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Matemática

DASTUR, Françoise. Husserl: des mathématiques à l’histoire. 1. éd ed. Paris: Presses Univ. de France, 1995.

Matemática e filosofia

  • Para apreender a coerência interna do pensamento de Husserl, é necessário, como sublinha Walter Biemel em seu artigo sobre as fases decisivas do desenvolvimento da filosofia de Husserl, retomar o desígnio primitivo deste e reconstituir a gênese passo a passo da fenomenologia, desde a Filosofia da aritmética de 1891 e a tese de habilitação de 1887 sobre o conceito de número, até o percurso biográfico que leva Husserl de Berlim a Viena e depois a Weierstrass e Brentano, professores aos quais atribui influência decisiva e a quem sua mulher associava seu gosto pelo esforço científico
    • Walter Biemel e seu artigo sobre as fases decisivas do desenvolvimento da filosofia de Husserl
    • Philosophie de l'arithmétique, 1891
    • tese de habilitação de 1887 sobre o conceito de número
    • estudos em Berlim (1878-1881) e doutorado em Viena (1882) sobre cálculo das variações
    • retorno a Berlim como assistente de Weierstrass
    • serviço militar e permanência em Viena até 1886 para ouvir Brentano, a quem a Philosophie de l'arithmétique é dedicada
    • menção conjunta a Weierstrass e Brentano em 1929, por ocasião do septuagésimo aniversário e da aposentadoria
    • relato da esposa sobre a dívida de Husserl para com Weierstrass quanto ao gosto pelo esforço científico
  • Weierstrass desperta em Husserl o interesse pelo problema da fundação das matemáticas, propondo eliminar o recurso ao conceito obscuro de quantidade infinitamente pequena e fundar a análise unicamente sobre o conceito de número, o que remete à fundação da geometria analítica por Descartes, ao cálculo infinitesimal de Leibniz e Newton, às dificuldades teóricas do século XIX ilustradas pela recomendação de d'Alembert a um amigo perplexo e pela definição irônica de Voltaire, e à solução de Weierstrass consistente em uma aritmetização da análise apoiada numa definição operatória de número como resultado do ato de numeração, definição que Husserl considera insatisfeita porque não elucida a proveniência do conceito, como já afirmava em sua tese de 1887
    • Weierstrass (1815-1897), pai da análise moderna, cursos em Berlim a partir de 1856
    • fundação do cálculo infinitesimal pela eliminação do conceito de quantidade infinitamente pequena
    • Descartes e a geometria analítica, unificação do número e do espaço, geometria grega e álgebra de Viète
    • Leibniz e Newton e o cálculo infinitesimal, cálculo diferencial e integral
    • preocupação apenas tardia, no século XIX, com a fundação racional do cálculo infinitesimal
    • d'Alembert: “Allez en avant, la foi vous viendra”
    • Voltaire: o cálculo infinitesimal como a arte de medir algo cuja existência é inconcebível
    • arithmetização da análise por Weierstrass, derivação a partir do número real
    • definição de número por Weierstrass como ato de numeração, seleção e homogeneização pela imaginação
    • Husserl e a exigência de elucidar a proveniência do conceito de número, já na tese de 1887
  • os números constituem-se como criações do espírito enquanto resultados de uma atividade exercida sobre conteúdos concretos, sem contudo corresponderem a novos conteúdos absolutos encontráveis no espaço ou no mundo exterior, sendo antes conceitos de relação sempre produzidos e nunca encontrados prontos em algum lugar
    • citação da Philosophie de l'arithmétique, p. 357: os números como criações do espírito, conceitos de relação produzidos e não encontrados
  • trata-se para Husserl de dar conta da idealidade do número e de produzir a fundação filosófica de seu conceito, constituindo assim a filosofia da aritmética
  • por conselho de Brentano, Husserl dirige-se a Halle, onde permanece quinze anos até 1901, para preparar sob a direção de Carl Stumpf a tese de habilitação intitulada Sobre o conceito de número. Análises psicológicas, cuja introdução ressalta a importância da matemática para a filosofia, evoca Kant e o papel das matemáticas e da geometria como ciências a priori na filosofia transcendental, e situa o próprio matemático como aquele que hoje recorre à filosofia para esclarecer conceitos obscuros como os de número imaginário e número irracional, retomando a posição de Weierstrass segundo a qual toda filosofia das matemáticas deve começar pela análise do conceito de número, ainda que Husserl considere essa fundação uma tarefa propriamente filosófica e não matemática, na medida em que o matemático enquanto tal não questiona o estatuto ontológico dos objetos que estuda, questionamento que o institui em filósofo das matemáticas
    • Carl Stumpf, orientador da tese
    • título da tese: Sobre o conceito de número. Análises psicológicas
    • menção a Kant e à filosofia transcendental
    • citação, PA, p. 359: “c'est donc par l'analyse du concept de nombre que toute philosophie des mathématiques doit commencer”
  • quanto ao sentido de “filosofia” nessa época, os subtítulos da tese (“Análises psicológicas”) e do livro de 1891 (“Pesquisas psicológicas e lógicas”) sugerem que Husserl não distinguia então claramente filosofia e psicologia, como ele próprio reconhece explicitamente
    • citação, PA, p. 359: a análise do conceito de número emprega meios que pertencem à psicologia e devem pertencer a ela para que a pesquisa alcance resultados seguros
    • citação, PA, p. 360: a psicologia não é apenas indispensável à análise do conceito de número, mas essa análise pertence intrinsecamente a ela
  • reconhece-se aqui a influência de Brentano e de sua Psychologie du point de vue empirique de 1874, retrabalhada até 1911, que distingue a psicologia genética, indutiva e explicativa, da psicologia descritiva, análise puramente descritiva do fenômeno de consciência que Brentano acaba por definir como uma análise das origens, ciência a priori sem pressupostos cujos conceitos provêm da intuição, encarregada de fundar todas as demais ciências a priori inclusive a matemática, sendo o próprio Brentano, e não Husserl como por muito tempo se acreditou, quem emprega o termo “fenomenologia” para essa psicologia descritiva num curso de 1888-1889 provavelmente conhecido por Husserl, o qual busca em seus primeiros escritos uma pesquisa sobre a origem psicológica do conceito de número pela via da metodologia descritiva brentaniana, o que explica que sua análise da numeração não coincida inteiramente com a de Weierstrass, sobretudo quanto à distinção, de proveniência brentaniana, entre representação “autêntica” e representação “simbólica” do número, distinção segundo a qual o fato de só se obter representação autêntica dos primeiros números, mal se podendo contar autenticamente além de três, determina o caráter simbólico da aritmética e legitima a introdução de conceitos simbólicos como os de número negativo, irracional e imaginário, dando assim sentido ao empreendimento de Weierstrass de reconduzir a análise à aritmética
    • Franz Brentano e a Psychologie du point de vue empirique, 1874, retrabalhada até 1911
    • distinção entre psicologia genética e psicologia descritiva
    • Brentano como autor do termo “fenomenologia”, em curso de 1888-1889
    • distinção brentaniana entre representação autêntica e representação simbólica do número
    • limite da representação autêntica aos primeiros números, mal se contando além de três
    • legitimação simbólica dos números negativo, irracional e imaginário
  • o pensamento de Husserl evolui rapidamente a partir de 1890 para um ponto de vista diferente sobre a análise, conforme assinala Walter Biemel a propósito de uma carta de 13 de novembro de 1890 a Carl Stumpf, que marca uma virada e conduz Husserl a pesquisas de ordem lógica e não mais matemática, ao pôr em questão a tese até então partilhada com Weierstrass segundo a qual o conceito de número constitui o fundamento da aritmética geral, uma vez que nem mesmo a distinção entre representação própria e imprópria permite deduzir do conceito de número os números negativos, racionais, irracionais e complexos, como Husserl declara no prefácio de 1891 à Philosophie de l'arithmétique, e à questão de como definir então a aritmética geral responde, na mesma carta a Stumpf, caracterizando a arithmetica universalis como parte da lógica formal e não como ciência, o que implica que a análise se aproxima mais da lógica do que da aritmética, interesse pela lógica que constitui, segundo Walter Biemel, o resultado de um desenvolvimento coerente que conduz Husserl da filosofia da aritmética à fenomenologia dos vividos lógicos definida em 1901 no segundo tomo das Recherches logiques
    • carta de 13 de novembro de 1890 de Husserl a Carl Stumpf
    • citação, PA, p. 6: “il n'y a en aucune façon un genre unique de concept, que ce soit la numération, le nombre ordinal ou n'importe quel autre qui impose partout son emploi”
    • citação da carta a Stumpf: “L'arithmetica universalis n'est pas une science mais une partie de la logique formelle, que je définirais elle-même comme l'art des signes […] et que je caractériserais comme constituant un chapitre particulier — et l'un des plus importants — de la logique en tant que théorie de l'art de la connaissance.”
    • fenomenologia dos vividos lógicos, RL II, 1, p. 6, no segundo tomo das Recherches logiques

Fenomenologia e lógica

  • Em 1890 Husserl define a análise como parte da lógica formal, concebendo esta como um dos capítulos mais importantes da teoria da arte do conhecimento que é a lógica geral, em acordo com Brentano, para quem a lógica é uma disciplina prática, uma tecnologia do juízo justo
    • Brentano, nos cursos vienenses de 1884-1885 sobre lógica, publicados postumamente como A doutrina do juízo justo, defende a lógica como ciência prática cuja tarefa é prescrever regras que tornem possível o conhecimento
    • Na carta a Stumpf, Husserl define a lógica formal como a arte dos signos, retomando essa concepção no manuscrito de março de 1890, Sobre a lógica dos signos, destinado ao segundo volume da Filosofia da aritmética
    • A lógica geral ocupa-se de avaliar os procedimentos do espírito que julga, enquanto a lógica formal trata mais precisamente dos procedimentos algorítmicos, isto é, do espírito que julga por meio de métodos simbólicos
  • Sendo a análise ou aritmética geral parte da lógica formal, ela é definida nessa época como arte e tecnologia, e não como ciência teórica, o que exige um segundo volume da Filosofia da aritmética, jamais publicado
    • No primeiro volume, intitulado Pesquisas psicológicas, Husserl analisa o conceito de numeração aproximando-se da posição de Weierstrass, para quem esse conceito fundamenta a aritmética geral
    • O segundo volume anunciado pretendia elucidar completamente, do ponto de vista lógico, o sentido verdadeiro da aritmética geral, elucidação que não se concretizou pela mudança das concepções lógicas de Husserl
  • Entre 1890 e 1894, a investigação do domínio lógico leva Husserl a romper com Brentano e a sustentar que a lógica não é disciplina prática, mas ciência a priori referente ao reino das significações ideais, o que reformula sua filosofia da aritmética
    • A análise passa a ser concebida como disciplina teórica de um domínio de objetos, caso particular da teoria das multiplicidades, entendida como domínio determinado unicamente por estar submetido a uma teoria de forma dada
    • Uma multiplicidade não é um conjunto de objetos anterior à teoria formal, mas um domínio definido apenas pelas relações estabelecidas em um sistema formal
  • A partir dessa nova posição, Husserl acusa-se de ter cedido ao psicologismo em sua filosofia das mathemáticas, reconhecendo nos Prolegômenos à lógica pura a mudança de posição, citando a máxima de Goethe sobre a severidade com que se condenam os próprios erros recém-abandonados
    • Na Filosofia da aritmética, Husserl discute a teoria do número de Gottlob Frege, apresentada em Os fundamentos da aritmética de 1884, obra que considera notável embora antípoda da sua
    • Frege, em recensão de 1894, critica implacavelmente a fundação husserliana da matemática na psicologia, acusando Husserl de não distinguir o número de sua representação
    • Nos Prolegômenos, Husserl declara que matemática e psicologia são mundos estranhos entre si, evocando a obra sugestiva de Frege e afirmando não mais defender sua antiga crítica à posição antipsicologista deste
  • Permanece a questão de saber se Husserl considera erro as pesquisas psicológicas sobre o número feitas na tese de habilitação e na Filosofia da aritmética, já que continua a avaliá-las favoravelmente tanto em 1900 quanto em 1929, quando as caracteriza como pertencentes à fenomenologia constitutiva
    • A explicação coerente é que a autocrítica de Husserl não recai sobre o estudo psicológico do número, mas sobre a concepção da lógica como arte ou tecnologia herdada de Brentano, submetida a crítica radical nos Prolegômenos
    • As pesquisas psicológicas de 1887 e 1891 permanecem válidas por obedecerem ao método puramente descritivo, depois chamado fenomenológico, ao passo que as pesquisas lógicas destinadas ao segundo volume foram abandonadas pela mudança de uma concepção psicologista para uma concepção teórica da lógica
  • Os Prolegômenos abrem caminho a uma renovação da definição tradicional da lógica formal, exigindo previamente a crítica da concepção reinante e a delimitação da lógica frente a toda ciência de fatos
    • Os partidários do psicologismo só podem fundar teoricamente a lógica na psicologia porque reduzem a lógica a uma ciência prática
    • Husserl parte da ideia kantiana de uma lógica geral que compreende uma lógica pura teórica, sobre a qual se funda a lógica aplicada ou epistemologia, propondo-se a refundação da lógica pura kantiana
    • Os Prolegômenos terminam com a ideia provisória do que deveria ser a lógica pura, sem que o termo fenomenologia apareça ainda, termo presente apenas no título do segundo tomo, Pesquisas para a fenomenologia e a teoria do conhecimento
    • A tarefa preparatória à edificação da lógica pura consiste em investigar as fontes dos conceitos fundamentais e das leis ideais da lógica pura, investigação relativa às vivências do pensamento e do conhecimento que recebe o nome de fenomenológica
    • A fenomenologia dos vivências lógicas visa fornecer uma compreensão descritiva, não genético-psicológica, retomando a distinção brentaniana entre descritivo e genético
    • Levanta-se a questão de saber se tal fenomenologia dos vivências lógicas não seria ainda psicológica, e se não haveria contradição entre a crítica do psicologismo dos Prolegômenos e a fenomenologia pura proposta no segundo tomo
    • A publicação do segundo volume das Investigações lógicas foi recebida por muitos que haviam saudado o primeiro como uma recaída no psicologismo, ainda que os vivências fenomenológicos sejam essências ou vivências puras, e não fatos reais do mundo psicológico
    • Em 1913, Husserl publica edição remanejada dos Prolegômenos e das cinco primeiras Investigações, insistindo na diferença entre fato e essência, entre psicologia e fenomenologia, tema já presente em 1901 quando define a fenomenologia como domínio de pesquisas neutras, útil tanto à psicologia quanto à lógica
    • A lógica interessa-se não pelos múltiplos vivências psíquicas subjacentes aos juízos, mas pela significação idêntica que neles se revela, exigindo uma análise fenomenológica que faça retornar das simples palavras às coisas mesmas
      • Os conceitos lógicos, enquanto unidades de pensamento, devem tirar sua origem da intuição, recusando-se a mera compreensão simbólica das palavras em favor do retorno às coisas mesmas
  • A análise fenomenológica rigorosa exige do fenomenólogo a adoção da atitude antinatural da reflexão, pela qual os próprios atos psíquicos se transformam em objetos de investigação, contrariando os hábitos de pensamento mais arraigados
    • A orientação de pensamento exigida pela análise fenomenológica é contrária aos hábitos mais enraizados, o que gera a tendência quase indestrutível de recair da atitude fenomenológica na atitude simplesmente objetiva
  • O retorno às coisas mesmas é na realidade um retorno reflexivo aos vivências, exigindo o esclarecimento do conceito de vivência, objeto das duas últimas Investigações, sobretudo da quinta, sobre os vivências intencionais e seus conteúdos, o que conduz a uma nova concepção da consciência como intencionalidade e não como continente
    • O termo intencionalidade é tomado de Brentano, que por sua vez remete a Aristóteles, aos neoplatônicos e a Tomás de Aquino, embora compreendendo-o de modo diverso
    • Brentano entende por intencionalidade a relação de todo fenômeno psíquico com um conteúdo, sua direção a um objeto, sem que se deva entender por isso uma realidade, mas uma objetividade imanente, noção escolástica de objectum que designa o conteúdo da representação e não a coisa real transcendente
    • Husserl, preocupado em evitar a confusão entre imanente e transcendente, critica a terminologia brentaniana, pois as expressões objetividade imanente e existência intencional levam a conceber a consciência como receptáculo do objeto, quando se trata de pensar o vivência como intenção, visada de um objeto que lhe permanece transcendente
    • No apêndice aos parágrafos 11 e 20 da quinta Investigação, Husserl afirma ser erro grave distinguir realmente entre objetos simplesmente imanentes ou intencionais e objetos verdadeiros e transcendentes, seja o objeto Deus, um anjo, um ser inteligível, uma coisa física ou um quadrado redondo, pois o que existe é a intenção, a visada de um objeto, e não o objeto enquanto tal
  • Não há dois objetos, um imanente e outro transcendente, pois nada se altera no vivência caso o objeto não exista, como no caso do objeto fictício, o deus Júpiter, que não é nem imanente nem transcendente e mesmo assim é visado por um ato de consciência
    • Para a consciência, o dado é essencialmente a mesma coisa, exista o objeto representado ou seja ele imaginado e até absurdo, não se representando Júpiter de modo diferente de Bismarck, nem a torre de Babel de modo diferente da catedral de Colônia, nem um quiliógono regular de modo diferente de um miriedro regular
  • Torna-se necessário purificar a linguagem empregada, falando não de objeto imanente, mas de objeto intencional, expressão que rompe com a concepção da consciência como lugar povoado de simulacros das coisas
  • Com essa nova concepção da consciência, Husserl consegue colocar corretamente o problema original de sua investigação, o da relação entre os objetos lógicos e matemáticos e os atos psíquicos que os representam, já que a intencionalidade da consciência salvaguarda contra todo psicologismo a transcendência do objeto ideal
    • Abre-se assim a via de uma elucidação fenomenológica do conhecimento, título da sexta Investigação, da qual Husserl esperava o primeiro superação radical do psicologismo na teoria da razão, tema referido às relações entre intenção de significação e preenchimento de significação, entre pensamento e intuição correspondente
    • O que caracteriza a fenomenologia do conhecimento, em oposição à teoria do conhecimento, é dispensar teorias metafísicas para explicar a concordância do curso da natureza com a legislação inata do entendimento, bastando a elucidação fenomenológica do vivência lógico
    • O sentido do ser em geral é para Husserl inseparável de sua correlação com o poder-ser-percebido, intuído, significado, conhecido, de modo que só pode haver fundação fenomenológica, e não psicológica, do lógico
    • A fundação fenomenológica do conhecimento exige o exame dos atos simples que fundamentam todo conhecimento superior, sobretudo da percepção, examinada do ponto de vista temporal nas Lições sobre a fenomenologia da consciência íntima do tempo de 1905, e da experiência dos objetos espaciais, analisada nas Lições de 1907 sobre Coisa e espaço
    • Trata-se já então de fazer aparecer o mundo da vida como pressuposição necessária do mundo científico e de evidenciar a historicidade da razão, retomando, como Husserl escreve a Albrecht em 1908, o projeto de uma crítica da razão inteiramente nova, cujas bases as Investigações lógicas já contêm

O projeto de uma genealogia da lógica

  • A permanência do tema da Fundierung, da fundação das ciências formais, percorre todo o itinerário husserliano, da Filosofia da aritmética a Experiência e juízo, passando pelas Investigações lógicas e Lógica formal e lógica transcendental, tratando-se desde a primeira obra tanto de tematizar o campo do formal quanto de reconduzir as formações teóricas às experiências originárias nas quais buscaram seu sentido
    • Essa pesquisa genética foi primeiro caracterizada, em vocabulário brentaniano, como psicológica, mas Husserl, na introdução a Experiência e juízo, recusa explicitamente caracterizar como psicológica sua problemática genética, distinguindo uma psicologia genética do juízo de uma fenomenologia genética do juízo
    • A fenomenologia genética exige um retorno às evidências mais originárias da experiência, retorno que não pode ser realizado pelos meios da psicologia, a qual, no melhor dos casos, só reconduz a operações subjetivas mundanas, vivências de sujeitos de nosso mundo, já mediatizado pela idealização proveniente da ciência da natureza moderna, da matematização galileana da natureza
    • O retorno à evidência propriamente originária supõe o Abbau, o desmantelamento dessas idealizações, isto é, a desconstrução metódica da epistèmè que se reconduz à sua fonte originária na doxa, legitimando a experiência antepredicativa sem considerá-la evidência de grau inferior à da ciência, sem que isso implique desvalorização da ciência, pois se trata de elucidar (aufklären) os pressupostos ocultos das idealizações científicas
    • Pela questão em retorno (Rückfrage), Husserl não pretende questionar o conteúdo do conhecimento exato, mas proporcionar plena compreensão do ideal científico, retraçando o itinerário total que vai da evidência antepredicativa à evidência predicativa e retornando à origem do próprio mundo idealizado
    • A origem do mundo predado, que contém toda uma história sedimentada, não é acessível imediatamente por reflexão, estando implicada apenas indiretamente nos depósitos e sedimentos que dão ao mundo seu sentido atual, sendo uma subjetividade velada, não atualmente detectável, que só aparece ao termo de uma desconstrução, por ser subjetividade operante (leistende) na origem das construções idealizantes
    • Essa subjetividade originária não é psicológica, mas transcendental, reconduzindo à fonte última de todas as formações de conhecimento, de modo que a genealogia da lógica formal constitui apenas parte da tarefa mais vasta da fenomenologia da constituição, voltada a exumar a origem oculta de um mundo possível em geral, não apenas do mundo de fato
  • Experiência e juízo, texto derradeiro de Husserl sobre a genealogia da lógica, pode ser considerado prolongamento de Lógica formal e lógica transcendental, retomando sistematicamente as pesquisas genéticas da seção II, Da lógica formal à lógica transcendental, na qual a evidência da experiência antepredicativa já era destacada como fundamento do juízo
    • Há, no entanto, diferença de nível entre os dois textos, pois a camada originária da Lebenswelt ainda não é o solo último sobre o qual se funda a lógica nos últimos capítulos de Lógica formal e lógica transcendental
    • Experiência e juízo integra os resultados das últimas pesquisas de Husserl, expostas na Krisis, o que permite indicar alguns eixos de reflexão para a leitura desse livro póstumo
  • Os problemas enfrentados no itinerário que vai da experiência antepredicativa ao pensamento predicativo e ao juízo geral são essencialmente os da relação entre passividade e atividade, entre individual e geral, entre temporal e supratemporal
  • O problema da relação entre o temporal e o supratemporal permite melhor compreender a oposição entre a experiência originária e a prestação de conhecimento, tratando-se de dar conta do surgimento do momento imanente mas irreal e supratemporal do conhecimento, que permanece idêntico através de todas as suas repetições reais
    • A operação de objetivação, operação ativa do Eu, cria tal identidade na predicação, a qual constitui a única posse durável, comunicável e utilizável no futuro, para além da situação momentânea
  • Trata-se de compreender a passagem da objetivação que ocorre na experiência antepredicativa, resultando na construção de objetos reais, para aquela que origina objetos em sentido pregnante, as objetividades de entendimento ou objetividades categoriais produzidas na atividade predicativa, sendo a diferença principal entre essas duas espécies de objetos uma diferença de temporalidade
    • A relação necessária ao tempo está sempre presente e pertence originariamente a todos os objetos
    • O tempo dos objetos naturais é o tempo objetivo, ao passo que o das objetividades de entendimento, não individualizadas como os objetos reais em um ponto do tempo, é apenas contingentemente o tempo objetivo, já que sua ausência de situação temporal permite sua produção idêntica em tempos diferentes
    • A supratemporalidade das objetividades de entendimento deve ser compreendida como uma onitemporalidade, ou seja, como um modo da temporalidade, pois a unidade supratemporal não está fora do tempo, mas atravessa a multiplicidade temporal
    • Passa-se assim da experiência antepredicativa e dos objetos reais constituídos no tempo objetivo a uma experiência predicativa cuja Leistung, a produção irreal, pode ser repetida em todo tempo
  • Passar da experiência antepredicativa à predicação e ao juízo geral consiste também em passar da passividade à atividade, da doxa passiva à espontaneidade lógica, distinção menos nítida do que a oposição habitual faz crer
    • Propõe-se um conceito mais radical de passividade do que o da consciência ingênua, havendo já no contemplar um momento ativo, o da explicitação, devendo-se nomear passividade em sentido próprio a predoação puramente afetiva, a crença passiva no ser, a simples estimulação
    • A distinção entre passividade e atividade não é inabalável, pois esses termos são simples instrumentos de descrição, reconhecendo-se a existência de uma passividade na própria atividade, edificada sobre a atividade mesma da apreensão, havendo enredamento da atividade e da passividade que impede distingui-las de fato, opondo-as apenas do ponto de vista genético
    • A receptividade precede a espontaneidade, mas não é autônoma, havendo já de fato algo de predicativo no nível receptivo, de modo que os graus distinguidos — experiência antepredicativa, predicação, juízo geral — que estruturam Experiência e juízo são separações abstratas, e a ordem genética não constitui hierarquia ou cronologia real
  • Permanece a distinção maciça entre o individual e o geral, remetendo à última seção, pois a experiência antepredicativa só fornece substratos individuais ou pluralidades individuais, e os juízos ou objetividades de entendimento obtidos a partir deles comportam apenas núcleos individuais
    • Sendo a ordem genética abstrata, a percepção já tende a apreender o percebido sob conceitos gerais, e a aparição de um objeto individual ocorre sempre sob o horizonte de uma generalidade típica, havendo também aí enredamento do individual e do geral
  • A tarefa assumida em Experiência e juízo constitui ainda investigação limitada frente ao programa mais vasto de uma elucidação fenomenológica do lógico, uma lógica transcendental tal como prometida pelo texto programático e introdutório de 1929, cabendo-lhe pôr a nu a gênese das formas hierarquizadas do juízo
    • Isso permite ver que o domínio do lógico é mais vasto do que aquele visado pela lógica tradicional, havendo já uma atividade lógica depositada em camadas inferiores que a tradição não viu
    • Em certa proximidade com Heidegger e o projeto de Destruktion da lógica que este se propõe nos mesmos anos 1920, Husserl visa nada menos que a reviravolta da tradição lógica em seu conjunto, a fim de atingir o objetivo último da elucidação fenomenológica da lógica, um conceito amplo de logos e de lógica capaz de dar conta das primeiríssimas idealizações pelas quais se constitui um mundo que é apenas para mim
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