Aletheia
Taylor Carman. WRATHALL, Mark A. The Cambridge Heidegger Lexicon. Cambridge New York (N.Y.): Cambridge university press, 2021.
1. A tradução do termo grego “aletheia” como “verdade” não apresenta maiores dificuldades ou controvérsias, embora a transposição de palavras do grego antigo para línguas modernas frequentemente demande precisão.
2. A crítica de Heidegger ao conceito de verdade se desdobra em duas reivindicações centrais, sendo a primeira de ordem transcendental e a segunda de ordem histórica.
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A reivindicação transcendental afirma que tanto a noção comum de verdade como correção quanto a concepção teórica dominante desde Aristóteles, que a define como concordância ou correspondência entre crenças/proposições/mente e fatos/estados de coisas/mundo, pressupõem um fenômeno mais fundamental designado por ele como desencobrimento (Unverborgenheit), caracterizado pela abertura de um mundo e pelo aparecimento das coisas para nós de maneira determinada.
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A reivindicação histórica, apresentada no ensaio “A Doutrina de Platão sobre a Verdade” (1940), sustenta que para os pensadores pré-socráticos e os poetas do período arcaico a verdade (aletheia) significava desencobrimento, tendo passado a significar correção (orthotes) apenas a partir da alegoria da caverna na “República” de Platão, momento a partir do qual a busca pela “verdade” passou a se orientar pela obtenção de uma visão correta das ideias.
3. A posição de Heidegger acerca da transformação histórica do conceito de verdade sofreu uma revisão tardia, sobretudo a partir de críticas como a de Ernst Tugendhat, levando-o a reconhecer que a palavra não significava exclusivamente desencobrimento antes do século IV a.C. e que sua própria equiparação terminológica entre aletheia e verdade fora inadequada e enganosa.
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No ensaio “O Fim da Filosofia e a Tarefa do Pensamento” (1964), Heidegger admite que a aletheia, compreendida como desencobrimento no sentido de abertura (Offenheit), não pode ser igualada à verdade no sentido tradicional de correspondência, pois a abertura apenas concede a possibilidade da verdade e, portanto, perguntar pela aletheia não é o mesmo que perguntar pela verdade.
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Essa admissão, porém, não configura necessariamente uma rejeição total de sua visão anterior, podendo ser interpretada como o abandono do esforço de ampliar o sentido da palavra moderna “verdade” (Wahrheit) para abarcar todo o fenômeno do desencobrimento, mantendo-se, contudo, a ideia de que a aletheia grega abrangia tanto o desencobrimento quanto a correção.
4. Mesmo na leitura mais conservadora da revisão tardia de Heidegger, fica clara a retratação de uma parte importante de sua posição anterior, especificamente a reivindicação histórica de que aletheia passou a significar correção apenas na época de Platão, uma vez que ele próprio reconhece que a experiência original da aletheia como abertura da presença já se dava como orthotes, como correção da representação e da asserção, tornando insustentável a tese de uma transformação essencial da verdade de desencobrimento para correção.
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Tal concessão responde a críticas como a de Paul Friedländer, que demonstrou que Homero já compreendia a verdade como correção, utilizando inflexões de aletheia em conexão com verbos de asserção, referindo-se não ao não-oculto, mas àquilo que não é tortuoso ou distorcido, como no exemplo dos jogos fúnebres na “Ilíada”, onde Fênix é incumbido de anunciar a verdade (aletheien apeipein) ao relatar com precisão quem passou ao redor da coluna de chegada.
5. Independentemente da admissão de que a palavra aletheia não adquiriu um significado inteiramente novo no século IV a.C., permanece válida a possibilidade de que ela possuísse um conteúdo mais amplo e rico no período arcaico do que as palavras equivalentes em outras línguas (veritas, vérité, Wahrheit) vieram a ter posteriormente, especialmente no discurso filosófico e científico.
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Reconhecer que aletheia também significava correção na poesia arcaica tem a vantagem de evitar a objeção de que a palavra grega teria pouco ou nada a ver com o conceito moderno de verdade, o que tornaria “verdade” uma mera tradução incorreta do termo grego.
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Heidegger mostrou-se sensível a esse ponto, concedendo, tanto em “Ser e Tempo” quanto em 1964, que a palavra “verdade” não captura o que ele considera filosoficamente significativo no sentido arcaico de aletheia, a saber, o descobrimento das entidades, a abertura (Erschlossenheit) do Dasein e o desencobrimento do ser.
