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Aristóteles e a Tragédia
JBDH4
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A presença de uma Poética na obra de Aristóteles atesta sua relação e oposição a Platão, pois, se Platão via com bons olhos o afastamento dos poetas do espaço controlado pela filosofia, Aristóteles, ao contrário, considera a poesia como um eco do ser, manifestando o sentido secreto que ele atribui ao vocábulo “ser”, que se diz em modos múltiplos.
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A tragédia, gênero mais decriado por Platão, é colocada por Aristóteles em primeiro lugar entre os gêneros poéticos, superior até mesmo à epopeia, o que não significa que os poetas trágicos estejam acima do incomparável Homero.
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Platão associa o adjetivo “trágico” a uma ideia de rugosidade e de mal acabado, enquanto Aristóteles proclama a superioridade da tragédia sobre a epopeia.
Na Poética, Aristóteles transmite a tradição de que a tragédia se origina do ditirambo, uma tradição que Nietzsche interpreta como um indício de que o coro, que entoava o ditirambo, era o elemento primordial da tragédia, sendo o clima dionisíaco a condição para a intervenção de Apolo.-
Nietzsche se baseia em um verso de Arquíloco para afirmar que o coro é o responsável por entoar o ditirambo, e é nesse clima dionisíaco que Apolo toca com seu cetro aqueles que reconhece como seus.
A Poética atesta o gosto de Aristóteles pelos poetas trágicos, e é provável que ele lesse as tragédias, em voz alta, em vez de assistir às representações, que ele considerava não indispensáveis.-
Aristóteles provavelmente lia as tragédias em voz alta, como era costume antes de Santo Ambrósio, e a Poética menciona expressamente os três grandes trágicos: Ésquilo, Sófocles e Eurípides.
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Os três poetas trágicos, embora contemporâneos, são tão diferentes que parecem separados por muito mais tempo do que realmente estiveram, o que se explica pela enorme aceleração da história na Grécia daquela época.
A definição de tragédia proposta por Aristóteles é propriamente euripidiana, pois ela visa o espectador, ao suscitar piedade e terror e operar a purgação dessas emoções, mas, ao desenvolver a definição, Aristóteles remonta secretamente de Eurípides a Sófocles e a Ésquilo.-
A definição euripidiana da tragédia considera o espectador como a criação por excelência, e o papel da poesia trágica é dar ao espectador o frisson e fazê-lo apiedar-se, o que Nietzsche compara a uma experiência que irrita a epiderme, mas deixa o coração vazio.
Antes mesmo de propor sua definição, Aristóteles havia declarado que o princípio e a alma da tragédia é o mito, o que o coloca no nível de Ésquilo e Sófocles, para quem a tragédia é a apresentação poética do mito, e não sua exploração dramática em benefício do espectador.O mito grego é uma palavra que diz a pertença mútua de homens e deuses, e é originariamente revelador da coisa de que é mito, sendo a sua revelação (alétheia) oposta não ao falso (pseudos), mas ao esquecimento (léthé).-
O termo “mito” não tem uma etimologia segura, e na língua homérica ele se refere à palavra, mas se distingue do “epos” (palavra fonética) e do “logos” (palavra que pode ser verdadeira ou falsa), sendo mais originário que a distinção platônica entre verdade e falsidade.
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O poder do mito é revelado no canto 13 da Odisseia, onde o verbo “mytheisthai” é usado para descrever a ação de Atena ao mostrar a Ítaca a Ulisses, dissipando a névoa que a cobria, o que mostra que a função essencial do mito é mostrar o que é.
O mito grego, como a aparição de uma terra natal, é a alétheia que tem como contrário o esquecimento (léthé), e essa revelação é comparável à “apparition de Combourg” de Chateaubriand ou à “éclatante vérité de son harmonie native” de Baudelaire.-
O mito é a revelação que tira as coisas do esquecimento, como o raio de sol que dissipa a névoa, e é a “aparição primeira” na sua alegria, ou seja, o nascimento de um mundo.
O mito grego tem dois traços característicos: primeiro, ele é essencialmente uma questão de poetas e artistas, e não de profetas e confessores, o que o distingue radicalmente da tradição bíblica, que exige ser lida à letra.-
O divino, no mito grego, não é anunciado por profetas, mas por poetas e artistas, o que é uma singularidade que o distingue da Bíblia, onde a palavra é fixada por escrito e deve ser lida à letra.
Em segundo lugar, na apresentação mítica grega, o divino nunca é a palavra final, pois há um destino que está além do divino e ao qual o próprio deus está submetido, sendo a enigma do ser e de seu movimento mais determinante do que a indagação teológica.-
No mito grego, não é Zeus, mas a balança que ele segura, que decide a vitória, e essa característica persiste na filosofia, onde o divino só pode ser tornado falante em nome do ser.
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