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BUZZI, Arcângelo. A Identidade Humana. Petrópolis: Vozes, 2002.

A IDENTIDADE NA MEMÓRIA DE SEU PURO NADA

1. A questão fundamental da metafísica interroga por que há simplesmente o existente e não antes o Nada (Nichts), afirmando-se como a primeira e mais radical de todas as questões.

2. O saber mais lúcido que orienta o estilo de vida da identidade humana no mundo provém do sentimento do nada (Nichts) que constitui sua própria existência, na medida em que, ao buscar saber o que deve fazer e o que pode esperar, ela se reconhece como vida destinada à morte, ainda que viva na livre doação do verbo ser (Sein) e possa proclamar-se existente.

3. A ameaça da não-existência não provém de fora, mas da própria identidade, e pode manifestar-se tanto em momentos de júbilo quanto, mais frequentemente, na monotonia quotidiana e na sobrecarga de compromissos, quando o nada da identidade humana se espelha com maior clareza no rosto de sua existência.

4. O nada que ameaça a identidade humana conduz à compreensão imediata da condição do ente (Seiend) que se é, revelando uma identidade mendicante do ser (Sein) e participante temporária de sua doação, o que, longe de levar à desistência, intensifica a pesquisa de suas raízes e origem.

  • A identidade que na memória de seu puro nada busca o sendo da existência situa-se, com isso, na própria questão de seu fundamento (Grund).

5. Por pairar sobre um fundo-sem-fundo (Ab-grund), em total dependência de uma doação subtraída ao seu poder de apelo e comando, a identidade humana perscruta o fundo-originário que lhe dá sustentação.

  • O fundo originário não se mostra nem como um ente absoluto nem como um nada absoluto, mas como uma sub-stância, ou melhor, um sopro etéreo em retração, que ao dar-se de si permanece invisível e escondido.
  • Esse escondimento mobiliza a identidade humana não propriamente pelo interesse no escondido, mas pelo interesse naquilo que se mostra e se põe ao alcance de seu poder, à semelhança do faminto que se dirige não à vida, mas ao alimento ao alcance de suas mãos, louvando-o e agradecendo-lhe como sustento.

6. A imagem do senhor berbere que retorna da tosquia de suas ovelhas, cujo balido imita o murmúrio de uma corrente d'água capaz de tranquilizar os sedentos, ilustra poeticamente essa relação entre o patrimônio recebido e a origem escondida que o sustenta.

7. Entregue às ocupações do cotidiano familiar e aos negócios do mundo, a identidade humana pouco atende ao murmúrio da água escondida que sustenta seu patrimônio e pouco ou nada questiona a facticidade (Faktizität) que lhe é dada antes da tomada de consciência de si.

  • No mais das vezes, nas ocupações do cotidiano e nos negócios do mundo, a identidade humana deixa apenas entrever seu interesse e paixão em viver a existência no médium cultural prestigiado pela respectiva época.

8. Voltada hoje ao interesse de viver uma cultura tecnológica, alavancada pelas ciências positivas e incentivada pela educação em todos os níveis do saber escolar, a identidade humana evita defrontar-se com a questão de por que há a existência e não antes a não-existência.

  • Ainda que restrita à cultura do saber científico, cujo objetivo maior é apropriar-se da natureza, a identidade humana não apaga de sua memória o murmúrio do puro nada de sua vida.
  • Vale-se, assim, de imagens virtuais, para além da linguagem significativa, a fim de celebrar, no túmulo de seu nada, a presença de um vigor inefável e invisível que a sustenta.

9. A necessidade de, de quando em quando e à distância, tomar banho no túmulo é evocada como imagem do retorno periódico à consciência da própria finitude.

10. O inefável, que de fato existe, mostra-se por si mesmo ao místico.

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