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Digital

STEIN, Ernildo. Pensar e errar: um ajuste com Heidegger. Ijuí: Editora Unijuí, 2015.

VIDE: Filosofia da Informática

O digital. O corpo virtual: a modernização dos sentidos

1. O tema apresentado trata dos processos sustentados na era midiática, num limiar de transformação comparável, ainda que não se queira reconhecê-lo, à passagem do homem para a era neolítica, revolução da qual não há como escapar por constituir a própria realidade atual.

2. O título O corpo virtual — a modernização dos sentidos indica que a era atravessada realiza aquilo com que sonhavam os processos de modernização, sem que se pretenda emitir juízo positivo ou negativo sobre esse sonho que move a sociedade.

3. O problema da modernidade não deve ser pensado apenas como periodização histórica, tendo significado fundamentalmente a introdução de uma subjetividade destinada a compensar as fragilidades do corpo no processo do conhecimento e do progresso humano.

4. Percebeu-se então o papel do sujeito na produção do saber, revolução que ainda repercute nos recursos tecnológicos disponíveis, buscando-se cada vez mais simbolizar o universo material e o próprio corpo, não sendo mais o mundo apenas objeto, mas interpretação de significantes.

5. Há na modernidade modificação nas concepções de realidade, ser humano e conhecimento, configurando-se crise da representabilidade quanto ao corpo e à subjetividade, o que gera problema sério de temporalidade, perseguida de modo frenético e distanciada da condição humana cotidiana, queixando-nos das fragilidades de um corpo que não acompanha o sujeito interpretador de signos.

6. Surge então a revolução da informática, da telemática e da tecnotrônica, na qual o corpo torna-se apenas primeiro ponto de referência sujeito a transformações que dissolvem a antiga ligação às variações climáticas, históricas e geográficas, vivendo-se hoje a variação sem originais, numa desreferencialização que perde a pertinência de pares como representação e referente, superfície e profundidade, remetendo ao universo virtual.

7. Essa modernização dos sentidos revela-se ambígua, associada à ideia de pós-modernidade, período de fragilização da fundamentação do conhecimento em que não há mais ponto de vista único, sendo os indivíduos, segundo Nagel, ocupantes de um ponto de vista desde lugar nenhum, ideia presente na desconstrução do corpo e na instalação de uma subjetividade ambiente.

8. Vivem-se simultaneamente três revoluções na relação homem-máquina, assentadas sobre a antiga referência dualista mente-corpo criticada por Ryle na imagem do fantasma na máquina, representando progresso e ambiguidade de consequências dificilmente controláveis.

9. Os três níveis dessa relação são o muscular e motor, o sensório e o cerebral, tendo as máquinas musculares da revolução industrial compensado e amplificado o esforço físico, aliviando os músculos e reduzindo o esforço antes exigido pelo corpo.

10. A segunda revolução, das máquinas sensórias, funciona como extensão dos sentidos especializados, como o olho e o ouvido, construídas a partir de pesquisas científicas sobre seu funcionamento, constituindo máquinas cognitivas dotadas de inteligência sensível que simulam e prolongam a performance sensorial, sobretudo ao nível de imagens e sons.

11. Após as máquinas musculares povoarem o mundo de objetos industrializados, os aparelhos sensórios passaram a hiperpovoá-lo de signos, funcionando como máquinas de registro e reprodução que produzem conhecimento a partir de produtos-signos, gerando memória extrassomática, ao mesmo tempo usurpadora e doadora de realidade.

12. Os aparelhos compartilham dois elementos, constituírem usinas sígnicas e produzirem signos de caráter vicário que substituem os objetos, mantendo ainda ligação entre signo e realidade, etapa pré-virtual anterior às máquinas cerebrais, nas quais signos e ícones passam a funcionar independentemente da realidade.

13. As máquinas cerebrais, produtos da revolução eletrônica, derivam da metáfora do cérebro como computador, tendo essa metáfora desempenhado papel decisivo na própria invenção dos computadores.

14. A comunicação com a máquina, inicialmente abstrata, foi substituída por processos intuitivos e sensório-motores integrados à sensibilidade e cognição humanas, humanizando-se progressivamente o computador até se poder falar em coevolução entre homem e agenciamentos informáticos, lançando bases para repensar a robótica como emergência de novo tipo de humanidade.

15. Na revolução muscular e na sensória, o modelo por trás da mudança era o músculo e os sentidos; agora, a combinação entre homem e máquina configura a emergência de um novo tipo de humanidade, numa modernização que é simultaneamente substituição, prótese e dispensa do corpo em certo nível, segundo pensador alemão para quem o cérebro seria dispensável após servir de modelo ao primeiro computador.

16. As máquinas musculares foram imitativas e grosseiramente físicas; as sensórias, mais sutis, converteram-se em aparelhos produtores de signos; no nível cerebral, a própria noção de máquina é substituída por agenciamento instável de circuitos, órgãos, programas e interfaces decomponíveis em redes.

17. Isso só se tornou possível graças ao modelo digital, grande sintetizador capaz de conectar imagem, som e escritura num mesmo tecido eletrônico, interligando cinema, radiotelevisão, jornalismo, telecomunicações e informática, imbricando pensamento e sentidos em sua trama de bytes.

18. A modernização conduz assim a uma prótese do pensamento e dos sentidos, amplificando as máquinas cerebrais as habilidades mentais e a memória, tal como as musculares ampliaram a força e as sensórias dilataram os sentidos, estendendo estes e o cérebro para fora do corpo humano em fronteiras ainda indelimitáveis.

19. Configura-se progressivamente uma cultura telemática multidirecional de coletividade global, cuja forma mais conhecida é a Internet, rede mundial que gera formas inéditas de sociabilidade e um mundo mental sem fronteiras, já denominado em 1995 hipercórtex, delineando-se limiar antropológico mais profundo que o da revolução neolítica.

20. Aborda-se então o problema da identidade na Internet, questão da individualidade como última solidão do ser, segundo Ockham, hoje colocada de modo aterrador diante da possibilidade de multiplicar-se em vários personagens virtuais, como relata um vendedor de pizza para quem a vida virtual seria mais real que a própria vida, associando-se essa vivência a quadros de esquizofrenia e depressão entre usuários da Internet.

21. Erik Erikson, ao pesquisar a identidade pessoal, descreve a moratória psicológica vivida entre os treze e dezoito anos, período de folga sem função econômica em que o indivíduo ainda não precisa encontrar sua identidade, sugerindo-se que hoje esse tempo de moratória tenha diminuído.

22. As experimentações livres de consequências dessa moratória facilitam o desenvolvimento da identidade, oferecendo hoje a cultura, em lugar da moratória adolescente, a moratória das comunidades virtuais, nas quais podemos permanecer eternos adolescentes assumindo múltiplas identidades, retomando o cyberespaço essa noção eriksoniana ao oferecer sempre uma janela para fugir da própria identidade, descalibrando as bússolas entre jogo e vida real.

23. Diante das próteses recebidas pelo corpo, pelos sentidos e pelo cérebro, pergunta-se se a realidade virtual pode mudar a vida, respondendo-se afirmativamente pela entrada numa era de hipersensibilidade decorrente das novas extensões sensoriais.

24. A realidade virtual constitui metáfora tecnológica da implosão do mundo técnico sobre o corpo físico, antigo lugar da identidade e da solidão do ser, hoje proteizado e tornado obsoleto, tornando-se possível fora do cérebro a combinatória plurissensorial antes exclusiva dele, mediante tratamento simbólico, pragmático e elétrico que elimina o obstáculo da heterogeneidade dos sentidos.

25. Recorda-se que em Aristóteles o corpo era elemento importante, cedendo depois lugar à mente e ao espírito, até a revolução de Schopenhauer e de Nietzsche, em Assim falou Zaratustra, que promoveram o corpo frente ao suprassensível, questionando-se hoje, na revolução midiática, por que manter a matriz corporal úmida e limitada depois de simulá-la no computador.

26. Configura-se a espetacularização do corpo, transferido para novas mídias como mera memória de máquina e signo, tornando-se, na expressão heideggeriana, fundo de reservas ao qual se recorre nas angústias telemáticas, convertendo-se assim em objeto próprio do domínio da técnica moderna.

27. O corpo é hoje moldado antecipadamente pela Engenharia Genética, feito existir pela inseminação e gestação artificiais, mantido vivo por próteses e transplantes, e corrigido pela cirurgia estética, deixando de ser um já-dado para tornar-se ele mesmo uma prótese, sendo errônea a concepção puramente instrumental da técnica como simples meio nas mãos do homem.

28. A tecnologia constitui extensão e prótese do homem, tornando-se este, de modo incessante e irreversível, prótese da própria tecnologia, inscrevendo-se na lógica tecnológica a obsolescência e superação da espécie, já em ato quanto ao declínio constatável do corpo, o que assinala, no plano da consciência, o ofuscamento e a dissolução do sujeito empírico.

29. Importa agora o sujeito tecnotrônico, ao qual a Filosofia já chamara atenção, sonhando-se superar o corpo em direção a um hipersujeito ou ultra-homem, cuja primeira mutação seria a expansão do corpo por dispositivos robóticos e comunicacionais rumo a um corpo misto, utilitário e coletivo, tornando obsoletas noções como autoria, estilo e inspiração artística.

30. Pergunta-se se a explosão da informação indica um beco sem saída evolutivo, sendo a informação a prótese que sustenta o corpo obsoleto numa fase biológica decadente, tendo o papel da informação se invertido, de modo que hoje é ela que nos procura, habitando o corpo marca-passos tecnológicos que o condicionam e controlam, questionando-se a adequação de um corpo bípede de cérebro limitado à era atual.

31. O corpo deixa de ser sujeito ou objeto de desejo para tornar-se objeto de projeto, cogitando-se uma pele mais consistente e autossuficiente, capaz de dispensar os sistemas de respiração e alimentação, marcando a invasão tecnológica do corpo o fim da Filosofia e da fisiologia humanas tal como conhecidas.

32. Imagina-se um corpo oco, desidratado e endurecido, hospedeiro ideal dos componentes tecnológicos da era da informação, revestido de pele sintética capaz de absorver oxigênio e converter luz em nutrientes, eliminando-se sistemas redundantes e órgãos disfuncionais em busca de maior autonomia e eficiência energética.

33. Essa viagem tecnotrônica sugere o desplugar do corpo do próprio planeta, mal equipado para o espaço cósmico, cogitando-se eliminar o nascimento pela fertilização extrauterina e superar tecnicamente a morte, rumando o corpo tecnotrônico para a ideia de imortalidade adaptativa.

34. Questiona-se, por fim, a utilidade dos sentidos num corpo que talvez devesse ser anestesiado para alcançar simbiose híbrida com a máquina, pacificando a tecnologia tanto o corpo quanto o mundo ao desconectá-lo de muitas de suas funções.

35. O propósito da exposição foi levar a questão da mídia, na infoera, a uma situação-limite em que o próprio ponto de partida do processo, o corpo, torna-se obsoleto num modelo social estabelecido pela técnica, restando como interrogação radical a relação entre o real e o virtual, vitória deste sobre aquele, diante de imagens imortais sustentadas por corpos efêmeros, levantando-se a dúvida final se todo o processo não conduziria à supressão do corpo, do homem e da espécie, restando ao fim apenas a imagem.

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