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estudos:capelle:teologia-e-filosofia-2001-22-2b

TEOLOGIA E FILOSOFIA (2001 §22 2b)

CAPELLE, Philippe. Philosophie et théologie dans la pensée de Martin Heidegger. Nouv. éd. rev. et augm ed. Paris: les Éd. du Cerf, 2001.

No final de sua obra De l’esprit, J. Derrida “imagina” uma cena entre Heidegger e os teólogos cristãos: “Mas o que vocês chamam, diriam estes últimos, de espírito arqui-originário e que vocês afirmam ser estranho ao cristianismo, é justamente o mais essencial ao cristianismo. Assim como vocês, é isso que gostaríamos de despertar sob teologumenos, filósofos ou representações comuns.”1) Derrida quer experimentar, até suas mais fortes tentações, o gesto de reapropriação cristã do dispositivo central de Heidegger: “Agradecemos a vocês, diz ele aos teólogos, pelo que dizem […], é exatamente isso que sempre buscamos […]. Acreditamos que vocês vão ao essencial do que queremos pensar, despertar, restaurar em nossa fé […]. Vocês dizem o que se pode dizer de mais radical quando se é cristão hoje. 2) O ponto de vista examinado vale, aliás, tanto para os judeus quanto para os muçulmanos: “Nesse ponto, especialmente quando você fala de Deus, de retirada, de chama e de escrita de fogo na promessa […], não é certo que você não receba uma resposta análoga e um eco semelhante do meu amigo e correligionário, o judeu messiânico. Não tenho certeza se o muçulmano e alguns outros não se juntariam ao concerto ou ao hino.”3) Depois de examinar a argumentação teológica da reapropriação religiosa de Heidegger, J. Derrida concebe a resposta deste: “Ao afirmar que o Gedicht de Trakl — e tudo o que digo com ele — não é nem metafísico nem cristão, não me oponho a nada, muito menos ao cristianismo, nem a todos os discursos sobre a queda, a maldição, a promessa, a salvação, a ressurreição, nem aos discursos sobre pneuma e spiritus, nem mesmo, eu havia esquecido, sobre a ruah. Tento apenas, modestamente, discretamente, pensar “a partir do que” tudo isso é possível. 4) O pensamento de Heidegger não assume o discurso do teólogo, à maneira de uma Aufhebung; ele se instala em um local de “pré-arquioriginaridade”, onde o teológico cristão, o religioso e a metafísica recebem um status de derivação. Esse é o primeiro momento de uma resposta elaborada segundo a lógica do “passo atrás” e da “repetição”.

Segundo momento: “Se, explica Derrida, lhe disséssemos que essa repetição não acrescenta, não inventa nem descobre nada […], Heidegger, imagino, responderia: no que você chama de caminho da repetição que nada acrescenta […], o pensamento dessa Frühe a vir, ao avançar assim em direção à possibilidade do que você acredita reconhecer, vai em direção ao que é totalmente diferente do que você acredita reconhecer. Não se trata, de fato, de um novo conteúdo. Mas o acesso ao pensamento, o acesso pensante à possibilidade das metafísicas ou das religiões pneumático-espiritualistas, abre-se para algo totalmente diferente do que a possibilidade torna possível (Ibid., p. 183-184). O pensamento heideggeriano faz, na realidade, mais e outra coisa do que realizar filosoficamente os conteúdos teológicos, mais e outra coisa do que reivindicar uma originalidade mais originária do que a da teologia e das religiões. Pois, no passo que retrocede, o “originário” é ele próprio superado. Tal é o alcance da expressão “pré-arqui-originar”, cunhada por Derrida. O “pensar” só é “originar” quando responde ao chamado e à tarefa de pensar “sem parar”: nem mais a fundação teológica ou metafísica, nem mais um ponto de origem. Daí o dever incessante da conversa: “Basta continuar a falar, não interromper entre o poeta e você, ou seja, entre você e nós, essa Zwiesprache. 5) O pensamento em recuo dá a entender que a conquista de toda originalidade deve se apagar, se retirar diante do que está lá, na medida em que esse lá é acessível ao pensamento, “heterogêneo na origem” 6). Tal é o “todo outro” irredutível à teologia, às religiões e à metafísica: nenhuma delas poderia recapitular, integrar, realizar o pensamento que, na “repetição”, abre-se para o que nunca foi levado em conta.

1)
J. Derrida, De l’esprit, p. 179.
2)
J. Derrida, p. 179-181.
3)
Ibid., p. 181.
4)
Ibid., p. 182.
5)
Ibid., p. 184.
6)
Ibid.
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