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estudos:begout:ambiencias-2020

AMBIÊNCIAS (2020)

BÉGOUT, Bruce. Le concept d’ambiance: essai d’éco-phénoménologie. Paris: Éditions du Seuil, 2020.

  • A noção de “ambiance” (ambiência) se apresenta como vaga e indeterminada.
    • Bergson, em O Pensamento e o Movente, critica a falta de precisão da filosofia, que cria sistemas “muito largos” para a realidade.
    • A filosofia deve ajustar seus conceitos à experiência, buscando não exatidão lógica, mas uma justeza e pertinência reveladora.
  • A análise filosófica das ambiências enfrenta imediatamente a exigência de precisão.
    • Como definir esses climas afetivos que impregnam todas as situações?
    • A filosofia, que aspira a conceitos, parece embaraçada diante de algo indeterminado e dificilmente expressável.
    • A língua comum fala de “ambiance” no sentido restrito de uma atmosfera convivial e animada, mas esta acepção não cobre todas as dimensões do fenômeno.
  • Apesar da dificuldade de definição, todos experimentam e reconhecem as ambiências no cotidiano.
    • Nenhuma experiência humana é desprovida de tonalidade afetiva; até a neutralidade aparente é uma tonalidade.
    • A ambiência é o modo de ser comum dos homens no mundo; percebemos nuances atmosféricas e nos adaptamos a elas intuitivamente (ex.: em um velório).
    • Toda avaliação prática (reconhecimento de um valor estético ou ético) se efetua no interior de uma tonalidade afetiva.
  • Mas sentir as ambiências não significa sabê-las descrever ou compreender.
    • Ao tentar clarificá-las, fala-se vagamente de “algo no ar”.
    • A ambiência é sentida e ignorada ao mesmo tempo; conhecida na intuição, mas difícil de analisar.
    • Há um hiato entre o conhecimento instintivo/pré-reflexivo das ambiências e a dificuldade teórica de qualificá-las.
  • Esta dificuldade talvez seja uma característica própria do dado mesmo, não uma deficiência conceitual.
    • Tendemos a crer que os limites da língua são os limites do mundo, mas uma parte da experiência é “muda” (Husserl), ocorrendo antes dos atos de verbalização (formação antepredicativa).
    • A obsessão pela clareza não deve nos fazer pensar que tudo deve ser claro e distinto. A obscuridade, o flou podem ser caracteres intrínsecos de certas realidades.
    • A vontade de elucidação pode se desviar, substituindo o dado por uma ilusão inteligível.
  • A ambiência não é uma “coisa” (complexo de qualidades corpóreas no espaço).
    • O dado mais próximo não é a coisa, mas o que a envolve como tonalidade afetiva.
    • A ambiência não pertence à categoria da substância (ousia, res) que governa nossa ontologia desde Aristóteles (ontologia do definido, do estável, do identificável).
    • Este “reísmo” arraigado nos torna cegos a fenômenos não objetais, como os “media sensíveis” (ar, água, som, luz, calor, odor), que são móveis, difusos, diáfanos, sem limites espaciais fixos.
    • Estes meios são mediais, não objetais; eles se desdobram entre as coisas, as envolvem e penetram.
  • A ambiência, embora não seja um medium sensível, compartilha muitas de suas qualidades.
    • Ela aparece de maneira difusa, passageira, aérea, ilimitada; sua tonalidade afetiva parece flutuar no ar.
    • O substancialismo teórico da res impede reconhecer a especificidade ontológica das ambiências.
    • A filosofia tradicional ou as classifica no “vago” e “enigmático” com desprezo, ou as reifica em entidades sensíveis, perdendo seu caráter tonal.
    • O objetivo deste trabalho é propor um novo quadro teórico (análise medial) que faça justiça ao ser fluido das ambiências.
  • A filosofia historicamente se interessou pouco pelo “vago”, valorizando o definido, claro, neto, identitário.
    • Peter Sloterdijk lamenta que a cultura racional europeia, obcecada pela objetivação, tenha ignorado o elemento atmosférico, não objetual e não informativo.
    • Nossa percepção é viciada por preconceitos; percebemos só o que preenche uma expectativa, o que “cabe em uma gaveta”.
  • O vago (vagus) não é simplesmente o que falta nitidez (definição negativa).
    • A filosofia, nutrida pelo ideal científico de exatidão, vê o vago como um defeito de atenção, algo que seria definível com mais esforço.
    • Mas a vaguidão (ou “vagüidade”) pode ser ontológica, não psicológica. Há uma essência do vago, do difuso.
    • A vaguidão abrange um vasto domínio de fenômenos mediais e atmosféricos que desempenham um papel fundamental em nossa experiência.
    • A filosofia não deve temer o vago, mas aceitar a recomendação de Merleau-Ponty: reconhecer o indeterminado como um fenômeno positivo.
  • As ambiências, por mais vagas, são fenômenos identificáveis e até repetíveis.
    • Sua falta de definição não é um déficit de ser ou de conhecimento. A vaguidão é uma propriedade do fenômeno e também uma “chance” epistêmica (Andreas Rauh) para entender o excedente da percepção.
  • Para captar esta vaguidão, a filosofia deve abandonar a exatidão em favor da sutileza.
    • A sutileza é a maneira humana de compreender o que excede o definido; ela tem valor epistêmico e revela o modo de ser do que escapa aos contornos netos da substância.
  • Seguindo o “princípio dos princípios” da fenomenologia, é preciso respeitar o fenômeno tal como se dá.
    • Antes de explicar ou interpretar com esquemas teóricos, é preciso captar seu modo próprio de doação na situação originária.
    • O conceito de ambiência sofre o duplo descrédito: o tradicional da afetividade (superficial, irracional) e o do que não se manifesta claramente (sombras, aura, noturno).
    • O objetivo deste trabalho é contestar essa visão e mostrar que um pensamento autêntico das ambiências é possível, aplicando as ferramentas adequadas de compreensão.
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