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Verdade

Taylor Carman. WRATHALL, Mark A. The Cambridge Heidegger Lexicon. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge university press, 2021.

Verdade (Wahrheit)

1. A compreensão tradicional da verdade como correção ou concordância (Übereinstimmung) entre uma crença e um fato, uma proposição e um estado de coisas, ou a mente e o mundo, sintetizada na tese de Tomás de Aquino, é questionada por Heidegger, que sustenta que poetas e pensadores nem sempre conceberam a verdade dessa forma e que uma noção mais fundamental persiste em nosso entendimento ordinário da relação com o mundo, residindo aí a alegação de que no grego arcaico aletheia significava revelação, abertura (Erschlossenheit) e desencobrimento (Unverborgenheit), sendo o conceito atual de verdade como correção ainda dependente dessa compreensão mais fundamental do desencobrimento, aquilo em virtude do qual qualquer coisa pode se mostrar no mundo como verdadeira ou como sendo descrita corretamente.

2. A crítica de Heidegger ao conceito tradicional de verdade é frequentemente mal interpretada, seja pela suposição de que ele rejeita completamente a ideia de correção, quando na verdade a considera uma parte legítima da noção ordinária que não deve ser descartada, seja pela leitura que reduz sua crítica a uma objeção meramente técnica à teoria da correspondência, ignorando que ele argumenta que o conceito de verdade sofreu uma transformação fundamental com o surgimento do pensamento metafísico na antiguidade clássica, de modo que o entendimento atual permanece mais rico e profundo do que as noções familiares de correção e correspondência, as quais só fazem sentido contra o pano de fundo de nossa compreensão tácita do desencobrimento.

3. No §44 de “Ser e Tempo”, Heidegger argumenta que o “fundamento ontológico” do conceito tradicional de verdade é o fenômeno do descobrimento (Entdecken), afirmando que uma asserção só pode ser verdadeira se estiver envolvida no descobrimento de entidades, o que ele apresenta como o significado de uma asserção ser verdadeira, ou seja, que ela descobre a entidade em si mesma (an ihr selbst), deixando-a ser vista em sua descobridade, de modo que a verdade da asserção deve ser entendida como ser-descobridor.

  • Essa abordagem, no entanto, não constitui uma teoria da verdade que pretenda reduzir a correção ao descobrimento, mas sim duas reivindicações distintas: uma negativa e uma positiva.
  • A reivindicação negativa é que a verdade não pode ser compreendida como uma correspondência ou aproximação entre duas coisas ocorrentes (vorhanden), pois a verdade não tem a estrutura de uma semelhança (Angleichung) entre um ente sujeito e um ente objeto, sendo essa crítica ampliada no ensaio “Sobre a Essência da Verdade” para incluir também a “verdade material” (Sachwahrheit) das coisas.
  • A reivindicação positiva é que o descobrimento é essencial para a verdade: para que uma asserção seja verdadeira é necessário que ela descubra uma entidade como ela é “em si mesma”, e para que uma entidade seja verdadeira (ou real) é necessário que ela seja assim descoberta.

4. Embora Heidegger negue que a verdade possa ser entendida como uma relação de correspondência entre duas coisas dadas, os estudiosos divergem sobre se ele aceita alguma outra noção de correspondência como um aspecto benigno do conceito ordinário de verdade, e uma maneira de resolver essa divergência é lembrar que ele direciona sua crítica a dois conceitos distintos, embora frequentemente os confunda, a saber, o conceito ordinário de correção (Richtigkeit), que significa simplesmente estar certo (richtig) em vez de errado, e o conceito tradicional, que é uma teoria que pretende analisar ou explicar a correção descrevendo-a como adequação, conformidade, correspondência ou concordância (Übereinstimmung).

  • O argumento de Heidegger pode ser decomposto em duas afirmações: (1) que o desencobrimento é a condição de possibilidade da correção, e (2) que o desencobrimento é o que empresta à ideia de correspondência sua aparente plausibilidade como teoria da correção, embora ele insista que a correspondência não acrescenta nada esclarecedor ou explicativo ao conceito de correção, considerando-a “vazia”, “obscura”, “ambígua” e “ininteligível”.
  • Conclui-se que o que Heidegger rejeita não é o conceito de correção, mas a imagem ou metáfora adicional da correspondência, que pretende esclarecer esse conceito, mas na verdade apenas o obscurece.

5. Além da reivindicação negativa, Heidegger argumenta positivamente que a verdade de uma asserção consiste em seu descobrimento de uma entidade como ela é “em si mesma”, embora o descobrimento como tal não possa analisar o conceito ordinário de verdade, uma vez que asserções falsas também descobrem entidades, embora não como elas são “em si mesmas”, e em grande parte da experiência ordinária as entidades não estão completamente ocultas, mas precisamente descobertas e ao mesmo tempo encobertas (verstellt), mostrando-se, porém, no modo da aparência ([[lx>termos:s:schein|Schein]]), que é definida como o ente (Seiendes) mostrando-se como aquilo que não é em si mesmo, ou seja, como falsidade.

6. Ernst Tugendhat apresentou uma crítica famosa à abordagem de Heidegger sobre a verdade, argumentando que ela repousa em uma equivocação fatal, pois, partindo do pressuposto de que Heidegger tenta analisar ou reduzir a verdade ao descobrimento, Tugendhat aponta que, uma vez que asserções falsas descobrem entidades tanto quanto as verdadeiras, a explicação precisa recorrer ao qualificador crucial “em si mesmas”, para o qual Heidegger não oferece uma explicação positiva que distinga a verdade da falsidade, sendo o essencial para a verdade justamente sua distinção normativa da falsidade, uma distinção que a noção de descobrimento não pode estabelecer, levando Tugendhat a concluir que Heidegger não avançou além do que já foi dito sobre a verdade e que o que há de original em sua abordagem equivale a uma abdicação do conceito.

  • Contudo, questiona-se se Tugendhat está correto ao supor que o objetivo da explicação de Heidegger é analisar ou reduzir a verdade ao desencobrimento, uma vez que Heidegger afirma explicitamente que a aparência (Schein) é um tipo de descobrimento, não podendo, portanto, ter suposto que o descobrimento é o que distingue o verdadeiro do falso.
  • É mais plausível interpretar Heidegger como argumentando que o descobrimento é essencial para a verdade como uma condição necessária, mas não suficiente, pois a verdade pressupõe o descobrimento, mas a falsidade também, já que mesmo a ideia de uma asserção falsa pressupõe alguma noção daquilo sobre o que ou com respeito ao que a asserção é falsa, ou seja, algo descoberto ou descobrível como diferente do que a asserção diz.
  • Essa interpretação é consistente com a afirmação explícita de Heidegger de que sua “definição” de verdade não visa refutar ou suplantar o conceito ordinário ou o tradicional, mas sim uma apropriação primordial da tradição, demonstrando como a teoria teve que chegar à ideia de correspondência com base no fenômeno primordial do descobrimento, e que traduzir aletheia como verdade e defini-la conceitualmente de maneiras teóricas é encobrir seu significado original, motivo pelo qual Heidegger refere-se à sua própria “definição” de verdade entre aspas, indicando que ela não é nem uma análise da verdade nem uma definição da palavra “verdade”.

7. Mais fundamental do que sua explicação do descobrimento como condição necessária tanto da asserção verdadeira quanto da falsa é o esforço de Heidegger em “Ser e Tempo” para rastrear a verdade de volta à estrutura ontológica do ser-no-mundo, ou à “abertura” (Erschlossenheit) do Dasein, partindo do ato concreto de fala da asserção (Aussage) em vez da sentença ou proposição abstrata (Satz), pois a asserção é um tipo de compreensão (Verstehen) e, portanto, uma forma de “comportamento” (Verhalten) em relação à coisa existente, e o Dasein descobre entidades de várias maneiras, como percebendo, usando ferramentas ou reconhecendo outras pessoas, sendo o ser-descobridor uma possibilidade para asserções apenas porque é uma possibilidade para os seres humanos, que só descobrem entidades porque revelam mundos.

  • Assim, ser-verdadeiro como ser-descobridor é ontologicamente possível apenas com base no ser-no-mundo, e a abertura (Erschlossenheit) do Dasein é o fundamento do fenômeno primordial da verdade, de modo que o próprio descobrimento é um modo de ser do ser-no-mundo e aquilo que é primariamente “verdadeiro”, isto é, descobridor, é o Dasein, que está “na verdade” (in der Wahrheit) pelo simples fato de existir.
  • Heidegger também sustenta que toda verdade é relativa ao ser do Dasein e que só há verdade na medida e enquanto o Dasein é, formulações que podem sugerir um idealismo ou relativismo extremo, mas que, na verdade, distinguem rigorosamente as entidades, de um lado, e as verdades que as descobrem, de outro, de modo que a maneira como o mundo físico realmente é não depende de Newton ou de suas leis, pois as leis se tornaram verdadeiras através de Newton, mas as entidades em si mesmas já existiam antes e se mostraram como tais com o descobrimento.
  • Dizer que a verdade é “relativa ao Dasein” não significa que a maneira como as coisas são depende de nós e de nossas crenças, mas sim que a verdade não é intrínseca às entidades, sendo a maneira como elas são acessíveis a nós, assim como a visibilidade não é uma propriedade intrínseca das coisas, mas a maneira como elas podem ser vistas, o que leva a uma interpretação que, embora mais forte do que tautologias, é mais fraca do que a pretensão relativista, apontando que a verdade não é uma propriedade dos objetos, mas um aspecto da inteligibilidade, que é fundamentalmente diferente das estruturas ou características ocorrentes das entidades, sobre as quais as asserções e crenças verdadeiras são verdadeiras, caracterizando Heidegger como um realista não sobre a verdade, mas sobre as entidades das quais (pelo menos algumas) verdades são verdadeiras.

8. Permanece um problema: mesmo que Tugendhat estivesse errado ao supor que Heidegger tentava definir ou analisar a correção como descobrimento, sua crítica levanta uma questão incômoda para a explicação de Heidegger, a saber, por que chamar o descobrimento, o desencobrimento e a abertura (Erschlossenheit) – que são condições necessárias, mas não suficientes, da correção – de “verdade”, se o desencobrimento é meramente uma condição indiferente tanto da verdade quanto da falsidade, tornando chamá-lo de “verdade” no mínimo enganoso, ou se há um tipo de desencobrimento envolvido na verdade que a distingue da falsidade, sendo necessário explicar como ele difere do tipo contrastante de desencobrimento que caracteriza a incorreção, a ilusão, a aparência, o dissimular e a falsificação.

  • Uma possível solução para esse problema reside na assimetria estrutural dos pontos de vista em primeira e terceira pessoas, pois não é que crenças e asserções falsas não possam ser consideradas descobridoras de entidades, mas o desencobrimento também não é uma condição inteiramente neutra da verdade e da falsidade, sem relação especial com o verdadeiro em contraste com o falso.
  • O que torna possível considerar uma crença como verdadeira é o próprio fato de tê-la, assim como o que torna possível considerar asserções como verdadeiras é a prática efetiva de fazer asserções, de modo que, embora possamos admitir que a astronomia ptolomaica, embora falsa, tenha revelado a terra como imóvel para cientistas antigos e medievais, não podemos considerar suas crenças como revelando-a como imóvel para nós, pois as crenças falsas, precisamente por serem falsas, longe de descobrirem entidades “em si mesmas”, aparecem para nós como obstáculos e barreiras a essas entidades, distorcendo-as e ocultando-as, de maneira que as observações, ilustrações, atitudes, proposições e teorias que podemos considerar como reveladoras de coisas para nós são justamente aquelas que aceitamos como verdadeiras.

Referências em Heidegger

A verdade foi um dos temas mais importantes no pensamento de Heidegger, particularmente de meados da década de 1920 a meados da década de 1940, período em que retornou repetidamente a questões sobre a verdade, sua essência, seu significado e as condições de sua inteligibilidade, tendo ministrado cursos e publicado ensaios dedicados ao tema, como “Lógica: A Questão da Verdade” (GA21), “Sobre a Essência da Verdade” (GA9), além de passagens em “Ser e Tempo” e em outros cursos e obras publicadas e póstumas, como “Introdução à Filosofia” (GA27), “Questões Fundamentais da Filosofia” (GA45), “A Doutrina de Nietzsche sobre a Vontade de Poder como Conhecimento” (GA47), “Parmênides” (GA54), “O que é Metafísica?” (GA9), “A Origem da Obra de Arte” (GA5), “A Doutrina de Platão sobre a Verdade” (GA9), e as obras póstumas “Contribuições à Filosofia” (GA65), “Reflexão” (GA66) e “O Acontecimento” (GA71).

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