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estudos:beaufret:towarnicki:ser-nao-e-ente-1992

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JBFT

  • Jean Beaufret, formado na geração de alunos de Léon Brunschvicg e portanto racionalista e cartesiano, é interrogado sobre o acidente de percurso que o levou a encontrar o pensamento de Heidegger
  • O contato não se deu pela universidade, mas a partir de 1938 pela publicação por Corbin de Qu'est-ce que la métaphysique?, seguido em 1940 pelo encontro fortuito com Maurice Merleau-Ponty na Escola de Estado-Maior de Vincennes, que lhe fala de Husserl e do livro de Sartre, L'Imaginaire, levando-o em 1941, em Cap Ferrat, a optar por estudar Husserl em vez de Hegel, estudo que se estende de 1940 a 1942
    • Somente no verão de 1942 tem a sensação de compreender algo de Husserl, mas ainda não Heidegger
  • A partir de 1942, como professor de filosofia no liceu de Grenoble, começa a ler Heidegger, encontrando na biblioteca da Faculdade Sein und Zeit e provavelmente Kant e o problema da metafísica, intensificando o estudo a partir de outubro de 1942 em Lyon graças à biblioteca local e à presença do amigo Joseph Rovan, que publicara na revista Arbalète páginas traduzidas de Sein und Zeit
    • O trabalho sobre Heidegger, iniciado com Joseph Rovan em 1942, ocupa principalmente os anos de 1942 a 1944
  • A primeira impressão de compreensão ocorre na manhã histórica de 6 de junho de 1944, dia do desembarque na Normandia, quando, diante de um trecho aberto de Sein und Zeit, sente pela primeira vez começar a entender Heidegger, reprovando-se por não sentir com intensidade suficiente o entusiasmo devido ao anúncio do desembarque
  • Interrogado se hoje tem a impressão de ter realmente compreendido Heidegger, responde que ainda hoje diz a um amigo “acabo de compreender Heidegger”, repetição que já durava trinta anos, remontando a 1947, quando, no último número da revista Fontaine, publicara o artigo “Heidegger et le problème de la vérité”, primeira tentativa de compreensão que hoje lhe parece um tanto irrisória
  • Questionado se a dificuldade vem da língua ou dos problemas de Heidegger, responde que os problemas enfrentados são problemas inaparentes, cuja problemática real não se revela facilmente na leitura, pois Heidegger é obrigado a usar a língua da filosofia, o que desvia a atenção do leitor daquilo em relação a que ele marca uma ultrapassagem
    • Menciona ter finalmente compreendido, na própria manhã da entrevista, o sentido de uma frase de Sein und Zeit segundo a qual até os pré-socráticos, mais precisamente Parmênides, haviam saltado por cima do problema do mundo
  • Questionado sobre como sentiu, enquanto aluno de Léon Brunschvicg e estudioso de Descartes por tantos anos, o retorno do olhar operado por Heidegger, responde que teve a impressão de se tratar de algo inteiramente diferente
    • Reconhece a Brunschvicg o mérito de tê-lo ajudado a compreender melhor Descartes, Leibniz e Kant, mas identifica como carência o fundo mesmo das coisas, isto é, o que era, afinal, essa coisa estranha chamada filosofia ou metafísica, termo que Heidegger considera sinônimo posterior de filosofia, cunhado apenas por ocasião da publicação dos escritos de Aristóteles em Roma, sob a fórmula grega ta meta ta physika
    • A leitura da conferência inaugural de Heidegger em Friburgo em 1929, intitulada Qu'est-ce que la métaphysique?, não esclarecera em nada o enigma da questão
  • Interrogado sobre as circunstâncias do primeiro encontro com Heidegger, atribui ao interlocutor o mérito de ter, um ano antes, em Friburgo, entregado a Heidegger números da revista Confluences contendo seus estudos intitulados “Qu'est-ce que l'existentialisme?”
    • Sabendo por essa via que Heidegger estava vivo e residia em Friburgo, consegue enviar-lhe uma carta por intermédio de um alsaciano chamado Palmer, encontrado por acaso em Paris, que viaja a Friburgo e, dez dias depois, traz de volta a Paris uma carta de Heidegger e um exemplar de L'essence de la vérité, publicado em 1943
    • O encontro pessoal ocorre em setembro de 1946, por volta do dia 10, em Todtnauberg, ao longo de uma breve visita e, posteriormente, de duas jornadas adicionais durante uma viagem à Áustria
    • A primeira luz de compreensão vem de uma frase de Heidegger explicando que, em Qu'est-ce que la métaphysique?, para dizer que o ser não era um ente, este acabara escrevendo que o ser era um “nada”, das Nichts, significando simplesmente “nada de ente”, à maneira de um prato sobre uma mesa ou de uma porta que se abre ou fecha
  • Questionado sobre como o encontro pessoal permitiu situar melhor o caminho de pensamento de Heidegger, relata que, ao encontrá-lo, buscava o autor de Sein und Zeit de 1927, mas que as conversas não versavam sobre o “tempo”, e sim sobre o ente, participe presente do verbo ser, opondo-se então “ser” a “étant” e não “ser” a “tempo”
    • O termo étant não fazia parte do francês corrente da época, sendo frequentemente traduzido por “existant”, uso que Beaufret manteve até 1952 em suas anotações
    • A dificuldade fundamental residia em situar o pensamento de Heidegger no entremeio de um infinitivo, ser, e de um particípio, étant, restando saber onde estaria, então, o “tempo”
    • Era extremamente difícil fazer Heidegger falar sobre essa questão, pois todo o seu movimento consistia em ultrapassar a própria obra pioneira, Sein und Zeit
    • Um texto trazido da Alemanha, reproduzindo a conferência de 1929 acompanhada de um posfácio, continha a frase segundo a qual pertence à verdade do ser que jamais o ser desdobre seu vigor sem o ente, nem jamais o ente seja possível sem o ser
    • Uma vez que o ser não é nada de ente, e por isso era dito o “nada” na conferência Qu'est-ce que la métaphysique?, permanece o enigma de como a questão do ser constitui a ligação entre o étant — um cinzeiro, um par de óculos, uma porta, uma janela — e algo que não é nada de étant
  • A novidade radical desse questionamento aparece na revelação de que, desde Platão, tudo já estava dito na palavra essencial de “participação”, entendida por Heidegger como participação do ser no ente e do ente no ser, esclarecimento que, paradoxalmente, torna as coisas cada vez mais nebulosas
  • Interrogado sobre o sentido da frase heideggeriana “o ser é ameaçado pelo ente”, situa-a na conferência de 1936 em Roma, Hölderlin und das Wesen der Dichtung, onde se lê que o perigo é a ameaça do ser pelo ente
    • Levanta o paradoxo de como o ser pode ser ameaçado pelo ente se, por um lado, jamais o ser desdobra seu vigor sem o ente e, por outro, jamais o ente é possível sem o ser, havendo assim, nessa participação já evocada por Platão, dois elementos díspares em que o étant constitui ameaça para o ser
    • Perante o étant — um pote vazio, uma garrafa cheia, uma fonte que corre ou que seca — indaga-se de suas qualidades, ao passo que o ser não é propriedade nem qualidade do étant e, no entanto, não pode desdobrar seu vigor sem esse étant que constantemente o ameaça
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