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Marxismo
JBEH
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O existencialismo, sobretudo em Sartre, apresenta-se como uma tentativa resoluta de reinserir a liberdade no fundamento mesmo da condição humana, fazendo do tempo a dimensão da liberdade e atribuindo ao homem a positividade de um escolha pela qual ele se torna autor responsável por seu próprio destino, numa linha de tradição ilustre que vai de Platão a Kierkegaard.
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A pretensão existencialista de instaurar uma instância soberana no homem, que nada deve a nada exterior, precisa se medir com o argumento determinista, cuja forma mais positivamente atual é a sociologia marxista, que opõe à liberdade radical a sucessão de fases em um processo necessário.
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A crítica mais radical dos marxistas aos existencialistas é a de que estes se descolam do real para buscar no vazio e no arbítrio dos conceitos um espaço para seu idealismo inconfessado, mas essa acusação merece um exame atento, pois o descolamento existencialista não é uma evasão no imaginário, mas uma forma de iluminar o ser-no-mundo.
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Para o existencialismo, o homem não está no mundo no sentido vulgar do encaixamento, pois ele é, de fundo a fundo e no mais vivo de seu existir, um ser-que-se-estilhaça-consciência-no-mundo, de tal modo que fora desse estilhaçamento no mundo não resta mais nada que se possa designar como homem.
A recusa do existencialismo em ver no homem apenas o produto de um determinismo material, posicionado por um ato de fé simétrico ao da criação divina, não visa negligenciar a positividade da situação, mas sim aprofundá-la como ser-em-situação, rejeitando a alternativa entre idealismo e materialismo em nome de uma descrição mais fiel do dado.-
A fenomenologia e o existencialismo, ao recusarem a alternativa entre idealismo e materialismo, buscam uma melhor descrição do dado, rejeitando a metáfora do encaixamento em favor de uma metáfora de eclosões (Aufbruch) ou de estilhaçamento.
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O ser-no-mundo, ou a situação, é uma qualificação a priori da condição humana, e não o resultado de um encaixamento, de modo que rebaixar o homem a um produto de um determinismo material é uma visão banal e pré-filosófica que ignora a transcendência.
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A modéstia da descrição fenomenológica, que aborda o real no contato ingênuo que temos com ele, é suficiente para o primeiro propósito de recolocar em questão as categorias insuficientes de idealismo e materialismo.
A restauração da liberdade no homem, que o marxismo sempre excluiu como uma espécie de diminuição essencial, pode encontrar sua base na retificação do ponto de partida que faz o existencialismo, pois a Revolução não é apenas uma boa questão ou uma questão de força, mas uma questão de consciência e dignidade.-
A afirmação da dignidade do homem, presente no próprio marxismo, é incompatível com um determinismo que reduziria os proletários à inocência fundamental da árvore diante de seus frutos, pois a tomada de consciência pode ter uma incidência positiva, mas não basta para fundar uma responsabilidade autêntica.
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Os proletários não têm a inocência vegetal da cepa produtora diante da revolução, pois eles fazem sua revolução, proclamam-na justa e se escolhem nela, o que implica um projeto livre e global de si mesmos que não deve nada a nada exterior.
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O engajamento revolucionário, que exige um sacrifício oferecido por generosidade pura e sem retorno, não pode ser reduzido a considerações objetivas de dinâmica social, sendo uma vinda do homem a si mesmo que o iguala à sua mais alta integridade.
O projeto inicial do militante, que reflete a relação originária que o para-si escolhe com sua facticidade e com o mundo, não se deixa recuperar por nenhum determinismo, enraizando-se na subjectividade como a “possibilidade onde tudo é igualmente possível”, onde triunfa Kierkegaard.-
O existencialismo, ao fazer da liberdade um escolha radical, parece se afastar do marxismo, mas a pergunta que se coloca é se o marxismo autêntico não exige, do interior de si mesmo, algo como o existencialismo para não se tornar uma liquidação da liberdade.
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A análise de Marx, ao considerar o real como práxis e sob o ângulo da subjectividade, já faz do homem “em situação” o fato de base a ser esclarecido, mostrando que o homem se faz homem-no-mundo agindo, ou seja, respondendo à situação com o desdobramento de um projeto.
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A obra de Marx, ao definir a praxis humana como produção material, social e histórica, e ao estabelecer a luta de classes como uma condição eidética da humanidade real, aproxima-se da démarche de análise regressiva familiar a Kant, Husserl e Heidegger, revelando as estruturas fundamentais da condição humana: materialidade, socialidade, historicidade e luta.
A filosofia não tem por função trazer revelações inéditas, mas expressar adequadamente, no mais vivo de seu tempo, inquietudes e pressentimentos eternos, e a verdadeira questão é saber se o marxismo autêntico será uma liquidação ou a afirmação mais resoluta da liberdade.-
A função do filósofo não é tanto trazer sempre o novo, mas expressar adequadamente, abraçando a cultura e a linguagem de sua época, inquietudes e intuições de sempre, pois a humanidade nunca terminará com o fenômeno da reminiscência, que é um “reapropriação de si”.
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Nenhuma verdade é definitiva, e filosofar, embora não abra a nada, permite descobertas importantes quanto ao fundamento da certeza que o homem pode ter de si mesmo, respondendo à pergunta “para que serve a filosofia?” com “para que servis vós mesmos?”.
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