Action unknown: copypageplugin__copy
estudos:beaufret:towarnicki:11
11
JBFT
-
A entrevista, publicada em 1979 na revista Magazine littéraire sob o título “Le Nietzsche de Heidegger”, não integra as dez emissões da France Culture, tendo sido sugerida por Jean Beaufret como complemento ao livro, esclarecendo uma das figuras do projeto matemático da natureza, que nos Tempos modernos assume, na leitura heideggeriana de Nietzsche, a forma última de um projeto de taxação dos valores, mais radical ainda que o projeto matemático, mantendo em si a mesma potência calculadora
-
Cita o poema dedicado a Goethe ao final do Gai Savoir sobre o mundo que gira roçando um alvo após outro, que Jean Beaufret costumava citar em seus cursos, e evoca a imagem de um mundo de espaço uniforme, indiferente ao passado, cuja ausência aparente de aflição poderia bem ser, na expressão de Heidegger, a aflição suprema e mais oculta
Interrogado sobre a originalidade da abordagem heideggeriana de Nietzsche frente às interpretações conhecidas, esclarece que Heidegger não aborda diretamente a filosofia de Nietzsche, partindo antes da pergunta “o que é, então, a filosofia?”, formulada em Cerisy em 1955, cuja não-colocação seria geradora de confusão, remetendo à definição da metafísica dada em Qu'est-ce que la métaphysique? de 1929-
Reconhece que Nietzsche examina o que chama valores, buscando seus pressupostos e o princípio de toda avaliação, sendo filósofo no sentido voltairiano mas não platônico, exceto quando define todo valor a partir da vontade de potência, essência mais íntima do ser, confrontada por sua vez ao eterno retorno do idêntico
-
Situa a originalidade heideggeriana em ser, pela primeira vez, uma posição crítica diante de Nietzsche, e não mera recusa ou apologia, tomando-o como um dos cumes, e mesmo a culminação última, da linha de cume espiritual que é a filosofia
Sobre por que Heidegger chama Nietzsche de último filósofo na história bimilenar da metafísica ocidental, explica que a filosofia, tendo por objeto próprio a questão do ser, teve um começo abrupto na Grécia entre os séculos VI e V, com Heráclito e Parmênides, podendo por isso também ter um fim, sendo este o resgate necessário daquele-
Cita a autodescrição de Nietzsche em 1872 como “o último filósofo”, associada à definição de sua filosofia como reviravolta do platonismo, interrogando se restaria reverter essa reviravolta, solução de Nietzsche, ou retroceder do próprio platonismo para um novo início, solução de Heidegger, sendo em ambos os casos Nietzsche o último filósofo
Diante da observação de que Heidegger jamais opõe ao racionalismo cartesiano um pretenso irracionalismo nietzschiano, descobrindo antes na vontade de potência o domínio sem reservas da razão calculante, confirma tratar-se de abordagem inatual e paradoxal, comparando o apelo nietzschiano à afetividade, como o apelo pascaliano ao coração, a algo que em nada cede ao cálculo mais rigoroso-
Cita a Genealogia da moral (III, §12) sobre a objetividade crescente conforme se dá voz às disposições afetivas, e conclui que o projeto avaliativo nietzschiano é mais radical, e não menos exato, que o projeto matemático cartesiano, conservando este último, porém, sua potência calculadora
Sobre como o projeto matemático da natureza, de Galileu, Descartes e Leibniz, prepara e responde à profecia nietzschiana da luta pela dominação da terra, remonta à declaração de Galileu no Saggiatore de 1623 sobre a lingua matematica do livro da natureza, retomada e ampliada catorze anos depois no Discours de la méthode, de onde decorre a fórmula cartesiana do homem como mestre e possuidor da natureza, e à frase de Bacon sobre a coincidência unitiva entre ciência e potência humana-
Observa que Bíblia, Bacon, Descartes e Nietzsche concordam no fundo, ultrapassando a admiração grega diante do étant, mas que a diferença entre Descartes e Nietzsche está em que o primeiro vai da calculabilidade do fenômeno à dominabilidade da natureza, enquanto o caminho de Nietzsche é o inverso, pois a verdadeira língua ainda por decifrar seria a dos valores e de sua apreciação, mais exata que o cálculo algébrico
Sobre a afirmação de Chemins qui ne mènent nulle part de que a essência da metafísica e da técnica moderna partilham o mesmo segredo, distingue o sentido corrente de técnica, determinação científica dos meios para um fim, da techne grega, que para Platão não designa o conhecimento dos meios, mas a abertura ou desvelamento, aletheia, do étant, tendo sentido originalmente aperitivo, anterior à distinção entre teoria e prática-
Conclui que a técnica moderna, ainda que decalque grego, preserva algo do sentido original de techne, podendo caracterizar-se, em sua onipresença, como a verdadeira filosofia de nosso mundo, mais reveladora, em seu próprio funcionamento, do que o acréscimo de poder que proporciona ao homem
-
Observa que Nietzsche se preocupou com a técnica de dominação do mundo através de uma sociedade hierarquizada de dirigentes e trabalhadores, mas jamais ouviu o termo técnica com ouvido novo, limitação partilhada pelo livro de Ernst Jünger, Der Arbeiter, de 1932, que pensa o tipo de sociedade instaurada sob nossos olhos sem questionar a filosofia nietzschiana que o prenuncia
Interrogado sobre o sentido da fórmula heideggeriana segundo a qual a metafísica de Nietzsche revela na vontade de potência o penúltimo grau do desdobramento volitivo do ser do étant como vontade de vontade, reconhece tratar-se de dificuldade jamais formalmente explicitada por Heidegger, nem mesmo no Nietzsche de 1961, evocando o método dos três percursos que Heidegger aplicara à interpretação do Coro de Antígona em Introdução à metafísica-
Descreve o primeiro percurso, referido à estrutura onto-teológica da metafísica, cujo protótipo é a Metafísica de Aristóteles, mostrando como a conexão entre vontade de potência e eterno retorno responde a essa estrutura
-
Descreve o segundo percurso, que evoca a distinção entre essência e existência própria da metafísica medieval e moderna, mostrando que a dualidade nietzschiana responde a esse desdobramento ontológico
-
Descreve o terceiro percurso, no qual o eterno retorno do idêntico deixa de ser pensado como contraparte metafísica da vontade de potência para determiná-la, em unidade mais imediata, como sua própria essência, dando origem à reviravolta da vontade de potência em vontade de vontade, transposição da realização efetiva do objeto em reiteração metódica da ação, cujo verdadeiro objeto passa a ser o próprio refazer, nomeado pelos pioneiros da vontade de vontade como planificação
Observa que Nietzsche, ao pensar a vontade de potência, tinha em mente antes a epopeia napoleônica, fascinado por ela após Stendhal, interrogando-se sobre a compatibilidade entre essa aventura heroica e o eterno retorno do idêntico, impasse que constituiria não um fracasso ocasional, mas o fracasso grandioso, nos próprios limites, de toda pensée metafísica de origem grega-
Conclui que o pensamento do eterno retorno, cronologicamente anterior ao da vontade de potência, vai mais longe que este e o arrasta para a transformação final na Un-wesen, in-essência, que é a vontade de vontade, algo que o próprio Nietzsche talvez pressentisse já no tempo de Zaratustra, na passagem sobre O Convalescente, marcada pela náusea
-
Cita a formulação de Heidegger em Dépassement de la métaphysique, §XI, segundo a qual a vontade de potência só se concebe a partir da vontade de vontade, mais radical, reconhecível somente uma vez engajada a metafísica na passagem do primeiro ao outro começo
Conclui que a filosofia de Nietzsche marca assim o penúltimo grau do desdobramento volitivo do ser do étant como vontade de vontade, prefigurando o grau último caracterizado em Qu'est-ce que penser? como o mais alto triunfo da metafísica da vontade, o eterno retorno do idêntico querendo a perpetuidade de seu próprio querer, triunfo que corresponde à linha zero do niilismo cujo avanço Nietzsche pressente sem plenamente sabê-lo, pensando assim precursoramente o mundo da técnica moderna, cujo pensador ainda por vir seria menos um filósofo que aquele que Heidegger designa como retrocedendo da filosofia até um pensamento do qual ela mesma, por mais de dois milênios, foi apenas prelúdio, e do qual Sein und Zeit seria a primeira colocação em marchaestudos/beaufret/towarnicki/11.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
