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estudos:begout:ambiencia-2020
AMBIÊNCIA (2020)
BÉGOUT, Bruce. Le concept d’ambiance: essai d’éco-phénoménologie. Paris: Éditions du Seuil, 2020.
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A elucidação do conceito de “ambiance” (ambiência) requer uma análise de sua origem histórica e semântica.
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O termo “ambiance” aparece no francês no final do século XIX, no contexto da literatura simbolista e decadente (ex.: Villiers de l'Isle-Adam, irmãos Goncourt, André Gide).
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Em reação ao naturalismo e à teoria sociológica do milieu (meio), os simbolistas cunharam “ambiance” para designar a modificação atmosférica do meio.
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Enquanto o milieu (Comte, Taine, Zola) é uma estrutura físico-social determinante, a ambiance é um meio aéreo, indefinível, efêmero, um “ar que flutua” sobre coisas e homens.
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A ambiência se diferencia do milieu por três propriedades essenciais:
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(a) Relação mais vaga e incerta com o mundo: a influência da ambiência não é causalidade implacável, mas um raio difuso, descontínuo e à distância. O sufixo “-ance” marca esta atenuação quase musical do milieu ambiant em ambiance.
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(b) Meio tornado mais sensível, expressivo e afetivo: o milieu social refere-se a determinações físicas e morais objetivas; a ambiance indica imediatamente a fusão afetiva entre o lugar e o humor de quem o experimenta. Ela desloca o foco da influência material para o impacto afetivo.
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© Caráter sempre local e situado: a ambiência pertence a lugares particulares; é o afeto mesmo da situação. Enquanto as “circunstâncias” são fatores separados e objetiváveis, a “situação” é uma unidade tonal e local. A ambiência é o modo de manifestação imediato da situação, uma totalidade atmosférica aqui e agora.
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A língua francesa conhece o adjetivo “ambiant” desde o século XVI, designando a qualidade espacial e física do ar (meio envolvente), sem ressonância afetiva.
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O milieu ambiant é desprovido de ambiance; os corpos nele estão simplesmente incluídos, sem experimentá-lo afetivamente.
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A análise filológica deve ser completada por uma “semântica histórica” (como propõe Leo Spitzer), que reinscreve as palavras na história das ideias e em suas relações com noções vizinhas (meio, ar, aura, ambiente).
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A semântica histórica de Spitzer revela:
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Na pensamento grega, periékhon designa o que nos rodeia e exerce influência.
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Em latim, o verbo ambire (rodear, abraçar) é um equivalente conceitual. O termo ambiens associado ao ar ambiente (aria ambiens) carregava uma significação afetiva: expressava não apenas o que cerca, mas uma unidade harmoniosa e simpática com o entorno.
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Com a Revolução Científica moderna, o ambiens perdeu esta nuance calorosa, foi objetivado e despido de conotações afetivas.
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A ambiance dos simbolistas recupera séculos depois esta dimensão vibrante, o Urgefühl (sentimento originário) da cordialidade de um entorno protetor. Ela é a “antítese do milieu (ambiental) determinista”.
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O sentido próprio da ambiência não é redutível ao de “ambiente” ou “meio”.
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Ela traz uma nuance nova: o que nos rodeia não é neutro (como “meio” ou “circunstâncias”), mas possui uma valor protetor e caloroso, uma dimensão sentimental.
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A raiz indo-europeia amb- (que está dos dois lados, que envolve e abraça por todos os lados) já continha este núcleo.
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Propõe-se uma distinção terminológica:
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“Ambiant” (ambiental): reservado à qualidade espacial e objetiva de um meio.
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“Ambianciel” (ambiencial): para designar a experiência tonal que une o indivíduo ao seu entorno imediato, quando este manifesta uma tonalidade afetiva e um relevo expressivo (que atrai ou repele).
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Toda ambiance é ambiante (pois nos envolve), mas nem todo meio ambiant é necessariamente ambianciel.
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