascimento vagamente espiritual, sintetizado na afirmação de que apenas um deus pode nos salvar do avassalamento do progresso.
22. Essa longa citação evidencia o caráter fatalista do diagnóstico genético-sintomático heideggeriano quanto ao destino do ser humano na cultura, do qual a técnica seria responsável.
VI
23. Feenberg mostra como Heidegger, em seu artigo sobre a técnica, compara o trabalho religioso do artesão grego que revela a verdade de seus materiais pela forma simbolicamente carregada à apropriação destrutiva do Rio Reno por uma represa moderna, que desmundifica a matéria e convoca a natureza a encaixar-se em planos técnicos.
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Reconhece-se que Heidegger tem razão em ver na técnica moderna elementos mais destruidores e em afirmar que a essência da técnica não é nada técnico, privando-nos do envolvimento específico com o mundo.
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Feenberg lamenta, contudo, que a argumentação heideggeriana, posta em nível tão alto de abstração, não consiga diferenciar eletricidade de bombas atômicas, técnicas agrícolas do holocausto, todas reduzidas a expressões de um dispositivo idêntico a transcender por mera mudança de atitude.
24. Reconhece-se no procedimento essencialista heideggeriano sobre a técnica, ao mesmo tempo, um aspecto importante que o filósofo tenta salvar, representado pelo conceito de mundo, restando a questão da desconsideração de mundo como resto relevante de sua posição ao interpretar a relação com instrumentos, artefatos e utensílios.
25. Na primeira conferência de Bremen, A Coisa, Heidegger lembra a perda de mundo não apenas dos utensílios, mas dos próprios modos de viver e mover-se na era da técnica, podendo separar-se o essencialismo do diagnóstico fatal da era técnica da expectativa de recuperação do mundo em nosso modo de ser e usar as coisas da técnica, descrita como celebração em que se comunicam terra e céus, mortais e deuses.
