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PODER E ATO
OLIVEIRA, Cláudio. Do Tudo e do Todo. Rio de Janeiro: Circuito, 2015 (p. 86-88)
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No capítulo 17 do livro VII da Metafísica, Aristóteles trata do mesmo problema do Teeteto, mas afirma contrariamente a Sócrates que a sílaba não pode ser entendida simplesmente como a soma das letras, pois o composto, e por conseguinte tò pân, não é uma soma, mas algo outro, a ousia, que é a causa de que a matéria seja algo, enquanto o elemento diz respeito ao composto enquanto matéria.
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No capítulo 3 do livro VIII da Metafísica, Aristóteles retoma a questão em termos quase idênticos aos do Teeteto, atribuindo a aporia aos seguidores de Antistenes, mas, ao contrário de Sócrates, vê certa ocasião na questão, pois, se a composição ou a mistura fossem apenas a soma dos elementos, elas não formariam o composto, de modo que tem que haver algo além delas, que não seja nem elemento nem de elemento, mas a ousia.
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A ousia se diz em três sentidos fundamentais: como matéria, como lógos e forma, e como composto a partir de ambos, e, dentro do movimento da Metafísica, Aristóteles privilegia a ousia como aquilo que define a matéria, ou seja, como lógos, eidos, hóros e morphé, mas, sobretudo, como ato (enérgeia).
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O ato pressupõe o poder (dynamis), como a forma pressupõe a matéria e o lógos pressupõe o elemento, mas o poder pressupõe o ato, como a matéria pressupõe a forma e o elemento pressupõe o lógos, de modo que é só no dizer que surge o impossível do dizer, isto é, o elemento, que, por nunca ser todo dito, mantém-se como o impossível de ser dito todo que todo dito visa e nunca esgota.
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O elemento só pode ser dito dividido, partido, não-todo, porque dizer já é partir, dividir, definir e delimitar, e, pelo mesmo motivo, o poder pressupõe o ato, pois, se o poder ainda não é, é preciso o ato não só para que o que ainda não é seja, mas sobretudo para que o que ainda não é ainda não seja, de modo que o poder é a espera do ato e conta com ele já enquanto poder.
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O ato não é a mera realização de uma possibilidade previamente dada, pois o que será será sempre a partir da de-cisão, da cisão, do corte que é o ato, e, como a matéria pode ser tudo, por isso mesmo ela ainda não é nada, e o ato, enquanto decisão, é o acontecimento do ente finito, definido e delimitado, que Aristóteles visa com as palavras eidos, morphé, hóros ou lógos.
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A angústia dessa decisão, criação e ato consiste em encarar o tudo do poder, o indefinido do infinito, o abismo da matéria e o sem fundo do elemento, e, em geral, o homem nunca vai até aí sozinho, mas com os outros, compartilhando as decisões, os atos, os lógos, as idéai, os eidos e os horoi, que são as coisas enquanto obras, exemplos e paradigmas, cuja relação é descrita como koinonía, comunidade.
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A ideia não é o que é comum por ser um universal presente em uma pluralidade de indivíduos, mas, ao contrário, ela está presente nessa pluralidade porque eles são junto a ela e a partir dela, tomando-a como paradigma e modelo, como ato único e concreto, e não como universal ou abstração, e Heráclito fala desse um e comum como mundo e como lógos.
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Há na história da metafísica uma in-de-cisão quanto ao sentido de de-cisão em que consiste o lógos, e Heidegger refere-se a ela ao afirmar que o lógos, enquanto reunião, é o que une, o hén, mas este hén é desdobrado: por um lado, o unificante que une no sentido do em toda parte primeiro e mais geral e, por outro lado, o unificante que une no sentido do mais alto, como Zeus, referência a Heráclito.
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Em Heráclito, no entanto, não existe indecisão quanto ao sentido do um, pois ele afirma que a lei é seguir uma só coisa com decisão, e Parmênides diz que o caminho que é e que não é possível não ser é o caminho da Obediência, pois segue a Verdade, de modo que todo caminho é caminho de obediência e a verdade é o que abre a possibilidade de ser seguido.
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O dilema, o conflito e a dúvida que caracterizam toda a metafísica consistem em sua hesitação em ver que o segundo sentido do lógos como hén só pode ser derivado do primeiro, pois o um como lógos só pode ser o mais alto, e é desde esse mais alto e primeiro, como ato e decisão, que ele é acolhido, respeitado e repetido, tornando-se o mais geral, e a dúvida é não aceitar que a ideia não é universal, mas comum a partir da repetição de uma cisão, de uma decisão, de um ato.
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Heidegger interpreta o hou héneka como o agathón em Platão, cuja essência reside na força de si mesmo como o em vista de quê, isto é, a fonte da possibilidade enquanto tal, e, porque o possível situa-se mais alto que o real, a disposição para o bom é ainda mais digna de ser honrada, e Aristóteles caracteriza o hou héneka, enquanto télos e causa, como o fim na dimensão de princípio, afirmando que em todas as coisas o bom é mais que tudo princípio.
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O ato não é senão decidir-se sobre o “em vista de quê” e sobre o que se quer, e, por isso, o motor primeiro move como desejado, e esse primeiro motor e fim último enquanto desejado é Deus, enquanto Deus é sempre, enquanto ele é o ato, e enquanto o ato do noús é vida, de modo que o desejo de Deus é desejo de ato e, por conseguinte, desejo de decisão.
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A correlação entre lógos, cisão e desejo está na origem, como mostra a narrativa de Hesíodo, segundo a qual, antes de tudo, nasceu Kháos, depois Terra e imediatamente Éros, e Kháos deve ser traduzido como cisão, mas cisão como abertura que rasga, e, pela cisão, a terra se mostra como sede, fundo e fonte infinita de possibilidade, e, imediatamente, está Éros, o desejo, que é o não cessar de extrair do que nunca cessa de dar.
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O desejo produz a mesma consequência de kháos, ou seja, gênese e surgimento, pois, após parir o céu, as montanhas e o mar por força de kháos, a terra se une, por éros, àquilo de que se separara, mas não para voltar a um estado de todo não partido, e sim para dividir-se ainda mais e gerar sua prole, e Hesíodo coloca como descendência de kháos o engano, o amor e a discórdia, e como descendência da discórdia, sempre por cisão, as mentiras e os discursos.
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Heráclito afirma que tudo vem a ser segundo o lógos e também segundo a discórdia, e que o lógos é comum e a guerra é o comum, de modo que lógos e pólemos são o mesmo, xynós, discórdia, e, porque o lógos é também guerra e discórdia, o sentido primário de todo légein é reunir, juntar e colher, mas simultaneamente escolher, diferir e separar, e falar é aquilo desde o que se produz o limite e a delimitação de todas as coisas.
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Heidegger lembra que Aristóteles sabe que todo lógos é ao mesmo tempo synthesis e diaíresis, e o sentido de diaíresis já está dado no termo apóphansis, que é mostrar afastando, mas todo mostrar já é desde si mesmo um afastar, e o que vem em primeiro lugar no legein, como colher e escolher, é o eleger, e o logos é mostrar afastando porque todo mostrar já é separar e destacar o que se elegeu e afastou.
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Ao mostrar afastando, já se decidiu não só sobre o que mostrar, mas sobre o “quê” do que é mostrado, e todo mostrar é já um interpretar, e é aqui que entra o fato de que toda diaíresis já é synthesis, e que todo logos envolve o com (syn) ou o como (als), ou seja, falar é mostrar algo como algo, interpretar e decidir-se sobre a possibilidade de sentido que é a terra enquanto desejo insistente de interpretação.
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Essa correlação fica clara em Aristóteles porque o dizer como interpretar, o dizer algo em relação a algo, que ele chama de kategorieúo, e todos os modos possíveis de fazê-lo, as kategóriaí, são por ele considerados como atos, e também porque o próprio lógos e a composição são atos, sendo o ato e o lógos diferentes desde diferentes matérias.
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A afirmação de Aristóteles de que o composto de algo seja tal que o pân seja um diz não só que a composição não é uma soma, mas também que ela não é um todo intacto e completo, e que a sua unidade constitui-se precisamente por essa divisão e cisão que é o ato enquanto logos, e, no caso da unidade da ousía, não se trata de uma unidade como soma de unidades, pois as ousíai são números como o lógos pode sê-lo, e a definição é um certo número divisível até chegar em indivisíveis.
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Aristóteles distingue pân de hólon ao afirmar que, sobre o quanto que tem princípio, meio e fim, naqueles em que a posição não faz diferença, diz-se pân, e naqueles em que faz, diz-se hólon, mas, no início do livro XII da Metafísica, ele afirma que, se o tudo (tò pân) é como algo todo (hólon ti), a ousía é a sua primeira parte, o que coloca claramente que a parte só pode ter uma relação essencial com o todo (hólon) e não com o tudo (pân), e que, se o tudo fosse um todo e tivesse partes, as outras partes seriam as outras categorias.
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Nessa passagem do livro XII, tò pân aparece claramente como sinônimo de tò ón e, mais precisamente, de tò eînai, e a hipótese de que o tudo seja algo todo é a hipótese de que o ser seja o todo das categorias, mas, embora o ser se diga de muitos modos, não é possível nem o ser nem o um serem um gênero dos entes, o que é um outro modo de enunciar a diferença ontológica e de dizer que as categorias não são espécies e que o tudo não é um todo.
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No Parmênides, Sócrates afirma a Parmênides que ele, em seus poemas, afirma que tò pân é um, e essa fala apresenta a sentença de Parmênides como equivalente à de Zenão, que nega que a totalidade do que é seja múltipla, de modo que, para Sócrates, tò pân é sinônimo de tà ónta, e Heidegger, em seu curso sobre a Metafísica, pergunta se a soma de todos os entes à qual se chega pela enumeração é o ente, e afirma que o ente, embora seja o ao todo, não pode ser entendido como um indeterminado segundo o número, nem como a soma de todos os entes.
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Em Platão e Aristóteles, não se encontra uma definição de tò pàn como se encontra de tò hólon, o que não é um acaso, pois tò hólon é totalmente definível e sua significação fala em definição, enquanto tò pàn não pode ser definido como um conceito ou universal, já que só há um tò pân, e este um não pode ser entendido no sentido do singular que se opõe ao plural, de modo que tò pân só pode ser entendido como um Singulare tantum, o que implica pensar cada coisa como um singular sem plural e, talvez, como elemento e como número, e não como unidade formal.
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